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Por que tantas mulheres ainda sentem culpa quando param?

Você finalmente termina tudo o que precisava fazer ou, pelo menos, o que foi possível naquele dia. Senta no sofá, prepara um café, pega o celular ou começa uma série. Poucos minutos depois, surge uma sensação conhecida: a impressão de que esqueceu alguma coisa, que deveria estar resolvendo um problema, respondendo uma mensagem ou sendo útil de alguma forma. O corpo até parou, mas a mente continua correndo.

Para muitas mulheres, descansar deixou de ser um momento de recuperação e passou a ser um espaço ocupado pela culpa.

Vivemos em uma sociedade que mede valor pela produtividade. Quanto mais fazemos, mais parecemos merecer reconhecimento. Essa lógica pesa ainda mais sobre as mulheres, historicamente educadas para cuidar, servir e colocar as necessidades dos outros à frente das próprias. Desde cedo, muitas aprendem que ser uma “boa mulher” significa estar sempre disponível. Descansar, nesse contexto, quase parece um ato de negligência.

Não é por acaso que tantas mulheres têm dificuldade em aproveitar momentos de pausa. Algumas limpam a casa antes de viajar para “voltar com tudo organizado”. Outras levam o notebook para as férias “caso apareça alguma urgência”. Há quem sinta ansiedade simplesmente por não estar produzindo.

No consultório, percebo que essa culpa não nasce da preguiça, mas da crença de que o descanso precisa ser merecido. O problema é que essa lista de tarefas nunca termina. Sempre haverá algo para resolver. Se o descanso depender do fim das responsabilidades, ele nunca chegará.

A neurociência mostra justamente o contrário do que muitas acreditam: é durante as pausas que o cérebro organiza informações, fortalece a memória, estimula a criatividade e recupera recursos importantes para o equilíbrio emocional. Descansar não interrompe a produtividade; torna possível sustentá-la de forma saudável.

Talvez exista, porém, uma pergunta ainda mais importante do que “quanto eu produzi hoje?”: quem somos quando não estamos fazendo nada?

Essa costuma ser uma questão desconfortável porque muitas mulheres aprenderam a construir sua identidade em torno da utilidade. Quando param, surge o medo de parecerem insuficientes, egoístas ou improdutivas.

Mas existe uma diferença fundamental entre ter valor e ter função.

O valor de uma mulher não pode depender da quantidade de tarefas que realiza nem da velocidade com que resolve os problemas de todos ao seu redor. Ela continua sendo suficiente quando descansa. Continua sendo competente quando desacelera. Continua sendo digna de amor quando escolhe cuidar de si.

Talvez uma das maiores revoluções silenciosas da vida adulta seja compreender que o descanso não precisa ser justificado. Ele não é um prêmio por ter dado conta de tudo, mas uma necessidade biológica, emocional e humana.

Em um mundo que aplaude quem nunca para, permitir-se respirar é um gesto de coragem.

Porque descansar também é uma forma de dizer ao próprio corpo: “eu também importo.”

E talvez seja justamente nessa pausa que muitas mulheres reencontrem algo que a correria lhes roubou há muito tempo: a possibilidade de existir para além daquilo que produzem.

Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Vanessa é supervisora de psicólogas e desenvolve projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.

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