Colabore com o Eufemea
Advertisement

Também existe luto por quem nunca foi nosso

Por Vanessa Albuquerque, Psicóloga e Educadora em Sexualidade

Nem todo luto acontece depois de um adeus. Alguns começam antes mesmo de existir um “nós”. Eles nascem quando percebemos que aquilo que imaginamos nunca vai acontecer.

Não houve um casamento para terminar. Não havia uma casa construída a dois. Às vezes, nem sequer houve um relacionamento. Ainda assim, existiram planos, conversas, expectativas, mensagens relidas inúmeras vezes e um futuro cuidadosamente desenhado pela imaginação. Quando esse futuro desaparece, a dor é real.

Nos últimos meses, as redes sociais têm dado nome a uma experiência vivida por muitas mulheres: o luto pelo relacionamento que nunca aconteceu. Não é apenas a saudade de alguém. É a despedida da história que acreditávamos que seria vivida.

A psicologia nos mostra que o ser humano não cria vínculos apenas com pessoas. Criamos vínculos com expectativas, projetos, sonhos e possibilidades. Por isso, quando uma relação não se concretiza ou termina antes mesmo de começar, não perdemos somente alguém. Perdemos também a versão de nós mesmas que existia naquele futuro imaginado.

Talvez seja por isso que tantas mulheres se sintam constrangidas ao falar sobre essa dor. Afinal, como explicar o sofrimento por algo que, aos olhos dos outros, “nem chegou a existir”? Frases como “vocês nem namoravam”, “foi só um rolo” ou “segue em frente” costumam minimizar uma experiência emocional legítima, como se a intensidade de um sentimento pudesse ser medida pelo tempo de relacionamento ou pela existência de um compromisso formal.

Mas a dor não segue esse tipo de lógica. Ela acompanha o significado que aquela experiência teve para quem a viveu.

Em muitos casos, o sofrimento não está relacionado apenas à pessoa que foi embora. Está ligado à ruptura de expectativas construídas em silêncio, aos planos feitos mentalmente, à viagem que nunca aconteceu, à família que nunca foi formada, à conversa que nunca existiu e à possibilidade que deixou de existir antes mesmo de ganhar forma.

Quando não reconhecemos esse luto, também impedimos que ele seja elaborado. E todo luto que não encontra espaço para ser vivido costuma permanecer aberto por mais tempo.

Como psicóloga, percebo que muitas mulheres chegam ao consultório acreditando que precisam esquecer rapidamente ou sentir vergonha daquilo que viveram. No entanto, elaborar uma perda não significa provar aos outros que ela foi importante. Significa reconhecer que algo fez sentido para nós e que merece ser acolhido antes de ser deixado para trás.

Existe ainda outro aspecto delicado: muitas vezes, o maior sofrimento não está em perder aquela pessoa, mas em perder a esperança de que, finalmente, alguém enxergaria quem somos de verdade. Quando isso acontece, a frustração pode despertar inseguranças antigas e alimentar a falsa ideia de que “faltou alguma coisa” em nós.

Mas nem todo desencontro revela insuficiência. Às vezes, revela apenas incompatibilidade.

Nem toda história interrompida representa fracasso. Às vezes, representa proteção. A maturidade emocional não elimina o sofrimento, mas nos permite compreender que o amor não pode ser sustentado apenas por expectativas. Relacionamentos saudáveis são construídos no encontro entre duas realidades, não apenas pela força das nossas idealizações.

Talvez o verdadeiro desafio não seja esquecer quem nunca foi nosso, mas despedir-se, com carinho, da mulher que acreditava que aquela história precisava acontecer para que ela pudesse ser feliz.

Porque algumas perdas não encerram apenas um relacionamento. Elas encerram uma versão da nossa própria vida. E, embora isso doa, também abrem espaço para que outra história — mais real, mais consciente e mais livre — finalmente possa começar.

Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Também atua na supervisão de psicólogas e em projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.

*Com Assessoria

plugins premium WordPress