Por Vanessa Albuquerque, Psicóloga e Educadora em Sexualidade
Você sabia que, entre corredores, até a meia pode mandar um recado?
Foi meu personal, um querido, e que tem muitos amigos corredores, quem me contou uma história que eu, sinceramente, achei curiosíssima: existe um código circulando entre corredores de rua em que a meia azul sinaliza que a pessoa é solteira e está aberta a conhecer alguém.
Sim. Você pode estar ali, concentrada no pace, tentando sobreviver ao último quilômetro, e alguém pode estar lendo o seu tornozelo como quem lê uma placa.
Confesso que fui pesquisar.
A história da meia azul ganhou força no Brasil a partir de uma iniciativa criada para aproximar pessoas solteiras que compartilham o universo da corrida. A ideia era simples: criar um sinal discreto, facilmente reconhecível e que permitisse uma aproximação sem aquela necessidade de perguntar diretamente: “você está solteiro?”.
E talvez seja justamente isso que torne a história tão interessante, porque nós adoramos códigos. Criamos maneiras de dizer coisas sem precisar dizê-las. Um olhar mais demorado, uma música compartilhada, uma curtida que aparece justamente naquela foto antiga, uma roupa escolhida com uma intenção específica, um emoji que, dependendo da conversa, pode significar absolutamente qualquer coisa, e, agora, aparentemente, temos também a meia.
A corrida, que já é um espaço de encontro aqui em Maceió, ganhou uma espécie de linguagem própria e há algo divertido nisso: em meio a tanta tecnologia criada para aproximar pessoas, ainda inventamos maneiras analógicas de dizer “estou disponível”.
Claro que não existe um dicionário universal das cores das meias, e nem todo corredor de meia azul está necessariamente procurando um relacionamento. A própria história nasceu de uma iniciativa específica e foi sendo incorporada, reinterpretada e compartilhada pelos corredores, mas talvez seja justamente essa espontaneidade que faça a brincadeira funcionar.
No fundo, a meia azul não garante absolutamente nada. Ela não diz se aquela pessoa é interessante, gentil, engraçada, compatível ou se vai conseguir acompanhar seu pace. Ela só diz uma coisa: “Se quiser conversar, talvez eu esteja aberto a isso.”, e já é alguma coisa.
Vivemos em uma época em que conhecer alguém parece exigir cadastro, algoritmo, fotografia escolhida estrategicamente, biografia de três linhas e uma sequência de mensagens que muitas vezes começa com “oi, tudo bem?” e termina no esquecimento.
Então, confesso que acho simpática a ideia de voltar a ter pequenos sinais no mundo real.
Talvez seja uma bobagem, e até mesmo marketing. Talvez seja apenas uma brincadeira que ganhou vida própria, mas também pode ser uma lembrança de que ainda existem encontros que acontecem sem planejamento, sem algoritmo e sem que ninguém tenha precisado deslizar o dedo para a direita.
Às vezes, basta estar no mesmo caminho e, quem sabe, usar a meia certa.
Agora me diz: você já conhecia esse código ou, como eu, estava completamente por fora?
Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Vanessa é supervisora de psicólogas e destaca projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.