Por Vanessa Albuquerque, psicóloga e educadora em sexualidade
Eles dividem a casa. A cama. As contas. A agenda. Talvez até os filhos. Mas, quando foi a última vez que realmente conversaram? Não sobre quem vai buscar as crianças, o que falta no supermercado ou qual boleto precisa ser pago, mas sobre aquilo que sentem, desejam, temem ou sonham. Afinal, dividir a cama não significa necessariamente dividir a vida.
Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distraídos uns dos outros. O celular está na mesa durante o jantar, a televisão permanece ligada enquanto o casal conversa, o trabalho invade a noite, as notificações interrompem momentos de descanso e, quando finalmente existe algum tempo livre, muitas vezes cada um procura seu próprio mundo em uma tela.
A intimidade, porém, não acontece apenas quando estamos fisicamente próximos. Ela precisa de presença, e presença exige mais do que estar no mesmo ambiente.
No consultório, é comum encontrar casais que não deixaram de se amar, mas deixaram de se encontrar. A rotina foi ocupando os espaços que antes pertenciam à conversa, ao toque, à curiosidade pelo outro e à construção de experiências compartilhadas.
Aos poucos, o casal pode se transformar em uma equipe extremamente eficiente: funcionam bem, organizam a vida, resolvem problemas, mas já não sabem conversar sobre o que acontece dentro de cada um. E isso também chega à sexualidade.
Quando existe cansaço acumulado, ressentimentos não elaborados, excesso de responsabilidades e pouca conexão emocional, o desejo pode ser afetado. Não porque necessariamente exista falta de amor, mas porque desejo e intimidade precisam de espaço para existir.
É difícil desejar alguém quando a relação se transformou exclusivamente em uma lista de tarefas. Também é difícil sentir-se desejada quando o único toque recebido durante o dia é aquele que pede, aponta, chama ou organiza alguma coisa.
Quando um casal procura ajuda por dificuldades sexuais, nem sempre a questão está no sexo. Às vezes, ela começa muito antes. Começa na falta de conversa, na ausência de tempo de qualidade, na sensação de não ser visto, na acumulação de pequenas mágoas que nunca encontram espaço para serem elaboradas, na vida que vai sendo administrada enquanto a relação vai sendo deixada para depois.
Existe ainda uma armadilha: acreditar que a intimidade precisa acontecer espontaneamente. Como se casais felizes naturalmente encontrassem tempo para conversar, namorar, fazer sexo e se conectar.
A realidade é menos romântica e talvez mais bonita. Em uma vida adulta cheia de responsabilidades, a intimidade também precisa ser cuidada, protegida e priorizada.
Isso pode significar jantar sem celulares. Caminhar juntos. Perguntar “como você está?” e realmente escutar a resposta. Recuperar o hábito de se tocar sem que todo toque precise terminar em sexo. Falar sobre desejos antes que eles se transformem em frustrações. Criar espaços em que o casal possa existir para além das funções de pai, mãe, profissional ou administrador da casa.
E talvez uma das perguntas mais importantes seja: “Quando foi a última vez que você teve curiosidade sobre a pessoa com quem vive?”
Relacionamentos não sobrevivem apenas de história compartilhada. Precisam de presença no presente. Afinal, amar alguém durante muitos anos não significa conhecer essa pessoa para sempre.
As pessoas mudam. Os desejos mudam. Os corpos mudam. As prioridades mudam. E um relacionamento saudável precisa encontrar maneiras de acompanhar essas transformações.
Morar junto é compartilhar um espaço, mas intimidade é construir, todos os dias, um lugar onde duas pessoas ainda consigam se encontrar.
Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Vanessa é supervisora de psicólogas e destaca projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.