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Do tabu à autonomia: a construção de patrimônio como liberdade de escolha

Por Sol Gama

Conversar sobre dinheiro, investimentos e, principalmente, sobre a construção de patrimônio próprio ainda gera um desconforto silencioso entre as mulheres. Historicamente, fomos ensinadas a cuidar — do lar, dos filhos, dos parceiros —, mas raramente fomos estimuladas a acumular riqueza ou a pensar estrategicamente no longo prazo.

De fato, até 1962, mulheres casadas precisavam de autorização dos maridos para trabalhar ou gerenciar bens. Embora as mulheres assumam a administração diária dos lares, essa gestão raramente é validada como uma habilidade financeira real. O mercado de investimentos sempre se comunicou de forma técnica e masculina, ignorando que o gerenciamento do dia a dia é, em si, o primeiro passo para lidar com o dinheiro.

Essa falta de validação e de educação financeira se choca diretamente com a nossa realidade social. Hoje, os lares sustentados por mulheres são a maioria no Brasil: representam 52% dos domicílios (cerca de 41 milhões de lares). Muitas dessas mulheres, em especial as “mães solo”, vivem em um constante modo de sobrevivência.

Sobrecarregadas pela dupla jornada e enfrentando uma desigualdade salarial em que recebem 21% a menos do que os homens, planejar o amanhã torna-se um desafio distante. Quando essas mulheres conseguem investir, costumam direcionar os recursos para o próprio desenvolvimento profissional, buscando melhorar sua renda imediata para o sustento familiar, o que deixa a construção patrimonial em segundo plano.

É preciso, portanto, quebrar esse tabu e redefinir o que significa investir. Como bem aponta Carolina Cavenaghi, fundadora da Fin4She, “mulher não é ensinada a construir patrimônio”. Cavenaghi nos lembra de que cuidar do próprio dinheiro exige uma permissão interna para aceitar que acumular patrimônio não é um ato de egoísmo, mas sim de responsabilidade e autocuidado.

Não se trata de uma busca por status ou vaidade, mas sim de garantir poder de escolha. A escritora Elisa Rosenthal, autora do livro Proprietárias, resume com precisão esse sentimento ao afirmar que o patrimônio nunca foi apenas sobre ter bens, mas sim sobre ter escolha e autonomia. Para ela, a mulher que constrói o próprio patrimônio tem a liberdade de decidir onde morar, como viver, quando ficar e quando ir embora, sem precisar pedir permissão.

Essa autonomia financeira é, inclusive, uma ferramenta essencial de proteção: dados do DataSenado revelam que aproximadamente 40% das mulheres que sofrem violência doméstica permanecem na relação abusiva por dependência financeira.

Independência financeira não se limita a gerar renda. Trata-se de aprender a lidar com o dinheiro, organizar-se e fazê-lo trabalhar a nosso favor para que possamos, finalmente, sair da zona de sobrevivência.

O patrimônio é a estrutura que nos garante o direito de ir e vir. É o planejamento, a ação e a transformação dos nossos recursos na maior de todas as riquezas: a nossa própria liberdade de escolha.

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