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Eu, Fêmea: “Ele criou expectativas, sumiu e não assumiu o que fez comigo”

Relato de Bianca Silva*

Eu conheci um homem que parecia saber exatamente como me conquistar. No começo, ele estava presente. Mandava mensagens, queria conversar, perguntava sobre a minha vida, demonstrava interesse. Dizia que queria me ver, viver momentos comigo, conhecer lugares ao meu lado. Falava sobre o que sentia e fazia questão de demonstrar que aquilo não era apenas mais uma conversa.

E eu acreditei. Não porque inventei uma história sozinha, mas porque ele também estava construindo aquela história comigo. Ele falava, demonstrava, fazia planos, me elogiava…

Por um momento, achei que tinha encontrado alguém que realmente queria estar ali. Até que ele deixou de estar. Primeiro, as mensagens diminuíram. Depois, as respostas demoravam. Até que, em algum momento, ele simplesmente desapareceu. E o mais difícil não foi apenas perceber que ele tinha ido embora. Foi tentar entender como alguém que parecia tão interessado conseguiu, de repente, agir como se nada daquilo tivesse existido.

Passei dias tentando encontrar o meu erro. Pensei que talvez tivesse falado demais. Demonstrado demais. Criado expectativas demais. Talvez eu tivesse entendido tudo errado. Talvez aquela conexão que eu senti não tivesse sido sentida por ele da mesma forma. Busquei respostas mandando mensagens, ligando, mas ele não me respondia mais.

Mas, quanto mais eu pensava, mais uma pergunta começou a me incomodar: como eu poderia ter inventado sozinha uma história que ele também ajudou a construir?

Porque é muito fácil dizer que uma mulher criou expectativas quando não se quer reconhecer o próprio papel na relação. É confortável chamá-la de intensa demais, emocionada demais ou carente demais. Assim, não é preciso olhar para as mensagens que foram enviadas, para os planos que foram feitos, para a intimidade que foi criada ou para as promessas, mesmo que implícitas, que foram alimentadas.

Ele não era obrigado a ficar. E eu nunca precisei que fosse, mas existe uma diferença entre não querer continuar e fazer alguém acreditar que tudo o que aconteceu existiu apenas na cabeça dela.

Em algum momento, decidi procurá-lo. Não fui em busca de uma promessa de permanência. Eu não queria convencê-lo a ficar. Queria apenas uma conversa. Queria entender como alguém podia ter sido tão presente, demonstrado tanto interesse e, depois, simplesmente desaparecer.

Quando tentei falar sobre a responsabilidade que ele também tinha naquela relação, ouvi que “não era bem assim”. E, de repente, aquilo que eu havia vivido parecia estar sendo reescrito.

E foi nesse momento que percebi como pode ser doloroso tentar conversar com alguém que não reconhece a própria participação na história. Porque não bastava ele não assumir a forma como havia se afastado. Era como se, para se livrar de qualquer responsabilidade, fosse necessário transformar a minha reação no problema.

Eu não estava mais falando sobre as mensagens que ele enviou, sobre as demonstrações que fez ou sobre a intimidade que ajudou a construir. A conversa, aos poucos, passou a ser sobre mim. Sobre como eu havia interpretado tudo. Sobre o que eu esperava. Sobre a forma como eu tinha reagido.

E, por um instante, quase acreditei. Quase voltei a me perguntar se eu tinha inventado sinais onde eles não existiam. Se tinha dado significado demais às palavras. Se tinha sido intensa demais.

Mas existe uma diferença entre alguém criar sozinho expectativas sobre uma relação e alguém responder emocionalmente a uma história que foi construída por duas pessoas.

Reconhecer a própria responsabilidade não significa assumir a obrigação de ficar. Ninguém é obrigado a permanecer em uma relação apenas porque, em algum momento, demonstrou interesse. Os sentimentos mudam. O desejo muda. As pessoas podem perceber que não querem continuar.

Mas existe uma diferença entre mudar de ideia e fingir que não participou de nada. Existe uma diferença entre dizer “eu não quero mais continuar” e desaparecer, deixando a outra pessoa tentando entender o que fez de errado.

Porque, às vezes, o homem sabe conquistar. Sabe despertar interesse. Sabe observar, dizer as palavras certas, criar proximidade e fazer uma mulher se sentir especial. Mas, quando a conquista deixa de ser apenas um jogo e passa a exigir algo mais difícil, como presença, conversa e responsabilidade, ele se afasta.

E, muitas vezes, ainda deixa para a mulher o peso de explicar por que aquilo não deu certo. Talvez essa seja uma das partes mais perversas dessa experiência: além de lidar com a ausência, a mulher ainda precisa lidar com a culpa que não necessariamente é dela.

Ela começa a se perguntar onde errou. O que deveria ter feito diferente. Em que momento estragou tudo, mas talvez a pergunta também precise ser direcionada a quem foi embora.

O que você fez para que essa mulher acreditasse que havia algo sendo construído?

Porque relações não são feitas apenas por quem se envolve emocionalmente. Quem se aproxima, insiste, demonstra, promete, cria intimidade e alimenta expectativas também participa da história.

Hoje, talvez seja isso que eu tenha entendido. Ele não precisava ficar, mas precisava reconhecer que também esteve ali.

E que transformar uma mulher em “emocionada demais” pode ser uma forma muito conveniente de não precisar olhar para a própria responsabilidade. Por muito tempo, carreguei a culpa por algo que talvez nunca tenha sido meu erro.

Talvez seja por que ainda é tão fácil para alguns homens conquistar uma mulher e, depois, culpá-la por ter acreditado que aquilo significava alguma coisa.

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