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“Um novo começo”: após anos de perda da visão, alagoana recupera a esperança com transplante de córnea

“Eu sabia que aquele ‘sim’ estava me dando uma nova oportunidade de viver.” É assim que Flávia Correia, de 56 anos, resume o que significou receber uma córnea depois de anos convivendo com a perda progressiva da visão e o medo de deixar de enxergar. Natural de Maceió, ela passou por um transplante no olho direito em fevereiro de 2026 e, desde então, conseguiu retomar o trabalho, a independência e os planos para o futuro.

Hoje, Flávia mora em Maceió e trabalha como representante comercial na área de proteção jurídica e financeira para médicos. Antes dos problemas de visão, porém, vivia em Sergipe e era gerente comercial de um banco especializado em crédito consignado, atendendo clientes nos dois estados.

A rotina era marcada por viagens, reuniões e visitas a clientes. Segundo ela, a doença mudou pouco a pouco uma vida que, até então, era bastante ativa.

“Entre 2015 e 2017, enfrentei inflamações recorrentes e passei por vários médicos em Alagoas e Sergipe, recebendo diagnósticos que depois foram revistos”, relatou em entrevista à Eufêmea.

Sem uma resposta definitiva, decidiu procurar atendimento em São Paulo. Foi lá que recebeu o diagnóstico de uveíte recorrente, uma inflamação que atinge a úvea, estrutura formada pela íris, pelo corpo ciliar e pela coroide.

Segundo Flávia, uma troca de colírios, sem a retirada gradual adequada do medicamento, também teria agravado um problema que já existia e contribuído para o avanço das inflamações.

Anos de espera

A indicação para o transplante veio no início de 2018. Flávia entrou inicialmente na fila em Sorocaba, no interior de São Paulo, mas não conseguiu permanecer na cidade.

Ela havia sido demitida durante o período em que investigava a doença e, diante das dificuldades financeiras, precisou voltar para o Nordeste e sair da fila.

Em 2019, retornou a Maceió e recomeçou a vida profissional trabalhando como corretora. Em agosto de 2022, conseguiu entrar novamente na fila para o transplante, desta vez em Alagoas.

Nesse período, a visão foi piorando e Flávia perdeu também parte da percepção de profundidade. Uma das consequências foi precisar deixar de dirigir, algo que afetou diretamente a rotina profissional e a independência.

“Durante anos, vivi com o medo de perder a visão e com as limitações que isso trouxe para minha independência e para minha vida profissional”, contou.

A história de Flávia se soma à de centenas de pacientes que aguardam por um transplante em Alagoas. Segundo dados divulgados pelo Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA-Ufal), 629 pessoas aguardavam por um transplante no estado. Desse total, 564 esperavam por uma córnea, 45 por um rim e 20 por um fígado. Não havia pacientes na fila por um coração no período informado.

A espera por uma córnea segue critérios definidos pelo Sistema Nacional de Transplantes. A lista é organizada por estado ou região e leva em consideração os critérios previstos para cada tipo de transplante.

A ligação que mudou a rotina

Em dezembro de 2025, Flávia recebeu a ligação que esperava havia anos: havia uma córnea disponível para ela. A notícia trouxe sentimentos diferentes ao mesmo tempo.

“Foi uma mistura de surpresa, ansiedade, medo e muita esperança”, relembrou.

A cirurgia foi realizada em fevereiro de 2026. Além do transplante total da córnea no olho direito, Flávia também precisou retirar uma catarata e recebeu uma lente intraocular. Segundo ela, a catarata estava relacionada ao uso prolongado de corticoides.

Os primeiros dias após a operação foram marcados por cuidados e adaptação. Para Flávia, também foram dias de gratidão à pessoa que doou a córnea e à família que autorizou a doação.

“Uma pessoa que eu não conheci e uma família que, mesmo vivendo um momento de dor, disseram ‘sim’ à doação permitiram que eu recuperasse minha esperança e retomasse minha vida”, disse.

Voltar a fazer planos

Depois do período de recuperação, Flávia conseguiu voltar integralmente às atividades profissionais. As visitas, reuniões e projetos voltaram a fazer parte da rotina.

Ela conta que a maior mudança, no entanto, não ocorreu apenas na visão. O transplante também trouxe de volta a autoconfiança e reduziu o medo que carregou durante anos.

“Consegui retomar minha rotina profissional, minhas visitas, reuniões e projetos com mais confiança. Voltei a fazer planos e a olhar para o futuro com esperança, sem carregar diariamente o mesmo medo de antes”, afirmou.

A experiência também mudou a forma como passou a enxergar a família, o filho, os relacionamentos e situações simples do dia a dia.

O acompanhamento médico continua. Flávia afirma que está bem e sem sinais de rejeição, mas deve passar em outubro por um procedimento a laser para corrigir uma pequena intercorrência.

O transplante de córnea não encerra o acompanhamento médico. Segundo o Ministério da Saúde, a recuperação visual pode levar meses e os resultados dependem da causa que levou à cirurgia e das condições das demais estruturas do olho.

Para Flávia, receber a córnea significou mais do que recuperar parte do que havia perdido ao longo dos anos. “Essa segunda chance representa renascimento, gratidão e propósito”, afirmou.

Agora, Flávia diz que também passou a enxergar a própria história como uma forma de conscientizar outras pessoas sobre a doação.

“Hoje também sinto a responsabilidade de contar minha história e incentivar outras pessoas a manifestarem às suas famílias o desejo de serem doadoras. Um único ‘sim’ pode transformar e salvar várias vidas.”

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