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As eleições presidenciais de 2026 terminaram no domingo (25) com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). A disputa acirrada também reflete a polarização política que atravessa o país e pode ultrapassar o debate eleitoral, provocando conflitos e até rompimentos entre familiares e amigos. Depois das brigas, como reconstruir esses vínculos? É possível?
Para a psicóloga Huíla Cardoso, as discussões políticas podem afetar os vínculos afetivos porque as escolhas eleitorais não são determinadas apenas pela razão. Emoções, experiências pessoais, valores e o ambiente social também influenciam a forma como cada pessoa enxerga a política.
Segundo ela, o problema surge quando o posicionamento político passa a ser entendido como parte da própria identidade. Nesse cenário, discordar de uma opinião pode ser interpretado como uma ofensa pessoal, o que dificulta o diálogo.
“Uma vez que quem eu sou se funde com a minha escolha partidária, convicções diferentes podem ser interpretadas como uma incompatibilidade moral severa ou até mesmo um ataque pessoal”, explica.
Apesar disso, Huíla afirma que é possível reconstruir relações afetadas por essas discussões, desde que haja interesse das pessoas envolvidas. O processo exige disposição para ouvir, respeito às diferenças e capacidade de reconhecer que alguém pode ter uma visão de mundo diferente sem que isso represente, necessariamente, uma ameaça à relação.

Uma das orientações da psicóloga é considerar a importância que o familiar ou amigo teve ao longo da vida, levando em conta as experiências compartilhadas e os vínculos construídos antes do conflito.
“Ouvir, tão somente ouvir, sem tentativas de convencimento, de se defender ou de ganhar. Uma conversa não precisa ser uma disputa”, afirma.
A especialista também recomenda estabelecer limites quando determinados assuntos provocam discussões frequentes. Se duas pessoas percebem que não conseguem conversar sobre política sem se magoar, uma alternativa é combinar que o tema não será abordado durante os encontros.
No entanto, Huíla ressalta que preservar uma relação não significa aceitar qualquer comportamento. Para ela, vínculos saudáveis devem permitir discordâncias sem humilhações, manipulações ou agressões.
A psicóloga alerta que, quando não é possível manter o diálogo com respeito, o afastamento pode ser necessário.
Como retomar o diálogo?

A psicóloga Katarynne Martins também considera possível reconstruir relações rompidas por divergências políticas, mas destaca que a reaproximação não deve acontecer a qualquer custo. Segundo ela, é necessário avaliar o que provocou o afastamento e se houve atitudes que comprometeram o respeito e a confiança.
Para a especialista, nem todos os conflitos políticos têm a mesma gravidade. Discordar sobre propostas de governo, por exemplo, é diferente de vivenciar situações de preconceito, humilhação ou desrespeito à própria identidade.
“Em muitos casos, o rompimento não acontece simplesmente por divergências de opinião, mas porque uma das pessoas deixa de se sentir respeitada, segura ou reconhecida naquela relação”, explica.
Katarynne afirma que reconstruir um vínculo exige reconhecer os danos provocados durante as discussões e assumir a responsabilidade pelas próprias atitudes. Isso significa que pedir desculpas não deve ser apenas uma tentativa de encerrar o assunto, mas também um compromisso de mudar comportamentos.
A psicóloga orienta que a reaproximação aconteça quando houver disposição para conversar e condições emocionais para isso. Em alguns casos, um período de afastamento pode ajudar as pessoas a compreender o que aconteceu antes de tentar restabelecer o contato.
Quando houver abertura para a reaproximação, a primeira conversa pode ser simples, sem cobranças ou tentativas de provar quem estava certo. O importante é falar sobre o que provocou a mágoa, ouvir o outro e reconhecer possíveis erros.
“Não existe um prazo universal para a reconciliação. O momento adequado é aquele em que há condições mínimas de escuta, respeito e segurança, sem pressão para que a pessoa ferida restabeleça o vínculo antes de estar preparada”, destaca.
Katarynne também chama a atenção para situações em que manter a relação pode causar sofrimento emocional. Medo de expressar opiniões, ansiedade antes de encontros familiares, humilhações frequentes e necessidade de esconder aspectos da própria identidade para evitar ataques são alguns dos sinais de alerta.
Nesses casos, estabelecer limites ou manter distância pode ser uma forma de proteção. A decisão, segundo ela, deve considerar as circunstâncias de cada relação, sem transformar a reconciliação em uma obrigação.
“O perdão não pode ser uma obrigação, assim como a reconciliação não deve ser tratada como condição para demonstrar amor”, afirma.