O cinema alagoano ganhou destaque nacional com a conquista de dois prêmios no Festival do Rio, realizado no Rio de Janeiro. O longa-metragem “Não Estamos Sonhando”, dirigido por Ulisses Arthur, venceu a categoria de Melhor Longa-Metragem da mostra Novos Rumos, no domingo (11). A produção também garantiu o prêmio de Melhor Ator para Pedro Leão, protagonista da história.
Entre os nomes que integram o elenco está a cantora de rap e atriz alagoana Huná, que interpreta Pan, uma jovem negra, estudante de enfermagem e praticante de pole dance. Em entrevista à Eufêmea, a artista celebrou o reconhecimento e falou sobre a importância de ocupar espaços no cinema brasileiro, especialmente como uma mulher negra, nordestina e de origem periférica.
“Eu sou uma cantora de rap, uma mulher negra, vindo de periferia, nordestina. Então, eu acho que fazer parte do cinema alagoano e poder contribuir com a minha arte refletiu demais na personagem que eu faço”, contou.
Para Huná, a conquista representa um momento importante para o audiovisual produzido em Alagoas e para artistas que buscam reconhecimento fora do estado.
“Foi lindo poder ter participado, ter feito parte de algo tão potente, principalmente para Alagoas”, afirmou.
Personagem e identificação com a própria história
Produzido pela Céu Vermelho Fogo Filmes, “Não Estamos Sonhando” acompanha Ciro, um jovem negro que estuda medicina em uma universidade pública e enfrenta os desafios da vida acadêmica, das relações afetivas e da busca por seu espaço na sociedade.
Além da universidade, Ciro também é professor de pole dance e mantém um grupo de amigos que compartilham a prática. É nesse núcleo que aparece Pan, personagem interpretada por Huná.
“A Pan é essa mulher que prega por essa liberdade, que ama fazer pole dance, ama os amigos. Então, eu me vejo muito na Pan”, disse.
Para dar vida aos personagens, o elenco passou por cinco meses de preparação com aulas de pole dance antes das gravações.
A trama também discute a importância das políticas públicas para a permanência de estudantes negros nas universidades, especialmente em cursos da área da saúde.
Do cinema alagoano ao Festival do Rio

Antes de conquistar os prêmios no Brasil, “Não Estamos Sonhando” estreou internacionalmente na Filadélfia, nos Estados Unidos, durante um festival de cinema negro.
Segundo Huná, a recepção do público foi positiva desde a primeira exibição. Depois, o longa chegou ao Festival do Rio, onde conquistou os dois prêmios na mostra Novos Rumos.
“A gente saiu de lá do festival com esses dois prêmios. Foi uma viagem superpotente, a gente pôde ter muita troca”, contou.
Para a artista, estar em um evento dessa dimensão também permitiu conhecer outras realidades do cinema brasileiro e perceber as diferenças nas oportunidades oferecidas aos profissionais do audiovisual.
‘A gente precisa de um curso de cinema em Alagoas’
Apesar da comemoração, Huná também aproveitou o reconhecimento do filme para chamar atenção para os desafios enfrentados por artistas alagoanos.
A atriz avalia que, embora o audiovisual esteja ganhando visibilidade, Alagoas ainda precisa ampliar os investimentos em cultura e na formação de profissionais.
“Quando você viaja, sai um pouco da bolha de Alagoas. Você vai para o Sudeste, para São Paulo, para o Rio de Janeiro, e consegue observar quanta potência e quanto financiamento, quanto dinheiro é investido nisso”, afirmou.

Huná citou a previsão de oferta de um curso técnico de audiovisual pela Escola Técnica de Artes de Alagoas, mas defendeu que o estado também tenha uma graduação em cinema na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
“A gente precisa de um curso de cinema também em Alagoas. Acho que a gente poderia olhar mais para o nosso estado, entender que a cultura pode, sim, fazer muito pela gente”, disse.
Para ela, investir em cultura também significa criar oportunidades para jovens que, muitas vezes, não encontram espaço para desenvolver seus talentos.
“A cultura é um canal que abre portas e que dá oportunidade para jovens que não têm a condição de sonhar”, destacou.
Ao falar sobre a conquista, Huná fez uma reflexão sobre o nome do filme e a trajetória vivida pelo elenco desde o início da produção.
“Eu acho que é engraçado, porque o nome do filme é ‘Não Estamos Sonhando’, mas a gente sonhou desde o primeiro momento”, concluiu.