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O problema nunca foi a escala

Por Bel Alvi

Se a prosperidade de uma empresa depende da sobrecarga das pessoas, talvez seja hora de olhar para o problema por outro ângulo.

Máquinas param para manutenção. Equipamentos precisam de reparos. Sistemas ficam indisponíveis para atualização. Estruturas físicas exigem cuidado para continuarem funcionando bem.

Ninguém chama isso de falta de produtividade. Chamamos de manutenção.

Mas quando quem precisa parar é uma pessoa, ainda existe uma estranha resistência. E isso diz muito sobre a cultura de algumas organizações.

Durante anos, aprendemos a associar produtividade à quantidade de horas trabalhadas, disponibilidade constante e presença. Como se permanecer mais tempo significasse, necessariamente, produzir melhor.

Não significa.

Produtividade é a capacidade de gerar resultado dentro do tempo disponível. E isso depende de processo, clareza, ferramentas, liderança, organização e, sim, de pessoas em condições de realizar bem o seu trabalho.

Por isso, a discussão sobre a escala 6×1 não deveria terminar na elaboração de um novo quadro de horários. Ela deveria começar ali.

Porque uma empresa pode reduzir uma jornada e continuar sobrecarregando exatamente as mesmas pessoas. Pode diminuir horas sem rever processos. Pode manter retrabalho, burocracia, reuniões improdutivas, equipes mal dimensionadas e lideranças que confundem pressão com gestão.

Nesse caso, muda-se a escala e preserva-se o problema.

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A adaptação que as empresas terão pela frente será muito mais gerencial do que simplesmente operacional.

Será preciso entender onde estão os gargalos, rever a distribuição do trabalho, questionar atividades que sempre foram feitas “porque sempre foi assim”, preparar lideranças e aprender a medir produtividade por entrega – e não apenas por permanência.

E existe ainda outro efeito dessa transformação.

Toda mudança relevante dentro de uma empresa inevitavelmente chega ao cliente. Se determinados negócios passarem a operar com custos maiores, alguns poderão rever seus preços. E um consumidor que paga mais também tende a ser mais criterioso com aquilo que recebe.

É aí que a experiência ganha ainda mais importância.

Produto e serviço, em muitos mercados, são cada vez mais semelhantes. O diferencial passa a estar na forma como a empresa atende, resolve, facilita, acolhe e constrói relacionamento.

O cliente quer receber valor suficiente para permanecer, voltar e indicar.

E isso nos leva novamente às pessoas.

Porque não existe experiência do cliente desconectada da experiência de quem trabalha para entregar essa experiência.

Uma equipe permanentemente exausta dificilmente sustentará, por muito tempo, um atendimento excelente. Uma liderança sobrecarregada dificilmente conseguirá cuidar bem de sua equipe. Uma operação mal desenhada cobra a conta de alguém – e quase sempre ela chega primeiro às pessoas e, depois, ao cliente.

Talvez, portanto, este seja um daqueles momentos em que uma mudança trabalhista pode provocar uma reflexão empresarial muito maior.

Não apenas sobre quantos dias alguém trabalha. Mas sobre como estamos trabalhando.

Empresas poderão precisar rever escalas, processos, equipes e produtividade.

Isso é gestão.

E talvez a grande oportunidade esteja justamente aí: construir organizações que consigam produzir melhor sem precisar esgotar quem produz.

Porque descanso não é o oposto de produtividade.

Sobrecarga, muitas vezes, é que é o sintoma de uma gestão que ainda precisa evoluir.

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