Por Vanessa Albuquerque, Psicóloga e Educadora em Sexualidade
Durante muito tempo, ensinaram às mulheres a conhecer o próprio corpo apenas o suficiente para cuidar dele. Aprenderam seus ciclos, sintomas, alterações e, muitas vezes, tudo aquilo que precisava ser prevenido, mas poucas foram ensinadas a perguntar: do que eu gosto? O que eu sinto? O que me dá prazer?
Para muitas mulheres, a descoberta da própria sexualidade acontece tarde. Algumas passam anos em relacionamentos sem nunca terem experimentado um orgasmo. Outras até conhecem a sensação, mas não conseguem falar sobre seus desejos. Há também aquelas que aprenderam a viver a sexualidade a partir do olhar do outro, preocupadas em agradar, corresponder e performar, e talvez seja justamente por isso que falar sobre orgasmo possa nos ensinar tanto sobre autoconhecimento.
Não porque o orgasmo seja a finalidade obrigatória de toda experiência sexual. Nem porque exista algo errado com quem não o experimenta. Transformar o prazer em mais uma meta a ser cumprida apenas reproduz a mesma lógica de cobrança que já atravessa tantas áreas da vida das mulheres.
A questão é outra: o caminho em direção ao prazer exige presença, exige perceber o próprio corpo, reconhecer sensações, identificar limites, permitir-se desejar, e sobretudo, compreender que ninguém pode conhecer completamente aquilo que nunca tivemos a oportunidade de descobrir em nós mesmas.
O autoconhecimento sexual começa quando uma mulher deixa de perguntar apenas “o que esperam de mim?” e começa a se perguntar “o que eu quero?”. Parece simples, mas não é, pois muitas mulheres foram educadas para serem boas filhas, boas mães, boas parceiras. Aprenderam a cuidar, acolher e corresponder.
Na sexualidade, essa mesma lógica pode aparecer na preocupação constante com o prazer do outro, enquanto o próprio desejo permanece em segundo plano.
Quantas mulheres sabem dizer exatamente do que gostam? Quantas conseguem estabelecer limites sem sentir culpa? Quantas se permitem dizer “não quero”, “assim não” ou “eu prefiro de outro jeito”? Falar sobre prazer, portanto, também é falar sobre autonomia. Um corpo que conhece suas sensações tem mais recursos para comunicar seus desejos.
Uma mulher que reconhece seus limites pode construir relações mais conscientes. E alguém que se sente autorizada a experimentar a própria sexualidade começa, pouco a pouco, a recuperar uma intimidade que talvez nunca tenha tido consigo mesma.
Isso não significa que o orgasmo resolva conflitos emocionais ou seja uma forma mágica de cura. A sexualidade humana é complexa e atravessada por experiências, crenças, traumas, relações e pela própria história que cada pessoa construiu com o corpo, mas existe algo no prazer.
Ele exige que, por alguns instantes, a mulher deixe de cumprir funções: não precisa ser produtiva, não precisa cuidar de ninguém, não precisa corresponder a expectativas. Precisa apenas sentir e talvez essa seja uma das experiências mais revolucionárias para muitas mulheres: habitar o próprio corpo sem precisar se justificar.
O orgasmo pode ser uma experiência física, mas a liberdade para buscá-lo passa por questões muito maiores pois passa pela educação que recebemos. Pela relação que construímos com nosso corpo, pela liberdade de dizer sim e não, pela capacidade de comunicar desejos, pelo direito de existir sexualmente para além das expectativas de outra pessoa.
O maior ensinamento do autoconhecimento sexual não é descobrir como chegar ao orgasmo, mas sim voltar ao próprio corpo e fazer uma pergunta que deveria ter sido feita muito antes: “O que me dá prazer?”
Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Vanessa é supervisora de psicólogas e destaca projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.