Por Mariana Sampaio
Uma escola não ensina apenas aquilo que está escrito em seus livros, planejamentos e projetos pedagógicos. Ensina também por meio das atitudes, dos exemplos e dos valores demonstrados pelos adultos que fazem parte de sua comunidade.
É por isso que a educação não pode ser compreendida apenas como transmissão de conhecimentos. Educar também significa ensinar a conviver, reconhecer diferenças, respeitar o outro e compreender que a diversidade de pensamentos é parte fundamental de uma sociedade democrática.
Mas o que acontece quando o discurso de respeito às diferenças não encontra correspondência nas atitudes de quem assume a responsabilidade de educar?
Nos últimos dias, uma escola particular de Maceió tornou-se centro de uma controvérsia após a divulgação de publicações atribuídas a uma integrante de sua direção, nas quais pessoas foram desqualificadas em razão de suas preferências políticas.
As manifestações provocaram indignação entre familiares de alunos e motivaram uma nota de repúdio do Fórum Alagoano em Defesa da Educação Infantil (FADEDI), que destacou a importância do respeito à pluralidade e da convivência democrática no ambiente escolar.
É necessário esclarecer, desde o início, que o problema não está na existência de convicções políticas. Até porque todo cidadão tem o direito de pensar, manifestar suas opiniões, defender ideias e participar do debate público. Esse direito também pertence aos professores, gestores e dirigentes de instituições educacionais.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre manifestar uma posição política e desqualificar pessoas simplesmente porque pensam diferente.
A liberdade de expressão é um dos pilares da democracia, mas não afasta a responsabilidade pelas palavras utilizadas, especialmente quando partem de pessoas que exercem funções educativas.
A Constituição Federal, em seu artigo 206, estabelece o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas como princípio do ensino. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional também reconhece o respeito à liberdade e o apreço à tolerância como fundamentos da educação.
Esses princípios não são meras recomendações abstratas. Eles devem orientar a construção de ambientes escolares nos quais crianças e adolescentes possam aprender, conviver e desenvolver suas identidades sem receio de exclusão ou constrangimento.
E é justamente nesse ponto que o episódio merece uma reflexão mais profunda.
Como assegurar que nenhuma criança se sinta menos acolhida em uma escola por causa das convicções políticas de sua família?
A criança não escolhe as posições políticas de seus responsáveis. Tampouco deve ser colocada na condição de responder por elas.
O ambiente escolar precisa ser um espaço de segurança, pertencimento e acolhimento, independentemente das opiniões políticas, crenças ou condições sociais de cada família.
Quando manifestações públicas de pessoas ligadas à direção de uma instituição expressam rejeição a determinados grupos, é compreensível que familiares questionem se os valores de respeito e inclusão anunciados pela escola estão efetivamente presentes em sua prática cotidiana.
Isso não significa afirmar que crianças tenham sofrido discriminação ou violência psicológica no interior da instituição. Até o momento, as informações divulgadas não permitem estabelecer essa conclusão.
Mas a ausência de comprovação de episódios concretos não torna irrelevante a preocupação das famílias.
A confiança no ambiente educativo também se constrói pela coerência entre aquilo que a escola ensina e aquilo que seus responsáveis demonstram.
Essa discussão se torna ainda mais significativa quando pensamos nas ações educativas voltadas ao enfrentamento do bullying.
As escolas desempenham papel essencial na prevenção da intimidação sistemática, na promoção da empatia e no desenvolvimento de relações respeitosas entre os estudantes.
Entretanto, combater o bullying exige mais do que palestras, campanhas e atividades pedagógicas. Exige que os adultos compreendam a força de seus próprios exemplos.
Uma criança aprende sobre respeito quando observa como os adultos tratam aqueles de quem discordam. Aprende sobre convivência quando percebe que diferenças não precisam se transformar em hostilidade. Aprende sobre dignidade quando entende que ninguém deve ser humilhado por suas características, opiniões ou vínculos familiares.
Não podemos ensinar às crianças que a exclusão é inaceitável dentro da sala de aula e, ao mesmo tempo, naturalizá-la nas relações sociais dos adultos.
A coerência pedagógica não exige que educadores sejam pessoas sem opiniões. Exige que saibam distinguir suas convicções pessoais do compromisso profissional de acolher e respeitar a diversidade humana.
Também é importante compreender que a infância não está alheia às tensões que atravessam a sociedade.
Crianças observam conversas, reproduzem expressões, percebem conflitos e constroem significados a partir do comportamento dos adultos.
Quando a desqualificação de quem pensa diferente passa a ser tratada como algo aceitável, corremos o risco de transmitir às novas gerações a ideia de que o respeito é reservado apenas àqueles que compartilham nossas opiniões.
O Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o direito ao respeito e à dignidade, enquanto a legislação educacional reconhece a escola como espaço fundamental para o desenvolvimento integral e o exercício da cidadania.
Por isso, a responsabilidade de uma instituição de ensino ultrapassa o conteúdo das disciplinas. Ela envolve a construção de um ambiente em que diferenças possam existir sem se transformar em motivo de humilhação, hostilidade ou exclusão.
A educação para a democracia começa muito antes de uma criança compreender o funcionamento das eleições ou dos partidos políticos. Começa quando ela aprende que discordar não significa desrespeitar, que ninguém deve ser atacado por pensar diferente e que conviver democraticamente não exige concordância, mas respeito mútuo.
O episódio ocorrido em Maceió deve nos convidar a uma reflexão que ultrapasse uma instituição ou determinada preferência política.
Precisamos perguntar que exemplos estamos oferecendo às crianças e que valores desejamos que elas levem para suas relações sociais.
Isso porque a escola não é apenas o lugar onde se aprende a ler, escrever e interpretar o mundo. É também um espaço onde se aprende a viver com o outro.
E talvez essa seja a lição mais importante: não basta ensinar o respeito como conteúdo pedagógico. É preciso demonstrá-lo como prática cotidiana.
Afinal, crianças aprendem com aquilo que dizemos, mas também, e principalmente, com aquilo que fazemos.
A democracia também se aprende na infância, e o respeito precisa começar pelo exemplo dos adultos.