Essa pergunta costuma ser dita em voz baixa e, às vezes, nem é dita. Fica guardada como pensamento proibido, atravessado pela culpa antes mesmo da possibilidade de ser elaborado, porque vivemos em uma cultura que naturaliza o desejo materno como se ele fosse instintivo e universal. À mulher, raramente se pergunta se ela quer. Já partimos do pressuposto de que ela vai querer. E, quando esse desejo não aparece, algo parece estar errado, como se houvesse uma falha subjetiva onde deveria existir vocação.
A psicanalista Vera Iaconelli chama atenção justamente para esse ponto ao afirmar que a maternidade não é destino, nem obrigação simbólica, mas uma construção atravessada pelo desejo e pela cultura. Para ela, tratar o desejo de ter filhos como algo naturalizado apaga a dimensão da escolha e produz sofrimento quando a mulher não se reconhece nesse lugar. Não desejar a maternidade, portanto, não é ausência de algo essencial, mas expressão de uma subjetividade que não se encaixa em um modelo único.
Do ponto de vista da saúde mental, esse apagamento do desejo tem efeitos. Muitas mulheres não sofrem por não quererem ser mães, mas por sentirem que decepcionam alguém ou a imagem idealizada do feminino ao sustentar essa posição. A pergunta deixa de ser “o que eu quero?” e passa a ser “o que esperam que eu queira?”. Esse deslocamento cobra um preço psíquico alto.
Há ainda o medo do arrependimento. Um medo alimentado por discursos que associam maternidade à plenitude, como se outras formas de construção de sentido fossem menores ou incompletas. Mas, como tudo na vida, não temos garantias de nada. Nem a maternidade assegura realização plena, nem a escolha de não ter filhos condena ao vazio. E, sim, pode haver arrependimentos em tê-los ou não, mas essa é uma aposta que só cabe à mulher fazer, assim como arcar com suas consequências.
Talvez o ponto mais difícil desse contexto seja sustentar, para si e para os outros, que a maternidade só pode ser vivida de forma ética quando é desejo do sujeito. Forçar-se a desejar algo para caber em um ideal não produz realização; produz ressentimento. Nem toda mulher precisa ser mãe para se sentir inteira. E assumir essa diferença, como lembra Vera Iaconelli, talvez seja uma das formas mais honestas de respeitar o desejo feminino hoje.
Referência
IACONELLI, Vera. Mal-estar na maternidade: do infanticídio à função materna. São Paulo: Annablume, 2015.