Foto: Raiz Produtora
Todo início de ano parece vir acompanhado de uma expectativa silenciosa: agora vai, agora a vida se organiza, as emoções entram no eixo, a cabeça clareia.
O Janeiro Branco, nesse cenário, muitas vezes aparece como um convite bem-intencionado, mas que pode escorregar para mais uma cobrança, a de que também precisamos “resolver” a saúde mental.
E aqui é importante começar dizendo o óbvio, que nem sempre é dito: saúde mental não é um estado de equilíbrio. Não é um lugar onde se chega e permanece. É um processo atravessado pela vida, pelas condições materiais e pelas relações que sustentam ou não o cotidiano.
Olhar para a saúde mental não é apenas olhar para dentro. É olhar para o entorno, para a rotina que se impõe, para o trabalho que exige, para as relações que acolhem ou adoecem. É olhar para a vida acontecendo como ela é e também para aquilo que não está: os vínculos que faltam, os projetos interrompidos, as perdas que não tiveram tempo de luto. É reconhecer que nem toda dor precisa de um diagnóstico para ser legítima.
Existem sofrimentos que nascem do excesso, da precariedade, da solidão, da falta de apoio, da dificuldade de sustentar a própria existência em um mundo que exige produtividade constante e resiliência infinita. Reduzir tudo isso a um problema individual é não enxergar o contexto que produz e mantém esse mal-estar.
Isso não significa negar a existência do adoecimento psíquico nem desconsiderar a importância do cuidado profissional quando necessário. Significa, apenas, recusar a ideia de que o sofrimento humano pode ser explicado e resolvido apenas por categorias clínicas. Antes de qualquer rótulo, existe uma vida.
Prefiro pensar o Janeiro Branco como um lembrete. Um convite para escutar mais a si, ao outro e às condições em que estamos vivendo. Um convite para reconhecer que cuidar da saúde mental também é um gesto político, que passa por olhar para além do indivíduo e sustentar espaços onde o sofrimento possa existir sem ser imediatamente corrigido.
*Com Assessoria