A proposta de mudar o nome da Avenida Fernandes Lima, em Maceió, trouxe novamente ao centro do debate público uma personagem marcante da história de Alagoas: Tia Marcelina, uma das vítimas da Quebra de Xangô, episódio de intolerância religiosa ocorrido em 1912.
Enquanto o debate avança, a Eufêmea te ajuda a entender quem foi essa mulher negra que, mais de um século depois, pode se tornar símbolo oficial de memória e reparação histórica no estado.
Quem era Tia Marcelina?
Tia Marcelina integrou a comunidade religiosa de matriz africana em Maceió no início do século XX. Naquele período, praticantes dessas religiões enfrentavam forte repressão social e política em Alagoas.
Em 1912, grupos organizaram ataques contra terreiros e lideranças religiosas no episódio que ficou conhecido como Quebra de Xangô. Durante esse contexto de violência, Tia Marcelina morreu em decorrência das perseguições promovidas contra as religiões de matriz africana.
Registros históricos e relatos preservam seu nome como uma das vítimas mais lembradas daquele episódio.
O que foi a Quebra de Xangô?
A Quebra de Xangô, ocorrida em 1912, marcou a história de Alagoas como um dos casos mais emblemáticos de intolerância religiosa no Nordeste.
Na ocasião, grupos invadiram e destruíram centenas de terreiros. Além disso, perseguiram e agrediram líderes religiosos e praticantes de religiões afro-brasileiras.
O episódio ocorreu em meio a disputas políticas da época e resultou em violência direcionada especificamente às práticas religiosas de matriz africana.
Dentro desse cenário, a violência atingiu Tia Marcelina, cujo nome permanece ligado à memória da repressão.
Por que Tia Marcelina é considerada símbolo de resistência?
Ao longo do tempo, comunidades de terreiro e movimentos sociais passaram a reconhecer Tia Marcelina como símbolo da violência sofrida pelas religiões afro-brasileiras em Alagoas.
Seu nome passou a representar a resistência cultural e religiosa diante da perseguição histórica. Além disso, o debate atual reforça a necessidade de reconhecer oficialmente episódios de intolerância que marcaram o estado.
Por que seu nome pode substituir o da Avenida Fernandes Lima?
Durante audiência pública promovida pela Defensoria Pública do Estado de Alagoas, participantes defenderam que a Avenida Fernandes Lima passe a se chamar Avenida Tia Marcelina.
A proposta surgiu dentro de uma discussão sobre memória histórica e liberdade religiosa. Defensores da mudança argumentam que homenagear uma vítima da Quebra de Xangô representa um gesto de justiça histórica.
Além disso, sustentam que a Constituição Federal garante a liberdade religiosa e a proteção à memória cultural dos povos tradicionais. Assim, a homenagem a Tia Marcelina pode funcionar como reconhecimento institucional de uma violência histórica.
Memória, reparação e reconhecimento
Mais de 100 anos após a Quebra de Xangô, o nome de Tia Marcelina voltou ao debate público não apenas como lembrança de uma tragédia, mas também como símbolo de reparação histórica.
Se o poder público aprovar a mudança, a principal avenida de Maceió poderá deixar de homenagear uma figura associada ao contexto político da repressão e passar a reverenciar uma das vítimas do episódio de 1912.