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Voto feminino: por que a Geração Z quer ir além da conquista histórica

Elas cresceram ouvindo que o voto feminino foi uma vitória histórica. Sabem que houve luta, resistência e enfrentamento. Mas, para a Geração Z, nascida entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2010, votar não é apenas um gesto de reverência ao passado, é uma cobrança ao presente. O que essa conquista está produzindo agora? Que mudanças concretas ela garante na vida das mulheres jovens, negras, periféricas, universitárias e trabalhadoras?

Décadas depois da institucionalização do voto feminino no Brasil, a pergunta que mobiliza esta geração não é apenas “como chegamos até aqui?”, mas “por que ainda não chegamos mais longe?”.

A geração que articula, pressiona e não aceita desigualdades

Para a socióloga Marcela Castro, membro do Observatório da Segurança do Piauí e da Rede de Observatórios de Segurança, as mulheres jovens vêm demonstrando que não aceitam nenhuma forma de desigualdade de gênero, e isso redefine o sentido do voto.

socióloga Marcela Castro

“As mulheres dessa geração conseguem se articular politicamente via redes sociais, que também são espaços de mobilização política, associados às escolhas feitas pelo voto e pelas decisões políticas”, afirma à Eufêmea.

Marcela destaca que o voto feminino foi uma conquista fundamental para o acesso das mulheres aos espaços de poder. “O direito ao voto também garante às mulheres os direitos políticos, que são parte da cidadania. As mulheres da Geração Z sabem que o voto foi uma conquista, mas também têm consciência dos desafios para garantir esse direito.”

Ela chama atenção para uma contradição estrutural. As mulheres são maioria no eleitorado, mas continuam minoria nos espaços de decisão, especialmente no Legislativo. “Somos maioria como eleitoras e minoria nos espaços de poder e decisão.”

Para a socióloga, o voto isoladamente não transforma a realidade social. “Há necessidade de articulação e mobilização em torno de temas que conscientizem as mulheres e, consequentemente, influenciem suas escolhas por meio de grupos sociais.”

Outro ponto central, segundo ela, é compreender os marcadores sociais que atravessam essa experiência política. “Classe, raça, etnia, gênero e território são marcadores sociais de grande relevância, pois mostram realidades diferentes para cada grupo social. Essa realidade faz com que mulheres negras e jovens, que têm menos oportunidades nos espaços de poder, muitas vezes precisem brigar para serem ouvidas.”

Direito formal não significa poder consolidado

A cientista política Luciana Santana analisa o tema sob a perspectiva institucional e histórica. Para ela, é fundamental reforçar a importância da conquista do direito ao voto e da possibilidade de disputar espaços de poder.

“Primeiro, é preciso reforçar a importância da conquista do direito ao exercício do voto e da possibilidade efetiva de disputar esses espaços institucionais de poder”, afirma.

Luciana aponta que houve avanços importantes, especialmente a partir da redemocratização, com a lei de cotas e, mais recentemente, com a obrigatoriedade de destinação de recursos do fundo partidário para candidaturas femininas.

“Isso tem sido importante para melhorar um pouco a situação das mulheres nesses espaços. Há uma ocupação maior de mulheres, tanto em cargos eletivos quanto não eletivos, porém ainda de forma muito insuficiente e desigual.”

Quando o foco se volta para as mulheres jovens, os obstáculos estruturais tornam-se ainda mais evidentes.

“Não temos uma distribuição equilibrada das funções sociais do trabalho, especialmente do trabalho doméstico e do cuidado. A sociedade ainda reproduz uma lógica paternalista e patriarcal, permeada por machismo e preconceito. Isso desincentiva a entrada de mais mulheres, inclusive jovens, nesses espaços.”

Para a cientista política, é necessário ressignificar o direito ao voto para além da formalidade jurídica. Ela explica que, do ponto de vista formal, existe um direito reconhecido pelo Estado brasileiro, mas que, na prática, a efetivação desse direito ainda está em processo de consolidação. Se estivesse plenamente garantido, afirma, não haveria debate constante sobre a ausência de mulheres nos espaços de decisão.

Luciana também reforça que a presença feminina qualificada nos espaços institucionais é essencial. Segundo ela, as experiências das mulheres fazem diferença na arena política e são fundamentais para assegurar uma representação de qualidade e o reconhecimento da importância feminina nos espaços de poder.

Entre algoritmos, coerência e cobrança em tempo real

Se Marcela analisa mobilização social e Luciana examina estruturas institucionais, a especialista em Comunicação Política Estratégica Márcia de Castro observa como a Geração Z se relaciona com o voto na prática cotidiana, especialmente em um ambiente dominado pelas redes sociais.

“Hoje, o voto feminino não é apenas uma conquista que a geração Z olha com reverência histórica. Ele é uma ferramenta de poder aplicada em tempo real. Para essas jovens, votar não é honrar o passado. É disputar espaço no presente”, afirma.

Márcia de Castro

Para Márcia, essa geração não romantiza a história, ela testa resultados. “A pergunta prática é: o que esse voto está mudando agora na minha vida, no meu corpo, na minha segurança, nas minhas oportunidades?”

O consumo de informação majoritariamente pelas redes sociais altera profundamente a formação de opinião política.

“A política deixou de ser mediada apenas por instituições e passou a ser mediada por algoritmos, estética e narrativa pessoal construída em tempo real. A percepção é formada por cortes, trechos e frases destacadas.”

Isso, segundo ela, acelera julgamentos e intensifica emoções, mas também amplia repertórios. “A geração Z é altamente treinada para detectar inconsistências. Pode ser seduzida por um vídeo curto, mas dificilmente é convencida por muito tempo por um personagem mal construído.”

O ambiente digital ampliou vozes femininas, mas também intensificou ataques. Segundo Márcia, muitas jovens acabam se afastando do debate por autopreservação emocional, enquanto outras entram com ainda mais força, transformando o engajamento em resistência. Ela destaca que o custo emocional dessa exposição é alto.

Sobre as campanhas políticas, Márcia observa que houve uma adaptação estética, com discursos mais curtos, uso de memes e bastidores humanizados, mas alerta para um erro recorrente: a ideia de que basta parecer jovem para se conectar com esse público. De acordo com ela, a Geração Z não exige apenas informalidade, mas coerência entre discurso, postura e prática.

Na avaliação da especialista, memes e estética funcionam como porta de entrada para a atenção, mas não sustentam decisões de voto. Curtir e compartilhar conteúdos nas redes sociais não equivale a acompanhar mandatos, compreender propostas e cobrar posicionamentos.

Para Márcia, o voto feminino não perdeu força simbólica entre as mais jovens, ele mudou de natureza. “Ele perdeu a aura comemorativa e ganhou tensão política. Se tratado apenas como memória histórica, é fraco. Se tratado como ferramenta concreta de transformação, é potente.”

“A geração Z não quer apenas ocupar espaço na política. Quer reconfigurar o modo como a política funciona”, conclui.

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