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“Orar mais” e “ter paciência”: quando a fé é usada para manter mulheres em relações abusivas

Para muitas mulheres, a fé representa acolhimento, esperança e sentido. No entanto, em alguns contextos, a religiosidade pode ser mobilizada de forma a manter vítimas em relacionamentos abusivos. Orientações como “orar mais”, “ter paciência” ou “não desistir do casamento” acabam funcionando como mecanismos que prolongam ciclos de violência, segundo especialistas e lideranças religiosas que atuam no enfrentamento da violência contra a mulher.

Em entrevista, a pastora Odja Barros afirmou que esse processo costuma acontecer de forma sutil e, muitas vezes, disfarçado de cuidado espiritual. Segundo ela, muitas mulheres procuram ajuda dentro da igreja após sofrer agressões físicas, psicológicas ou verbais, mas acabam recebendo orientações que incentivam a permanência na relação.

Foto: Cortesia à Eufêmea

“Esse limite entre apoio espiritual e mecanismo de opressão é muito sutil. Muitas vezes, a mulher recebe orientações como orar mais, perseverar no amor, acreditar na mudança do outro. Esse discurso chega como cuidado, mas acaba mantendo essa mulher em uma relação de violência”, afirmou.

Na avaliação da pastora, quando a fé é utilizada dessa forma, pode desmontar o processo de ruptura que a mulher começa a construir. “Ela passa a se sentir obrigada a continuar. Surge a ideia de que não pode desistir do casamento, que sair seria falta de fé. Esse discurso espiritual pode transformar a violência em algo que a mulher acredita que deve suportar”, disse.

Textos bíblicos usados para justificar submissão

Odja Barros também chama atenção para o uso de interpretações isoladas de trechos bíblicos como forma de reforçar a permanência em relações abusivas.

Textos atribuídos ao apóstolo Paulo estão entre os mais citados nesses contextos, especialmente passagens que tratam da submissão feminina ou do silêncio das mulheres.

“Existem textos bíblicos que, quando usados isoladamente, reforçam a ideia de submissão da mulher. Expressões como ‘mulheres sejam submissas aos maridos’ ou ‘mulheres estejam caladas na igreja’ são frequentemente utilizadas para justificar relações desiguais e até violentas”, explicou.

Essas leituras podem, inclusive, legitimar a violência sexual dentro do casamento, ao reforçar a ideia de que o corpo da mulher pertence ao marido. A pastora ressalta que qualquer relação forçada, mesmo dentro do casamento, é considerada violência.

Ela também lembra que esses textos foram escritos em contextos históricos em que as mulheres não tinham direitos civis e dependiam do casamento para sobreviver. “Esses textos surgem em uma cultura patriarcal, onde mulheres não tinham autonomia. É preciso considerar esse contexto e não usar essas passagens para justificar a violência hoje”, disse.

Violência religiosa

Quando a fé é usada para pressionar a mulher a permanecer em uma relação abusiva, isso também pode ser caracterizado como violência.

“Hoje chamamos isso de violência religiosa. Quando a liderança espiritual reforça a culpa, a submissão ou impede a mulher de sair de uma relação violenta, isso também é uma forma de violência”, afirmou Odja.

O enfrentamento da violência contra a mulher, para ela, passa também pela revisão dessas interpretações religiosas. “Não é possível enfrentar o feminicídio e a violência contra as mulheres sem confrontar esses discursos religiosos que sustentam essas relações”, disse.

Impactos psicológicos da violência religiosa

Foto: Cortesia à Eufêmea

Esse cenário também impacta diretamente a saúde emocional das vítimas. A psicóloga Milla Kaliane explica que, quando a fé é utilizada como argumento para manter o relacionamento, pode ocorrer um processo de silenciamento emocional e invalidação da experiência da vítima.

“Há uma retirada da responsabilidade do agressor e um aumento dos sentimentos de culpa, confusão e solidão”, afirmou.

Nesse contexto, a fé deixa de funcionar como proteção e passa a ser utilizada como uma estratégia de adaptação ao sofrimento, o que dificulta reconhecer a violência e romper o ciclo abusivo.

A profissional destaca que a espiritualidade pode ser um recurso importante de cuidado emocional, mas tudo depende da forma como é utilizada.

“A fé protege quando fortalece a autoestima, legitima o direito ao cuidado e à segurança e encoraja a mulher a buscar ajuda. Mas ela mantém o abuso quando é usada para justificar o sofrimento, incentivar a permanência a qualquer custo e reforçar culpa, submissão ou silêncio”, afirmou.

Quando a mulher passa a acreditar que está sendo testada ou que precisa suportar a dor como parte de uma missão espiritual, há o risco de internalizar a violência como algo que precisa suportar.

O ambiente religioso e social também exerce forte influência. Inserida em contextos que reforçam a manutenção do casamento a qualquer custo, a mulher pode se sentir responsável pela continuidade da relação, mesmo diante da violência.

“Há medo de rejeição, de julgamento e de rompimento de vínculos. Isso sustenta ciclos repetitivos de relações abusivas. Em alguns casos, a própria relação com a fé pode se tornar mais uma relação abusiva”, explicou.

A longo prazo, esse processo pode gerar ansiedade, depressão, sensação crônica de inadequação, baixa autoestima, isolamento social e dificuldade para estabelecer novas relações, mesmo após a separação.

Entre os sinais de alerta estão mulheres que minimizam ou justificam a violência com argumentos religiosos, sentem culpa intensa ao cogitar sair da relação ou acreditam que precisam suportar o sofrimento para que o casamento “dê certo”. Também é comum o medo de julgamento espiritual ou comunitário.

“Algumas mulheres chegam a denunciar, mas depois retiram a queixa. Outras apresentam dificuldade de acessar sentimentos como raiva, dor ou até de estabelecer limites”, afirmou.

Fé e saúde mental

Foto: Cortesia à Eufêmea

Além dos impactos emocionais, a orientação religiosa inadequada também pode contribuir para o adoecimento psicológico. A psicóloga Huila Cardoso alerta para a necessidade de cuidado com aconselhamentos espirituais recebidos por mulheres em situação de violência.

A espiritualidade, nesse contexto, pode atuar tanto como fator de proteção quanto como elemento que agrava o sofrimento emocional.

“A espiritualidade pode ser um grande fator de proteção à saúde mental ou adoecedor. Quando ela passa a incentivar a permanência em relações violentas, é preciso acender uma luz vermelha”, afirmou.

Situações de violência, especialmente física, não devem ser tratadas apenas no âmbito religioso. “Quando falamos de violência física, não estamos falando de algo que deve ser levado apenas a um líder religioso, mas à polícia, à delegacia. São situações que exigem proteção e intervenção”, destacou.

A psicóloga também chama atenção para o impacto desse tipo de orientação na autoestima da mulher. Permanecer em uma relação violenta pode enfraquecer a identidade e a autonomia da vítima.

“É perverso aconselhar a manutenção de um relacionamento violento. Estar numa relação assim mina, murcha a autoestima da mulher”, afirmou.

Na prática clínica, Huila observa que muitas mulheres carregam crenças construídas ao longo da vida, inclusive na infância, que influenciam a forma como enxergam as relações e o que acreditam merecer.

A Terapia do Esquema, abordagem utilizada em seu trabalho, considera que a forma como a pessoa foi cuidada e amada molda suas expectativas sobre vínculos afetivos. Nesse contexto, também são analisadas crenças religiosas, como a ideia de um Deus punitivo ou de um Deus cuidador, o que pode impactar diretamente na forma como a mulher interpreta sua própria dor.

A culpa é um dos sentimentos mais presentes nesses casos. Há uma construção social e religiosa que coloca sobre a mulher a responsabilidade pela manutenção do casamento e da família, mesmo diante da violência.

“Existe uma expectativa de que a mulher cuide de tudo e de todos, inclusive da manutenção da relação a qualquer custo. Cuidar de si passa a ser visto como egoísmo, e não como autopreservação”, explicou.

Esse processo pode gerar consequências profundas, como isolamento social, baixa autoestima, perda de autonomia e dificuldade de buscar ajuda. Discutir o tema é fundamental para promover mudanças e fortalecer redes de apoio.

“Que as religiões não sejam mais um lugar de violência, mas sim de cuidado, acolhimento e encorajamento”, concluiu.

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