Por Sol Gama
Sempre que um ano eleitoral se aproxima, o mercado imobiliário sente uma mudança de ritmo. A sensação de lentidão, incerteza e cautela se intensifica entre os agentes do setor. Mas será que o mercado realmente para ou apenas ajusta o ritmo das decisões?
Na realidade, durante períodos de incerteza política, os fundamentos do mercado permanecem, mas o comportamento das pessoas é que se transforma. O aumento das dúvidas e da cautela faz com que decisões antes rápidas passem a ser mais analisadas e ponderadas. Esse fenômeno não representa uma paralisação, mas sim um ajuste.
Uma pesquisa realizada pela Loft, em parceria com a Offerwise, revelou que 35% dos brasileiros consideram antecipar ou adiar a compra de um imóvel devido às eleições, enquanto 55% mantêm seus planos normalmente. Isso mostra que o mercado continua em movimento, apenas em um ritmo diferente. Esse detalhe é fundamental para quem busca interpretá-lo com precisão.
Existe um fator silencioso, mas decisivo: a demanda reprimida. Nos últimos anos, cerca de 800 mil famílias ficaram fora do mercado imobiliário devido ao crédito caro. A cada 1 ponto percentual de queda na taxa de juros, aproximadamente 160 mil famílias voltam a ter acesso ao financiamento. Assim, mais do que o calendário político, o que realmente movimenta o setor são os juros e o crédito.
Em 2025, com a Selic em torno de 15% ao ano, o volume de financiamentos caiu mais de 17%, segundo o SBPE. Para 2026, a expectativa de queda dos juros tende a reaquecer o crédito e trazer de volta parte dessa demanda.
E é justamente aqui que entra um ponto que poucos observam: o mercado imobiliário não é linear — ele é cíclico.
O setor se movimenta em ciclos de expansão, desaceleração, retração e recuperação, influenciados principalmente pelos juros, pela disponibilidade de crédito e pelas políticas econômicas. Em momentos de incerteza, como os anos eleitorais, muitas vezes estamos exatamente na transição entre esses ciclos.
Isso muda completamente a leitura do cenário.
Porque, na prática, os melhores momentos não costumam acontecer quando o mercado está aquecido e seguro, mas quando ele começa a sair da retração, ainda cercado de dúvidas, porém com sinais claros de mudança.
Enquanto a demanda se ajusta, a oferta também muda. Incorporadoras tornam-se mais estratégicas, reduzindo lançamentos em alguns segmentos e priorizando produtos com maior liquidez. Nem todos os segmentos reagem da mesma forma: o econômico tende a ser impulsionado por políticas públicas, o alto padrão é mais resiliente e o médio padrão costuma sentir mais, por depender diretamente do crédito. Portanto, não há um único mercado imobiliário, mas vários coexistindo simultaneamente.
A construção civil é um dos motores do PIB brasileiro, gerando emprego e renda e mantendo o setor ativo, mesmo em cenários de instabilidade. Os imóveis também cumprem um papel importante como proteção patrimonial. Em 2025, os preços subiram cerca de 6,22%, acima da inflação de 5,17%, segundo o Índice FipeZap.
Analisar o mercado apenas pelo cenário macro pode ser um erro. Política e economia são importantes, mas a decisão inteligente é sempre local: localização, liquidez e demanda específica têm mais impacto no resultado de um investimento do que o cenário nacional.
Adiar decisões pode resultar na perda de boas negociações, no aumento da concorrência futura ou em preços mais altos pelo mesmo imóvel. O mercado não espera — ele se move.
E aqui está o pulo do gato que esta colunista quer te contar:
O mercado imobiliário não é guiado por eleições. Ele se ajusta, se reorganiza e continua evoluindo — mesmo quando o cenário parece incerto. O erro não está em esperar, mas em não saber ler esse movimento.