Por Bel Alvi
Foto: Itaciara Albuquerque
Maio é um mês que, tradicionalmente, nos convida a falar sobre maternidade. Mas, por aqui, a conversa vai um pouco além. Ao longo deste mês, vou compartilhar uma série especial em quatro textos sobre as dores e as delícias de ser mãe e, principalmente, sobre como essa experiência atravessa o mundo corporativo, o empreendedorismo e a liderança feminina.
Porque a maternidade não acontece em paralelo à carreira. Ela acontece dentro dela. E, muitas vezes, é nesse encontro que surgem os maiores conflitos, as maiores transformações — e também algumas das competências mais potentes que uma mulher pode desenvolver.
Essa série nasce da vivência, não da teoria. E começa com um dos momentos mais desafiadores da minha trajetória profissional.
Fui demitida no dia em que voltei da licença-maternidade.
Eu nunca sonhei em empreender. Diferente de muitas histórias que começam com frases inspiradoras sobre “ter o próprio negócio”, a minha trajetória começou com medo, insegurança e uma demissão. Fui demitida, sem justa causa, no mesmo dia em que retornei da minha licença-maternidade.
Enquanto muitas pessoas enxergam a maternidade como um dos momentos mais bonitos da vida, para muitas mulheres ela também vem acompanhada de uma pergunta silenciosa e dolorosa: será que ainda existe espaço para mim no mercado?
Era 12 de junho de 2018. Naquele dia, eu não recebi apenas uma notícia profissional. Recebi um choque de realidade sobre como o ambiente corporativo ainda não está preparado para acolher mulheres que se tornam mães.
E talvez a parte mais difícil não tenha sido perder o emprego. Foi olhar para uma bebê pequena, cheia de necessidades, e me perguntar como eu reconstruiria minha vida profissional a partir dali.
Porque, quando uma mulher se torna mãe, ela não deixa de ser competente. Não perde sua capacidade intelectual. Não desaprende o que construiu ao longo da carreira.
Mas, infelizmente, muitas vezes o mercado passa a enxergá-la como “menos disponível”, “menos focada” ou “menos produtiva”.
Eu senti isso na pele.
E foi exatamente naquele momento que precisei olhar para mim mesma e entender o que ninguém poderia tirar de mim.
Eu não tinha grandes recursos financeiros. Não tinha investidores. Não tinha um plano de negócios estruturado. Mas eu tinha conhecimento. E aquele conhecimento se tornou o meu maior patrimônio.
Eu já era certificada pelo Disney Institute em Disney Quality Service e carregava comigo anos de estudo sobre a Filosofia Disney de gestão, encantamento, experiência, cultura e liderança.
Talvez, naquele momento, eu ainda não entendesse completamente. Mas hoje consigo perceber: o que parecia o fim da minha trajetória profissional era, na verdade, o começo do meu propósito.
Foi assim que comecei a atuar na educação corporativa. Não porque empreender fosse um sonho antigo, mas porque, muitas vezes, o empreendedorismo nasce da necessidade de sobrevivência emocional, financeira e identitária.
Empreender foi a forma que encontrei de continuar existindo profissionalmente sem precisar pedir desculpas por ser mãe.
E existe uma reflexão importante nisso tudo: quantas mulheres extremamente talentosas deixam de ocupar espaços porque ainda precisam escolher entre maternidade e carreira?
A liderança feminina carrega uma dualidade que quase nunca é leve. Existe a profissional que entrega resultados. Existe a mãe que sente culpa. Existe a mulher que tenta equilibrar agendas, metas, emoções e expectativas. E existe, principalmente, uma sociedade que ainda romantiza a força feminina sem discutir o peso que essa força carrega.
Mas existe também algo muito poderoso: a capacidade que nós, mulheres, temos de transformar dor em construção.
Hoje, olhando para trás, eu entendo que aquela demissão não definiu a minha história. Ela apenas mudou a direção dela.
Porque, às vezes, a vida fecha uma porta não para nos punir, mas para nos obrigar a atravessar um caminho que jamais teríamos coragem de escolher sozinhas.
E talvez essa seja a mensagem mais importante deste texto: nem todo recomeço vem embalado de coragem. Às vezes, ele vem acompanhado de medo, lágrimas e incertezas. Mas, ainda assim, pode ser o início daquilo que dá verdadeiro sentido à nossa jornada.
Porque, algumas vezes, aquilo que parece o fim… é exatamente onde o nosso propósito começa.
Bel Alvi