A chegada da Estratégia Mãe Bernadete a Alagoas marcou um momento histórico para os povos e comunidades tradicionais de terreiro e de matriz africana no estado. A assinatura do Termo de Cooperação Técnica aconteceu na última sexta-feira (8), no auditório do Campus A.C. Simões, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), reunindo lideranças religiosas, representantes do Governo Federal, universidade, sistema de Justiça e movimentos sociais em um encontro atravessado por memória, resistência e fortalecimento de direitos.
A iniciativa é promovida pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e chega a Alagoas por meio do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi/Ufal). Com a assinatura, o estado se torna o segundo do país a receber a estratégia nacional voltada à proteção dos povos de terreiro e de matriz africana.
Participaram da cerimônia representantes de instituições públicas, lideranças religiosas e integrantes de movimentos sociais ligados à pauta antirracista e de defesa dos povos tradicionais. Entre eles estavam a vice-reitora da Ufal, Eliane Cavalcanti; o secretário de Políticas para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais e Matriz Africana, Povos de Terreiro e Ciganos do MIR, Ronaldo dos Santos; a diretora de Políticas para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e Matriz Africana do MIR, Luzineide Borges; além de representantes do Tribunal de Justiça de Alagoas, Defensoria Pública, Governo do Estado e lideranças religiosas de matriz africana.
“Não existe povo brasileiro sem Axé”
Durante o evento, a vice-reitora da Ufal, Eliane Cavalcanti, destacou o significado político e simbólico da chegada do projeto ao estado. Em seu discurso, ela afirmou que a universidade precisa ser ocupada pelos povos historicamente marginalizados e reforçou o papel da educação no enfrentamento ao racismo religioso.
“Não existe povo brasileiro sem Axé. Este momento representa a Universidade Federal de Alagoas dizendo ao seu povo: estamos construindo novos espaços, novos tempos e uma nova história”, declarou.
Ela também ressaltou a atuação histórica do Neabi na luta contra o racismo e a intolerância religiosa em Alagoas, destacando os mais de 30 anos de atuação do núcleo em defesa dos povos e comunidades tradicionais.
Para a vice-coordenadora do Neabi, Rosa Correia, a Estratégia Mãe Bernadete ultrapassa a ideia de proteção institucional e representa também preservação cultural, ancestralidade e identidade afro-brasileira.
“A matriz africana é um sistema cultural baseado na filosofia, na música, na arte, na culinária e, principalmente, no respeito à natureza”, afirmou.
Projeto surge em meio ao avanço da intolerância religiosa

O secretário do Ministério da Igualdade Racial, Ronaldo dos Santos, chamou atenção para o crescimento do fundamentalismo religioso no Brasil e para os impactos diretos desse cenário sobre os povos tradicionais de terreiro.
Segundo ele, iniciativas como a Estratégia Mãe Bernadete se tornam ainda mais urgentes diante do aumento da violência e do racismo religioso.
“A Estratégia Mãe Bernadete articula uma rede de proteção, e Alagoas já nasce um passo à frente, com instituições comprometidas com essa pauta”, destacou.
O que é a Estratégia Mãe Bernadete?
A Estratégia Mãe Bernadete é uma iniciativa nacional criada pelo Ministério da Igualdade Racial em parceria com a Fiocruz. O projeto atua na promoção dos direitos dos povos e comunidades tradicionais de terreiro e de matriz africana, com foco no enfrentamento ao racismo religioso, na proteção dos territórios tradicionais e na qualificação das redes locais de atendimento.
O nome do projeto homenageia Mãe Bernadete Pacífico, ialorixá, ativista e líder quilombola assassinada em 2023. Reconhecida internacionalmente pela luta em defesa do povo negro e dos territórios quilombolas, ela se tornou símbolo da resistência das comunidades tradicionais diante da violência e da disputa por terra no Brasil.
*com Assessoria da UFAL