Por Sol Gama
Nos últimos anos, um termo tem ganhado espaço nas discussões urbanas e no mercado imobiliário: gentrificação. De forma objetiva, trata-se do processo de valorização de determinadas regiões, atraindo investimentos, novos empreendimentos e um público com maior poder aquisitivo. À primeira vista, isso pode parecer uma evolução natural das cidades. Mas existe um efeito colateral importante: essa valorização nem sempre inclui quem já fazia parte daquele espaço.
Em Maceió, esse movimento não é apenas perceptível, é mensurável. Entre 2021 e 2025, alguns bairros da cidade registraram alta valorização no valor do metro quadrado. Regiões como Pajuçara tiveram crescimento superior a 270%, enquanto Jatiúca, Ponta Verde e Cruz das Almas apresentaram altas acima de 150%. Mesmo considerando a inflação do período, o crescimento real segue elevado, especialmente nas áreas próximas à orla.
Mas o dado mais importante talvez não esteja apenas na valorização, e sim na transformação do produto imobiliário. Hoje, ao analisar o estoque de oferta, fica claro que o mercado tem priorizado tipologias compactas. Studios e unidades de quarto e sala representam 47% dos empreendimentos disponíveis, sinalizando um direcionamento crescente para imóveis voltados à rentabilidade. Até mesmo parte das unidades de dois quartos segue essa lógica.
O imóvel deixou de ser apenas moradia. Passou a ser ativo. A força do turismo, aliada ao crescimento das locações por temporada, mudou o foco do mercado. Os empreendimentos são cada vez mais pensados para retorno financeiro, e não necessariamente para permanência. Isso altera não apenas o perfil de quem compra, mas também de quem ocupa esses espaços.
É nesse ponto que a gentrificação se torna mais evidente. Bairros como a Ponta Verde ilustram bem essa mudança. Tradicionalmente residenciais, hoje vivem uma transformação impulsionada pelo turismo e pelo investimento imobiliário. O aumento da circulação de visitantes, do trânsito e dos preços no comércio impacta diretamente a rotina de quem sempre viveu ali. Gradualmente, o custo de permanecer sobe. E, com ele, surge uma pergunta silenciosa: ainda é possível morar nesses bairros?
O problema não está no desenvolvimento. Crescimento, valorização e investimento são essenciais para qualquer cidade. A questão está no equilíbrio entre progresso e permanência. Quando o mercado passa a responder mais ao investidor do que ao morador, a cidade muda de lógica.
Talvez esteja aí o verdadeiro pulo do gato: entender que a valorização imobiliária não é apenas uma oportunidade financeira, mas também um reflexo das transformações sociais que estamos ajudando a construir. Identificar o próximo bairro promissor é estratégico. Mas compreender quem poderá permanecer nele talvez seja ainda mais importante.
Porque, no fim, a discussão não é apenas sobre valorização. É sobre pertencimento. E sobre para quem, de fato, estamos construindo as cidades.