Enquanto milhões de brasileiros trabalham seis dias para descansar apenas um, as mulheres enfrentam uma sobrecarga adicional: além da jornada formal, também concentram a maior parte do trabalho doméstico e de cuidados. Nesse contexto, o debate sobre o fim da escala 6×1 tem sido visto por especialistas como uma medida que pode impactar especialmente a vida das trabalhadoras.
A discussão ganhou força após o avanço de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe reduzir a jornada máxima de trabalho no Brasil para 36 horas semanais. A proposta está, atualmente, no Senado.
O tema afeta diretamente a realidade de grande parte da população brasileira. Dados mostram que sete em cada dez trabalhadores do país cumprem jornadas de até 44 horas semanais, muitas vezes em escalas que deixam apenas um dia para descanso. A carga tende a ser ainda mais intensa entre pessoas com menor escolaridade e menores rendimentos. Mas, para as mulheres, os efeitos dessa rotina podem ser ainda mais profundos.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres dedicam mais tempo do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Esse acúmulo de responsabilidades é apontado por especialistas como um dos fatores que tornam a escala 6×1 mais desgastante para o público feminino.
A advogada trabalhista e empresarial Sibelle Bastos afirma que as mulheres estão em grande número em setores que tradicionalmente utilizam a escala 6×1, como comércio, serviços, limpeza e atendimento. Segundo ela, o modelo amplia uma sobrecarga que já faz parte da realidade de muitas trabalhadoras.
“A escala 6×1 para uma trabalhadora em pleno século 21 é extremamente nociva. Sabemos que uma trabalhadora não se dedica apenas à prestação de serviço laboral, mas também aos cuidados domésticos”, afirmou.

Foto: Cortesia à Eufêmea
Segundo Sibelle, essa sobrecarga afeta diretamente a saúde física e emocional das mulheres, além de reduzir o tempo disponível para convivência familiar, lazer e autocuidado.
De acordo com a advogada, o mercado de trabalho historicamente foi estruturado sem considerar as responsabilidades de cuidado que ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres. Para ela, o reconhecimento dos impactos desse modelo na saúde e na qualidade de vida tem impulsionado discussões sobre jornadas mais equilibradas.
“Ainda temos muito o que conquistar. O que temos é muito pouco e não condiz com a nossa realidade”, disse.
Impactos psicológicos

A psicóloga Maria Manoella Medeiros, consultora em gestão de saúde mental, afirma que a escala 6×1 pode ser entendida como um fator de risco psicossocial crônico. Segundo ela, os impactos tendem a ser potencializados entre as mulheres devido ao acúmulo de responsabilidades dentro e fora do ambiente de trabalho.
“Clinicamente, são observados esgotamento, fadiga crônica, ansiedade antecipatória, sensação de que nunca há tempo suficiente e supressão das próprias necessidades. O cuidado com o outro acaba sendo colocado acima do autocuidado”, explicou.
A especialista ressalta que o descanso não é apenas uma questão de conforto, mas uma necessidade biológica. Quando insuficiente, pode afetar o sono, a memória, o sistema imunológico e o equilíbrio emocional.
Para Maria Manoella, a redução da jornada representa uma discussão que ultrapassa o campo trabalhista e alcança a saúde pública.
“Ter mais um dia de descanso semanal permite diminuição do estado de alerta, redução de sintomas ansiosos, restauração do sono e maior capacidade de conexão afetiva com os filhos, por exemplo. Esse tempo também pode ser usado para atividades físicas, consultas médicas e lazer”, afirmou.
Desafios da mudança
Apesar dos possíveis benefícios para a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores, a advogada Sibelle Bastos avalia que a eventual implementação de uma nova jornada exigirá adaptações por parte das empresas e do próprio mercado de trabalho.
“Existe uma grande possibilidade de haver demissões, porque os encargos permanecerão. Para o empresariado, a conta pode não fechar se não houver uma contrapartida do governo. Acredito que a negociação coletiva entre sindicatos de trabalhadores e empresas possa ajudar a equalizar essa nova realidade”, afirmou.
Ainda assim, especialistas defendem que jornadas mais equilibradas podem ampliar o acesso das mulheres à saúde, à qualificação profissional, à convivência familiar e à construção de redes de apoio.
“O cansaço crônico também é um fator de exclusão. Mais tempo livre pode permitir que mulheres retomem interesses próprios, fortaleçam vínculos e tenham mais autonomia para fazer escolhas conscientes sobre suas vidas”, concluiu Maria Manoella.