As eleições de 2026 começam a movimentar o cenário político de Alagoas, especialmente entre mulheres que buscam ampliar a representação feminina nos espaços de poder. Em entrevista à Eufêmea, a vereadora de Maceió e pré-candidata a deputada estadual Teca Nelma (PT) falou sobre feminicídio, violência política de gênero, desigualdade social, direitos reprodutivos e os desafios enfrentados por mulheres que ocupam cargos públicos em um estado que, segundo ela, ainda carrega marcas do patriarcado, do coronelismo e das desigualdades históricas.
A entrevista inaugura uma série especial do Eufêmea com mulheres pré-candidatas às eleições de 2026. O objetivo é apresentar trajetórias, propostas e reflexões sobre os desafios da participação feminina na política alagoana.
NOTA DA REDAÇÃO: As perguntas desta série foram enviadas previamente às pré-candidatas. As entrevistas serão publicadas conforme a ordem de recebimento das respostas pela redação da Eufêmea.
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O que motivou sua decisão de disputar um espaço político em um cenário onde mulheres ainda enfrentam violência política, subrepresentação e ataques constantes?
O que me motiva é exatamente o que está na sua pergunta. O espaço político foi construído historicamente para excluir mulheres dos espaços de decisão. Por isso, a única forma de criar uma sociedade em que mulheres possam ser verdadeiramente livres é ocupando os espaços políticos e construindo, nós mesmas, a sociedade que a gente quer. Inclusive, já estamos fazendo isso.
No último século, conquistamos direitos civis fundamentais, como o direito de votar e ser votada, o acesso ao emprego e ao ensino superior. Hoje somos maioria entre as pessoas com formação superior no Brasil. Tudo isso é fruto de muita luta de mulheres que ocuparam espaços de decisão, seja na política institucional, nos sindicatos, nos movimentos sociais ou em tantas outras formas de lutar por direitos.
Mas os desafios ainda são imensos, apesar dos avanços. Hoje, vivemos verdadeiramente uma pandemia de feminicídio. Os números no Brasil são assustadores e é urgente que a sociedade brasileira combata isso com toda a força necessária.
Muitas candidaturas femininas acabam sendo cobradas apenas por “representatividade”. Para você, qual é o papel concreto de uma mulher na política além da presença simbólica?
Eu sempre digo que não basta ser mulher na política, é preciso ter consciência de para quem nós lutamos. A pauta dos direitos femininos é, em última análise, a pauta da luta contra a opressão. E há várias formas de opressão: contra o trabalhador, contra a mulher, contra a população negra, contra a comunidade LGBTQIA+. Enfim, a luta feminista é também a luta contra todas as opressões do mundo.
Por isso, nós, mulheres que ocupamos espaços de decisão, podemos e devemos falar sobre tudo: orçamento público, políticas públicas em todas as esferas e os mais diversos temas que impactam a sociedade. A luta por igualdade de gênero é primordial, mas é um dos aspectos de uma luta maior, que é a luta pela justiça social.
Quais grupos de mulheres você acredita que seguem mais invisibilizados nas políticas públicas em Alagoas hoje?
Em toda a história de Alagoas há uma classe que sempre foi invisibilizada: a classe trabalhadora. A partir dessa concepção, podemos e devemos aprofundar essa análise. As trabalhadoras urbanas seguem vivendo em uma escala exaustiva de trabalho, enfrentando ônibus lotados todos os dias, trânsito intenso para se deslocar ao trabalho, além da distância, do salário apertado e de um terceiro turno de trabalhos domésticos.
As trabalhadoras do campo seguem sem acesso à terra, dado que Alagoas tem uma das maiores concentrações fundiárias do país. Há também as trabalhadoras da pesca, como as marisqueiras, que estão submetidas a um empobrecimento secular, mesmo carregando boa parte da tradição e da cultura alagoana. E há ainda os recortes de raça. Mulheres pretas e pobres seguem sendo esquecidas pelo poder público.
Alagoas, infelizmente, nunca conseguiu romper com esse modo de opressão. Mas o nosso dever é continuar lutando e acreditando que podemos, ao menos, ter esperança.
Como você pretende se posicionar diante de pautas relacionadas à violência contra a mulher, desigualdade salarial, direitos reprodutivos e autonomia feminina?
Como disse acima, a violência contra a mulher é uma verdadeira pandemia que assola o Brasil. Ano após ano, estamos presenciando recordes de feminicídio. Na Câmara Municipal de Maceió, tenho me posicionado firmemente e denunciado o aumento desses casos. Além disso, tenho pautado projetos de lei para ajudar a combater essa onda de violência.
Sou autora do PL “Maria da Penha Vai às Escolas”, para que crianças aprendam desde cedo e se tornem, no futuro, homens conscientes e aliados nessa luta. E, como a questão é urgente e não podemos esperar pelo futuro, também sou autora do PL que proíbe homens condenados pela Lei Maria da Penha de assumirem cargos públicos em Maceió.
A desigualdade salarial, em que no Brasil as mulheres recebem mais de 20% a menos que os homens para exercerem a mesma função, precisa ser combatida. Hoje, as mulheres já são maioria no ensino superior, o que demonstra que somos capazes.
Também fruto desse sistema de sociedade patriarcal, somos obrigadas a presenciar diversos setores da sociedade querendo pautar os nossos corpos. Eu considero que os direitos reprodutivos devem, primeiro, ser tratados como uma questão de saúde, e não de moral ou costumes.
Quais projetos ou propostas você considera prioridade para a população alagoana caso seja eleita?
Nesse momento, estamos dialogando com diversos setores da sociedade. Temos um projeto chamado “Construindo Esperanças”, em que reunimos professores universitários, lideranças de movimentos sociais, ativistas e todos aqueles que se interessam em construir uma Alagoas diferente. Discutimos todas as esferas de interesse social: geração de emprego e renda, desenvolvimento econômico, acesso à educação, à moradia, reforma agrária e inclusão para PCDs. Dessas e de tantas outras audiências sairá nossa plataforma de campanha, que será apresentada no momento devido.
Mas posso adiantar que minhas propostas estarão muito na esteira do que fizemos na Câmara Municipal ao longo desses seis anos. Tenho refletido muito sobre como Alagoas sempre figura nas últimas posições em importantes indicadores sociais, como taxa de alfabetização e renda per capita. Nossa proposta maior será lutar para mudar essa realidade.
Existe alguma estrutura política, cultural ou social que você acredita que ainda impede mulheres de ocuparem espaços de liderança em Alagoas? Como enfrentar isso?
Todas as estruturas sociais foram construídas para excluir mulheres, sobretudo dos espaços de poder e de decisão. Alagoas é um estado em que ainda está muito viva a cultura do coronelismo, das oligarquias e do patriarcado.
Mas não digo que impede, digo que dificulta. Mesmo assim, nós somos resilientes e vamos vencer.