Por Mariana Sampaio/Advogada
Independentemente da motivação do crime, que será esclarecida pelas investigações, há algo que essa cena já nos revela: a violência não terminou com a morte.
Porque matar uma menina já representa a mais absoluta violação do direito à vida. Mas colocar seu corpo dentro de um saco plástico e descartá-lo como se fosse um objeto sem valor revela uma tentativa ainda mais cruel: a de lhe retirar, até o último instante, a condição de ser humana.
É impossível olhar para essa cena sem sentir indignação.
E também é impossível não se perguntar: por que tantas meninas continuam tendo suas vidas interrompidas de forma tão brutal? O que leva alguém a acreditar que pode não apenas matar, mas tratar o corpo de uma adolescente como algo descartável?
A resposta não está apenas na investigação criminal. Ela também exige uma reflexão social.
Vivemos em uma cultura que, historicamente, objetificou mulheres e meninas, relativizou suas dores e, muitas vezes, naturalizou diferentes formas de violência. A violência letal é o estágio mais extremo desse processo. Em alguns casos, ela ainda é acompanhada por uma tentativa de apagar a identidade da vítima, reduzindo seu corpo a um resíduo que pode ser escondido, abandonado ou descartado.
Mas ela não era um saco plástico.
Ela não era um corpo em uma vala.
Ela era uma menina.
Tinha nome, família, sonhos, medos, afetos e uma história que lhe foi brutalmente retirada.
É justamente por isso que não podemos permitir que a última imagem permaneça sendo a que mais circula. Precisamos resgatar sua humanidade. Precisamos lembrar que, antes da cena do crime, existia uma vida que merecia proteção, cuidado e um futuro.
Não podemos transformar o horror em rotina, nem permitir que a morte de uma adolescente seja apenas mais um registro policial.
Quando uma menina é encontrada dessa maneira, não fracassa apenas a segurança pública. Fracassa, em alguma medida, toda a sociedade que ainda não conseguiu garantir que meninas cresçam, vivam e retornem para casa em segurança.
Que a memória dessa adolescente não seja reduzida à violência que lhe tirou a vida.
Que ela seja lembrada como uma menina cuja existência tinha valor.
E que a nossa indignação não dure apenas até a próxima manchete.