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Nenhuma conquista é um presente

Por Thati Nicácio

Julho me trouxe surpresas incríveis. Em uma delas, pude conhecer Marinês. Com mais de sessenta anos, ela é aposentada rural e mora em Ouro Branco, no interior de Alagoas. Casou, teve filhos e passou a vida fazendo o que o mundo esperava dela.

Na conversa deliciosa que tivemos durante minha passagem pela cidade, ofereceu-me um pedaço do melhor bolo de abacaxi que já comi e me disse, com a naturalidade de quem está fazendo uma descoberta tardia: “Eu casei e tive filhos, achei que tinha tudo na vida. Tô descobrindo agora que não”.

Ela está concluindo o ensino médio e quer fazer faculdade de gastronomia. Devo ressaltar, depois daquele bolo delícia de abacaxi, que ela tem talento de sobra para isso. Mas não é sobre talento que quero falar. É sobre a descoberta.

Aos sessenta e poucos anos, Marinês está percebendo que o “tudo” que lhe venderam era uma fraude bem embalada. E há uma máquina inteira operando para que outras mulheres nunca façam ou descubram tardiamente essa mesma estrutura.

Essa máquina pode ser nomeada, afinal, tem método e tem dinheiro. E é sobre ela que precisamos falar: as ramificações concretas da machosfera.

A estrutura ideológica: trad wives, masculinistas e o ideal da mulher-criança

Do nada, somos bombardeadas por milhares de conteúdos de uma vida clean e submissa, explicitando que o movimento trad wife não é um estilo de vida inofensivo. É propaganda. Mulheres jovens filmam-se amassando pão, colhendo tomates e servindo o marido com sorrisos serenos, enquanto narram as virtudes da submissão.

A estética é impecável, a edição é profissional, o financiamento vem de think tanks conservadores e de estruturas religiosas neopentecostais. A pesquisadora Lola Aronovich já documentou essa estrutura: não há espontaneidade ali, há estratégia.

Do outro lado da mesma moeda, os conteúdos masculinistas explodem nas plataformas digitais. Canais inteiros são dedicados a ensinar “o que um homem de valor busca em uma mulher”.

As respostas são um catálogo de infantilização: pureza, ausência de pelos, ausência de passado, virgindade. A mulher ideal é uma página em branco. Sem história, sem desejo, sem voz. Uma boneca que não ameaça, não questiona, não disputa.

Bruna Camilo, ao analisar como o conservadorismo se reinventa nas redes sociais para atrair jovens (The Intercept Brasil, 2026), expõe a estrutura por trás do discurso: esses grupos não são comunidades de desabafo, mas movimentos políticos organizados, com lideranças, financiamento e estratégia de recrutamento.

O discurso deles se estrutura em torno da ideia central de que as mulheres “roubaram” os direitos dos homens, o feminismo “destruiu” a família e, por isso, é preciso “reconquistar” o controle. E reconquistar o controle significa, literalmente, devolver as mulheres ao silêncio. Equivoca-se quem pensa que crianças e adolescentes dominam esse universo: é um mundo majoritariamente adulto.

Os discursos se complementam. As trad wives vendem o confinamento como escolha. Os masculinistas vendem o confinamento como ordem natural. O resultado é o mesmo: uma geração inteira sendo educada para acreditar que mulher boa é mulher calada, depilada, inexperiente e dentro de casa.

Deixo aqui, como dica complementar de leitura, o livro recentemente lançado pela escritora Bruna Camilo, “Machosfera”, que traz uma pesquisa impecável sobre a organização das células masculinistas — prepare o estômago.

A máquina política: ataques, fake news e violência coordenada

Quando as mulheres se recusam a caber nesse molde, a máquina muda de tom. Não mais sedução, mas punição. O relatório MonitorA 2024, já citado no meu artigo anterior, analisou milhões de menções a mulheres políticas nas redes sociais. A conclusão é um diagnóstico de guerra: as mulheres são atacadas por sua identidade. O ataque é pessoal, é sexual, é violento. E é coordenado.

Não são haters isolados. São células organizadas que disparam mentiras, montagens e deepfakes. Vereadoras recebem ameaças de estupro. Deputadas são chamadas de vadias ao propor leis. Isso não é efeito colateral da democracia: é um mecanismo de manutenção do poder masculino. Cada ataque tem o propósito de fazer com que a próxima mulher desista antes mesmo de começar.

Acreditando que as fake news e as agressões não bastam, recorrem ao primitivo argumento de que as mulheres não deveriam votar. O discurso do voto familiar, em que “o chefe” da família vota por todos, voltou a circular com força em grupos conservadores.

E, nesse ínterim, há quem defenda abertamente o fim do voto feminino. Provavelmente porque o voto das mulheres é sistematicamente mais progressista, mais voltado a políticas de ascensão social do que a pautas morais, como aponta a pesquisa Real Time Big Data, de julho de 2026, que demonstra que Lula possui 44% das intenções de voto entre as mulheres, contra 29% de Flávio Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, Flávio alcança 38% entre os homens, contra 35% de Lula. Mulheres são 52,8% do eleitorado nacional. Retirar o direito de decisão desse público é, além de um retrocesso atroz, um impacto substancial na democracia participativa nacional, já que submeteremos a maioria absoluta do eleitorado a um silenciamento profundo.

É um voto que elegeu presidentes, que derrotou projetos autoritários, que prioriza saúde, educação e combate à fome. Isso incomoda. E, por isso, é visto como uma ameaça a ser atacada.

A máquina é sofisticada: para dar credibilidade à narrativa antivoto, recrutam-se mulheres. Influenciadoras, como Pietra Bertolazzi, gravam vídeos dizendo que “política não é lugar de mulher”, que “o voto feminino destruiu a família” e que “mulher sábia delega ao marido”. Nada disso é novo. A historiadora June Hahner documentou que, na luta pelo sufrágio feminino no Brasil, os argumentos contrários vinham carregados de acusações de que as sufragistas eram antinaturais e inimigas da família. O que mudou em cem anos? Apenas o vocabulário. O medo é o mesmo: mulheres com voz própria.

A máquina estrutural: devolução ao lar e silenciamento sistemático

O objetivo final de toda essa engrenagem é simples: devolver-nos ao trabalho doméstico não remunerado e manter-nos em silêncio. A filósofa Silvia Federici, em “Calibã e a Bruxa”, mostrou como o capitalismo, desde sua origem, precisou confinar as mulheres ao trabalho reprodutivo para sustentar o sistema. Hoje, os métodos são mais estratégicos: a romantização do lar, a demonização da mulher com carreira, o ataque às feministas, a precarização das creches e a ausência de licença parental nos parlamentos.

E, coroando essa estrutura, o homeschooling. A reportagem da Jacobin Brasil (https://jacobin.com.br/2026/07/homeschooling-fundamentalismo-cristao-e-ofensiva-neoliberal-contra-a-educacao-publica/) expõe a convergência entre fundamentalismo cristão e neoliberalismo na defesa da educação domiciliar. Mas o que a matéria não aprofunda é o óbvio: quem vai educar as crianças em casa? Quem vai abandonar carreira, formação e vida pública? As mulheres. Dos projetos de lei sobre homeschooling no Brasil, nenhum prevê suporte ou remuneração para as mães educadoras, nenhum menciona seguridade social, nenhum garante descanso. A omissão é o projeto. O homeschooling é a privatização total do cuidado, e as mulheres são o alicerce invisível dessa engrenagem.

O mesmo movimento que defende o homeschooling financia as trad wives. As mesmas igrejas que pregam a “energia feminina” fazem lobby pela educação domiciliar. O mesmo discurso que romantiza a mulher que cuida da cozinha, desde a horta no lar, é o que justifica sua retirada do mercado de trabalho. São camadas do mesmo projeto.

O exército juvenil: meninos radicalizados antes dos quinze anos

Há um agravante que torna esse cenário ainda mais explosivo: a idade dos masculinistas. Os ataques coordenados contra mulheres na internet também são cometidos por homens adultos, mas que buscam recrutar “soldados” cada vez mais jovens. Adolescentes que ainda não completaram quinze anos e já reproduzem, com convicção assustadora, o discurso misógino e violento que permeia o universo redpill, incel e MGTOW na internet.

Esses meninos crescem sob o domínio das telas. A socialização analógica é condenada e dificultada pela dinâmica do aceleramento urbano e foi sendo substituída por algoritmos ao longo do tempo, que os conduzem, passo a passo, da curiosidade inofensiva ao extremismo. Um garoto que pesquisa “como falar com meninas” pode, em questão de semanas, estar consumindo conteúdo que ensina que mulheres são interesseiras, hipergâmicas e emocionalmente instáveis.

O algoritmo não faz pausa. Não oferece contraponto. E a rede educacional, que necessita de atualização na atuação com essas novas gerações, não compete com a velocidade e o apelo dessas plataformas.

É importante ressaltar também que a influência das telas se ancora na sobrecarga doméstica, uma vez que mães recorrem ao uso de telas para “produzir tempo” no trabalho do cuidado. Enquanto as crianças seguem entretidas nas telas, o almoço, a limpeza ou o cuidado com outros segmentos, como idosos, acamados e PCDs, estão sendo realizados.

O resultado é um exército de meninos que chegam à adolescência com o ódio às mulheres já estruturado. E, quando explodem em violência — virtual ou física —, a sociedade faz a pergunta errada. Em vez de investigar quem os recrutou, quem os financiou e quem os radicalizou, pergunta-se: “E a mãe dessa criança?”.

A culpabilização materna é o fecho perfeito dessa engrenagem. O sistema que sequestrou esses meninos para o universo redpill permanece intocado. As plataformas que lucram com o engajamento do ódio permanecem intactas. Os influenciadores que monetizam a misoginia seguem impunes e lucrando.

A reação não é acidente

O patriarcado não está reagindo por acaso. Está reagindo porque avançamos. Cada mulher eleita, cada denúncia de violência e cada independência financeira conquistada são ameaças reais ao poder que eles acumularam por séculos. A reação é o sinal mais claro de que estamos vencendo. Vencendo batalhas, mas ainda há uma guerra pela frente.

Este texto é um documento. Para que ninguém, no futuro, possa dizer que não viu a máquina operando. O projeto da machosfera está exposto.

Lembram-se de Marinês, do início do texto? Ela foi mãe. Criou seus filhos dentro do roteiro que lhe deram. E só agora, aos sessenta e poucos anos, está descobrindo que havia um “eu” para além do cuidado com os outros. Marinês descobriu aos sessenta. Que outras mulheres descubram antes. E que os responsáveis por essa máquina saibam que estamos vigiando, documentando e resistindo. Porque nenhuma conquista foi um presente. E nenhuma será retirada sem luta.

Referências

ARONOVICH, Lola. Escreva Lola Escreva. [S. l.], 2008-2024. Blog. Disponível em: https://escrevalolaescreva.blogspot.com. Acesso em: 22 jul. 2026.

BIROLI, Flávia. Gênero e desigualdades: os limites da democracia no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.

CAMILO, Bruna. Conservadorismo se reinventa nas redes sociais e atrai jovens. The Intercept Brasil, [S. l.], 30 abr. 2026. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2026/04/30/conservadorismo-se-reinventa-redes-sociais-atrai-jovens/. Acesso em: 21 jul. 2026.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Editora Elefante, 2017.

GUIMARÃES, Cátia. Homeschooling no Brasil: projetos de lei, divisão sexual do trabalho e a invisibilidade do cuidado. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 21, 2023. No prelo. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tes/. Acesso em: 22 jul. 2026.

HAHNER, June E. Emancipação do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Florianópolis: Editora Mulheres, 2003.

HOMESCHOOLING, fundamentalismo cristão e ofensiva neoliberal contra a educação pública. Jacobin Brasil, [S. l.], jul. 2026. Disponível em: https://jacobin.com.br/2026/07/homeschooling-fundamentalismo-cristao-e-ofensiva-neoliberal-contra-a-educacao-publica/. Acesso em: 22 jul. 2026.

INTERNETLAB. MonitorA: Relatório 2024 — violência política de gênero online no Brasil. São Paulo: InternetLab, 2025. Disponível em: https://internetlab.org.br/wp-content/uploads/2025/05/MonitorA-Relatorio_2024-3.pdf.

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