Por Mariana Sampaio
Agosto é lilás. Um mês inteiro dedicado a falar sobre enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres. Falamos sobre agressões físicas, ameaças, violência psicológica, patrimonial, moral e sexual. Falamos sobre denunciar, romper ciclos e proteger mulheres.
Mas existe uma pergunta que também precisa caber nessa conversa: quem mais está dentro daquela casa?
Muitas vezes, há uma criança no quarto ouvindo os gritos, há um adolescente tentando intervir na discussão, há uma menina vendo a mãe ser humilhada, controlada e diminuída diariamente, há um filho que aprende a reconhecer, pelo barulho da chave na porta, se aquela será uma noite tranquila ou mais uma noite de medo.
Essas crianças podem nunca ter recebido um tapa. Ainda assim, também estão vivendo violência.
Durante muito tempo, costumamos tratá-las apenas como “testemunhas” ou “vítimas secundárias” da violência contra a mulher. Mas essa expressão talvez não seja suficiente para traduzir o que acontece.
A Lei nº 13.431/2017, que organiza o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência, reconhece que expor uma criança ou adolescente, direta ou indiretamente, a crimes violentos praticados contra pessoas de sua família também pode configurar violência psicológica.
Em outras palavras: uma criança não precisa apanhar para ser vítima da violência que acontece dentro de casa.
Ver a mãe sendo agredida é violência, ouvir ameaças enquanto tenta dormir é violência, conviver diariamente com humilhações, xingamentos, objetos quebrados e portas batendo também deixa marcas.
E talvez uma das consequências mais perversas seja justamente transformar o lugar que deveria representar segurança em um ambiente de medo permanente. A casa deveria ser refúgio.
Para muitas crianças, porém, ela se transforma no lugar onde é preciso aprender a prever o humor do agressor, medir as palavras, proteger irmãos menores ou tentar entender por que alguém que diz amar também machuca.
É importante dizer, entretanto, que falar sobre os impactos da violência doméstica nos filhos não pode servir para culpabilizar ainda mais a mulher vítima.
Perguntas como “por que ela não foi embora?” parecem simples apenas para quem observa a violência do lado de fora.
Romper uma relação abusiva pode envolver dependência econômica, ameaças de morte, controle patrimonial, isolamento familiar, medo, vergonha, ausência de rede de apoio e até ameaças envolvendo os próprios filhos.
A responsabilidade pela violência é de quem agride! Não da mulher que ainda não conseguiu sair.
Por isso, proteger essas crianças também passa necessariamente por proteger suas mães.
Não existe política séria de proteção à infância que ignore a violência contra a mulher, assim como não existe enfrentamento integral à violência doméstica que não enxergue os filhos que convivem naquele ambiente.
Quando uma mulher chega à rede de proteção relatando agressões e existem crianças ou adolescentes naquele núcleo familiar, precisamos ampliar o olhar.
Eles estão seguros?
Presenciaram as agressões?
Tentaram intervir?
Foram ameaçados?
Estão apresentando mudanças de comportamento?
Existe alguém com quem possam conversar e se sentir protegidos?
E, principalmente, como acolhê-los sem produzir uma nova violência, obrigando-os a repetir sucessivamente aquilo que viram e viveram?
É justamente para isso que existe uma rede de proteção que precisa funcionar de forma integrada: saúde, assistência social, educação, Conselho Tutelar, segurança pública, Ministério Público, Defensoria Pública e Poder Judiciário.
Nenhuma criança deveria carregar sozinha o peso de uma violência praticada entre adultos.
Também precisamos ter cuidado com outra armadilha: acreditar que toda criança que presencia violência doméstica necessariamente repetirá aquela história na vida adulta.
Não existe destino escrito. Mas, existe responsabilidade coletiva.
Quando a violência é naturalizada dentro de casa, crianças podem crescer aprendendo referências profundamente distorcidas sobre amor, poder, masculinidade, submissão e resolução de conflitos.
É justamente por isso que interromper esse ciclo importa tanto.
E talvez seja esse um dos recortes que o Agosto Lilás ainda precisa fortalecer.
Porque, quando um homem agride uma mulher diante dos filhos, não há apenas uma mulher sofrendo naquela residência.
Há uma infância sendo atravessada pelo medo, há uma adolescência tentando compreender relações a partir da violência, há crianças aprendendo coisas que nunca deveriam precisar aprender tão cedo.
A criança que vê também sofre.
E enfrentar a violência doméstica é, portanto, também proteger a infância.
Quando conseguimos proteger uma mulher, oferecer condições para que ela rompa o ciclo de violência e garantir acolhimento aos seus filhos, fazemos mais do que interromper uma agressão naquele momento. Criamos a possibilidade de interromper uma história.
Porque determinadas heranças familiares não precisam ser transmitidas.
O medo não precisa passar de mãe para filha.
A violência não precisa passar de pai para filho.
E nenhuma criança deveria crescer acreditando que amar também significa machucar.