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Quando o “Eu dou conta” vira um pedido de socorro

Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante

“Eu dou conta.” Quantas vezes essa frase já saiu da boca de uma mulher antes mesmo de alguém ter a chance de perguntar se ela precisava de ajuda?

Ela dá conta do trabalho, da casa, dos filhos, dos pais, dos relacionamentos, das contas, dos imprevistos e, muitas vezes, das emoções de todo mundo ao redor. Resolve. Organiza. Antecipa problemas. Encontra soluções.

Até que, um dia, percebe que não sabe mais como parar.

Existe uma diferença entre ser independente e acreditar que precisamos fazer tudo sozinhas. A primeira é uma conquista. A segunda pode se transformar em uma prisão.

Muitas mulheres foram ensinadas, desde cedo, a associar força à capacidade de não precisar de ninguém. Pedir ajuda passou a parecer sinal de fraqueza. Demonstrar cansaço, uma espécie de fracasso. Precisar de cuidado, algo que deveria ser evitado.

Assim nasce a chamada hiperindependência: uma estratégia de proteção em que a pessoa aprende a depender o mínimo possível dos outros, mesmo quando gostaria ou precisaria de apoio.

Por trás do “eu resolvo”, pode existir o medo de decepcionar. Por trás do “não precisa se preocupar comigo”, uma dificuldade de confiar. E, por trás do “eu faço sozinha”, às vezes existe uma história inteira de alguém que aprendeu que pedir ajuda não era uma opção.

No consultório, isso aparece de maneiras muito diferentes. Mulheres que não conseguem delegar. Que se sentem desconfortáveis quando alguém oferece ajuda. Que preferem permanecer sobrecarregadas a correr o risco de depender de outra pessoa. Que cuidam de todos com facilidade, mas sentem constrangimento quando alguém tenta cuidar delas.

Existe ainda uma contradição: muitas dessas mulheres desejam intimidade, parceria e relações mais profundas, mas encontram dificuldade justamente na parte que torna um vínculo possível: a vulnerabilidade.

Porque intimidade exige reciprocidade. E, nesse caso, é preciso permitir que alguém conheça não apenas nossa competência, mas também nossas fragilidades. Não apenas aquilo que conseguimos oferecer, mas também aquilo que precisamos receber.

Aprender a pedir ajuda, portanto, não significa abrir mão da autonomia. Significa reconhecer que autonomia e interdependência podem coexistir.

Ninguém precisa deixar de ser forte para ser cuidada. E talvez seja hora de desconstruir a ideia de que uma mulher só é admirável quando consegue carregar tudo sem reclamar.

A vida não deveria ser uma prova permanente de resistência.

Às vezes, “eu dou conta” é, de fato, uma expressão de força. Mas, em outras, pode ser a maneira que encontramos de dizer, sem conseguir dizer: “Eu não sei mais como fazer isso sozinha”.

E talvez a verdadeira maturidade não esteja em provar que conseguimos suportar qualquer coisa, mas em reconhecer quando precisamos dividir o peso. Porque permitir que alguém nos ajude também é uma forma de confiar.

E confiar não diminui uma mulher.

Às vezes, é justamente o que permite que ela finalmente pare de sobreviver no modo “eu dou conta” e comece, de verdade, a viver.

Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Também atua como supervisora de psicólogas e desenvolve projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.

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