Única mulher entre os candidatos ao governo de Alagoas nas eleições de 2026, Lenilda Luna (UP) defende a ampliação de políticas públicas voltadas às mulheres, com crédito para chefes de família, mais creches em tempo integral e expansão da rede de atendimento às vítimas de violência.
Em entrevista à Eufêmea, ela também apresentou propostas de reestatização de serviços públicos, geração de empregos pelo Estado, reforma agrária e mudanças na segurança pública.
Lenilda afirma que entrou na disputa para apresentar um projeto diferente dos demais candidatos e colocar no centro da campanha as propostas da Unidade Popular, partido que tem o socialismo como uma de suas principais bandeiras.
“A candidatura da Unidade Popular surge da necessidade de defender o socialismo, a planificação econômica e a colocação do poder nas mãos da classe trabalhadora”, afirmou.
Segundo a candidata, o principal diferencial da chapa é não ter compromissos com grandes grupos econômicos.
“Somos a única candidatura que propõe reestatizar os serviços públicos essenciais, promover o controle popular da economia, expropriar o latifúndio e governar por meio do poder popular”, disse.
Entre as primeiras medidas de um eventual governo, Lenilda cita a revisão de concessões de serviços públicos, a criação de frentes estaduais de trabalho, mudanças na aplicação dos recursos destinados ao combate à pobreza e medidas relacionadas à reforma agrária.
Ela defende a anulação do contrato de concessão com a BRK Ambiental e a reestruturação da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), para que volte a ser uma empresa integralmente pública. Também propõe uma auditoria no setor de distribuição de energia e afirma que pretende iniciar um processo de estatização do serviço atualmente operado pela Equatorial.
Outra proposta é a criação de um Plano Estadual de Obras Públicas, com contratação direta de trabalhadores para projetos de habitação, saneamento, hospitais e escolas.
Mulheres, emprego e autonomia financeira
Em uma eleição estadual na qual é a única candidata mulher, Lenilda coloca a autonomia econômica feminina entre os temas de seu programa de governo. Uma das propostas é criar uma linha de crédito público destinada principalmente a mulheres chefes de família que vivem nas periferias e no campo.
A candidata também associa a entrada e a permanência das mulheres no mercado de trabalho à disponibilidade de equipamentos públicos de cuidado. Por isso, propõe ampliar a oferta de creches em tempo integral na rede estadual e apoiar os municípios na expansão da educação infantil.
“Para alavancar a economia popular, gerar empregos de qualidade e dar autonomia às mulheres, o programa estabelece uma linha de crédito popular gerida pelo Estado e voltada exclusivamente para mulheres chefes de família da periferia e do campo”, afirmou.
A sobrecarga com o trabalho doméstico e de cuidado é uma das barreiras que historicamente dificultam a autonomia financeira das mulheres. Para Lenilda, uma política de geração de emprego precisa, portanto, ser acompanhada de uma rede pública que permita às mães trabalhar.
“Queremos ampliar as creches em tempo integral vinculadas à rede estadual e apoiar os municípios na expansão da educação infantil para que as mães possam trabalhar”, disse.
Além das medidas específicas para mulheres, a candidata defende um Plano Estadual de Emprego Garantido, com frentes públicas de trabalho e criação de indústrias estatais para aproveitar matérias-primas produzidas em Alagoas.
Também estão entre as propostas a criação do Banco de Desenvolvimento Popular de Alagoas, voltado ao financiamento da agricultura familiar, de cooperativas e de empreendimentos da economia solidária, e mudanças na jornada de trabalho.
Lenilda propõe jornada de 30 horas semanais no serviço público e em empresas estatais, sem redução salarial, além de defender a redução para 40 horas no setor privado e o fim da escala 6×1.
Violência contra a mulher e segurança pública
Na segurança pública, a candidata afirma que pretende substituir uma política baseada principalmente na repressão por um modelo com maior investimento em inteligência, prevenção e direitos humanos.
“Defendemos uma reformulação profunda no modelo de segurança, substituindo a lógica repressiva por uma política de proteção, inteligência e direitos sociais”, afirmou.
Entre as medidas apresentadas estão a utilização obrigatória de câmeras corporais por policiais e a criação de mecanismos independentes para investigar mortes decorrentes de intervenções de agentes de segurança.
Lenilda também propõe ampliar a estrutura estadual de combate ao racismo, com a descentralização da Delegacia Especializada de Crimes Raciais e Intolerância Religiosa e a criação de núcleos no Agreste e no Sertão.
Para enfrentar a violência contra as mulheres, ela defende levar a Patrulha Maria da Penha aos 102 municípios alagoanos e criar uma rede estadual de centros de acolhimento.
“Vamos expandir a Patrulha Maria da Penha para os 102 municípios e criar a Rede Estadual Casas das Dandaras, garantindo centros de acolhimento integral, com atendimento psicológico, jurídico e abrigamento”, disse. Segundo a proposta, as unidades seriam distribuídas pelas dez regiões de planejamento do estado.
Saúde pública e fim de contratos com organizações sociais
Na saúde, Lenilda afirma que pretende adotar um modelo de gestão integralmente estatal. “A nossa proposta é garantir uma Saúde Pública 100% SUS e Estatal”, afirmou.
A candidata propõe substituir gradualmente contratos com organizações sociais, fundações privadas e empresas terceirizadas responsáveis por serviços em hospitais e unidades de saúde.
“Vamos estatizar a gestão hospitalar e cancelar de forma planejada todos os contratos com Organizações Sociais, fundações privadas e empresas terceirizadas em hospitais e UPAs”, disse.
A proposta inclui ainda a realização de concursos públicos para substituir parte das contratações temporárias e terceirizadas de médicos, enfermeiros, técnicos e outros profissionais.
Para reduzir a espera por consultas, exames e leitos, a candidata promete tornar pública a fila da Central de Regulação.
“Informatizar e dar acesso público em tempo real à fila do SISREG e da Central de Regulação para exames, consultas e leitos de UTI é uma forma de acabar com favorecimentos privados ou interferências políticas”, afirmou.
Lenilda também defende a reabertura do Laboratório Industrial Farmacêutico de Alagoas (Lifal), com produção estadual de medicamentos destinados à rede pública.
“Queremos reabrir o Lifal e voltar a produzir remédios básicos para abastecer integralmente a rede pública do SUS a baixo custo”, disse.
Reforma agrária e combate à fome
A concentração de terras também aparece entre as prioridades apresentadas pela candidata. Lenilda defende a desapropriação, sem indenização, de terras pertencentes a usinas que tenham dívidas com o Estado ou sejam flagradas submetendo trabalhadores a condições análogas à escravidão, com destinação das áreas à reforma agrária.
“Defendemos expropriar, sem indenização, terras de usinas endividadas com o Estado ou flagradas com trabalho análogo à escravidão, destinando-as aos assentamentos agroecológicos”, afirmou.
Segundo ela, os assentamentos deveriam priorizar a produção agroecológica e fornecer alimentos para escolas e para a população.
No combate à pobreza, Lenilda propõe modificar a composição do conselho responsável pelo Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza (Fecoep), com metade das vagas ocupadas por representantes da sociedade civil. Também pretende ampliar o funcionamento de restaurantes populares para todos os dias da semana.
Participação popular
Ao falar sobre o que gostaria de deixar como principal marca depois de quatro anos de governo, caso seja eleita, Lenilda afirmou que pretende ampliar a participação da população nas decisões do Executivo estadual.
“Não adianta apenas delegar a um gestor os destinos do Estado. Precisamos fortalecer as entidades sindicais e populares e os mecanismos de participação da sociedade civil nas decisões e na fiscalização da gestão pública”, disse.
Entre as mudanças que a candidata afirma querer implementar ao longo de um eventual mandato estão a gestão pública dos serviços de água e saneamento, a criação de uma empresa estadual de transporte com passe livre, a ampliação da reforma agrária, um sistema de saúde administrado diretamente pelo poder público e políticas de reparação para comunidades atingidas por problemas ambientais.
Lenilda também cita o desastre provocado pela atividade de mineração da Braskem em bairros de Maceió e defende que as áreas atingidas sejam transformadas em patrimônio público, além da ampliação da fiscalização sobre atividades de mineração.
“Queremos um estado com acesso universal e público aos serviços básicos, com água potável e saneamento de qualidade geridos de forma 100% pública”, afirmou.
Para a candidata, a transformação pretendida não dependeria apenas das ações do governo. “O poder só muda com ampla participação popular”, concluiu.