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A mulher que você era antes de aprender a agradar todo mundo

Por Vanessa Albuquerque

Quantas escolhas da sua vida realmente foram suas?

A pergunta parece simples, mas pode ser desconfortável, porque muitas mulheres cresceram aprendendo, antes de qualquer outra coisa, a não incomodar.

A menina “boazinha” que não fazia birra. A adolescente que evitava conflitos. A mulher que aprendeu a ceder para manter o relacionamento, aceitar para não decepcionar, silenciar para não parecer difícil. Aos poucos, agradar deixou de ser apenas uma atitude e passou a fazer parte da identidade.

Ela sabe do que os outros gostam. Sabe o que esperam dela. Sabe como evitar uma discussão, mas, quando alguém pergunta “o que você quer?”, pode não saber responder.

Não porque não tenha desejos, mas porque passou tanto tempo prestando atenção nas necessidades dos outros que perdeu o contato com as próprias. No consultório, isso aparece de maneiras muito diferentes.

Mulheres que dizem “sim” quando gostariam de dizer “não”. Que sentem culpa por estabelecer limites. Que mudam de opinião para evitar conflitos. Que permanecem em relações que já não fazem sentido porque têm medo de magoar alguém. E existe uma consequência nesse processo: a perda da espontaneidade.

Quando pensamos demais no que o outro vai sentir, pensar ou dizer, começamos a editar nossa própria existência.

A roupa que gostaríamos de usar. A opinião que deixamos de expressar. O convite que recusamos com medo de parecer antipáticas. O relacionamento que mantemos porque “não existe um motivo tão grave para terminar”. O desejo que escondemos porque aprendemos que certas coisas não são apropriadas para uma mulher.

Até que, em algum momento, surge uma pergunta difícil: “Eu estou vivendo a minha vida ou a vida que aprendi que deveria viver?”

Ser uma pessoa cuidadosa, empática e disponível não é um problema. O problema começa quando, para preservar o conforto dos outros, precisamos abandonar constantemente o nosso próprio.

Dizer “não” não transforma uma mulher em egoísta. Estabelecer limites não significa deixar de amar. Discordar não significa desrespeitar. E escolher a si mesma não significa deixar de considerar os outros.

Talvez uma das tarefas mais importantes da vida adulta seja aprender a diferenciar culpa de responsabilidade.

Você pode se responsabilizar pela forma como trata alguém sem ser responsável por impedir que essa pessoa fique frustrada.

Nem todo desconforto precisa ser evitado. Nem toda expectativa precisa ser atendida. Nem toda pessoa precisa gostar das suas escolhas.

E talvez seja justamente quando deixamos de tentar ser agradáveis o tempo inteiro que começamos a descobrir quem realmente somos.

A mulher que existe por trás das expectativas. Aquela que tinha opiniões antes de aprender a suavizá-las. Desejos antes de aprender a escondê-los. Limites antes de aprender a ultrapassá-los por outras pessoas.

Talvez ela ainda esteja aí, e não precisamos voltar a ser quem éramos antes de tudo. Precisamos descobrir quem somos agora, depois de tudo o que vivemos, mas sem continuar carregando versões de nós mesmas criadas apenas para caber na expectativa dos outros.

Porque agradar pode trazer aprovação, mas pertencer a si mesma traz liberdade. E talvez crescer seja exatamente isso: parar de perguntar o tempo inteiro “o que esperam de mim?” e começar, finalmente, a perguntar: “O que eu quero para a minha própria vida?”

Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Vanessa é supervisora de psicólogas e destaca projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.

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