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E se o poder tivesse a nossa cara?

Por Thati Nicácio

A história das mulheres no Brasil é uma história de conquistas arrancadas. Não herdadas, não concedidas, não oferecidas. Arrancadas. Com unhas, dentes, coragem e uma teimosia que atravessou gerações.

Cada direito que temos hoje nasceu de mulheres que ousaram contrariar a ordem, que se organizaram quando lhes diziam para voltar para casa, que enfrentaram o escárnio, a prisão e a violência para que nós pudéssemos estar aqui.

Antes de falarmos do presente, é preciso sentir o peso do caminho que nos trouxe até aqui. Não se trata de uma linha do tempo distante, de um passado que não nos pertence. Trata-se da vida das nossas antecessoras.

Mulheres que não puderam estudar, que não puderam escolher com quem casar, que não puderam sair de casamentos violentos, que não puderam decidir sobre o próprio corpo, que não puderam votar. Mulheres que morreram sem nunca ter tido voz. E que, ainda assim, abriram caminho para que hoje eu pudesse escrever este texto.

Essa é a herança que carregamos. Não é leve. Mas é nossa. E é por isso que não podemos recuar.

Linha do tempo: Como nossas ancestrais abriram caminho para chegarmos aqui

➔ Em 1827 as meninas são autorizadas a frequentar a escola. Até então, a educação formal era privilégio dos meninos. A Lei Geral, promulgada em 15 de outubro, abriu as portas do ensino para as mulheres, ainda que apenas além da escola primária.

➔ Em 1879 as mulheres conquistam o direito de ingressar nas faculdades.

➔ Em 1910 é criado o Partido Republicano Feminino. Sob a liderança de Leolinda Daltro, a organização nasceu para representar as mulheres na política brasileira, com o voto feminino como pauta central. Em 1917, adotou uma postura mais combativa, promovendo marchas pelo centro do Rio de Janeiro que foram reprimidas, atraindo a atenção da imprensa. O partido também teve papel fundamental na alfabetização de mulheres, impulsionando escolas femininas e iniciativas de ensino em praças públicas urbanas.

➔ Em 1922 surge a Fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). Liderada por Bertha Lutz e a alagoana Almerinda Gama. A organização teve como foco principal a conquista do sufrágio feminino, entendendo o direito ao voto como passo fundamental para a autonomia e ampliação dos direitos das mulheres.

➔ Em 1932 as mulheres conquistam o direito ao voto. O sufrágio feminino foi garantido pelo primeiro Código Eleitoral brasileiro.

➔ Em 1962, é criado o Estatuto da Mulher Casada. A Lei nº 4.212/1962 permitiu que mulheres casadas não precisassem mais da autorização do marido para trabalhar. No mesmo ano, a pílula anticoncepcional chegou ao Brasil, trazendo autonomia sobre o próprio corpo e iniciando a discussão sobre direitos reprodutivos.

➔ Em 1974 as mulheres conquistam o direito de portar cartão de crédito. Até então, mulheres solteiras ou divorciadas eram obrigadas a levar um homem para assinar contratos. A “Lei de Igualdade de Oportunidade de Crédito” proibiu a discriminação por gênero ou estado civil.

➔ Só em 1977 a Lei do Divórcio é aprovada. Até 26 de dezembro de 1977, as mulheres permaneciam legalmente presas a casamentos infelizes.

➔ Em 1985 é criada a primeira Delegacia da Mulher, em São Paulo. As DEAMs passaram a realizar ações de proteção e investigação de crimes de violência doméstica e sexual contra mulheres.

➔ Em 1988 a Constituição reconhece as mulheres como iguais aos homens. Pela primeira vez, a legislação brasileira nos incluiu como cidadãs com os mesmos direitos e deveres (ao menos era isso que constava no papel).

Mas foi o decreto assinado por Getúlio Vargas em em 24 de fevereiro de 1932 que instituiu o Código Eleitoral que, pela primeira vez, garantiu às mulheres brasileiras o direito de votar e serem votadas. A conquista foi fruto de décadas de luta, organização e enfrentamento a uma elite política que repetia, com todas as letras, que apenas homens detinham conhecimento necessário para participar da vida política. Porém, naquele momento conquistamos o voto, não o poder.

Hoje, as mulheres são 52% do eleitorado brasileiro. Uma maioria expressa nas urnas, mas que não está nem perto da representação adequada nos espaços de poder. Na Câmara dos Deputados ocupamos 91 das 513 cadeiras — 17,7% do total. Nas assembleias legislativas estaduais, a presença feminina é de apenas 18%.

Em alguns estados, a situação é ainda mais grave. Em Mato Grosso, uma única mulher foi eleita para 24 cadeiras — 4% do total. Em Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Goiás, menos de 10% das cadeiras são ocupadas por mulheres nas casas legislativas. A história das mulheres na Assembleia Legislativa de Alagoas começou com a eleição da médica Maria José Salgado Lages (Lily Lages) em 1934, mas teve números assustadores nos últimos anos.

Em 2022, foram eleitas 6 deputadas estaduais em Alagoas das 27 cadeiras na casa. Em 2018 foram 5, em 2014 apenas 2, assim como em 2010 também apenas 2. Isso significa uma ascensão, ainda muito longe do ideal. E a eleição de 2026 pode ser crucial para mudarmos esse cenário.

O ambiente não é amigável

Entrar na política é entender, rapidamente, que você não será acolhida nem entre aqueles que deveriam ser seus pares. Há disputa, há rupturas frequentes, há traições. E há um pacto que transcende qualquer divergência: o pacto masculinista.

Homens de esquerda, centro e direita podem se odiar profundamente em público, mas encontram terreno comum quando o assunto é inviabilizar a participação de mulheres nos espaços de poder. A disputa entre eles não é fictícia, mas o pacto que os une contra nós é mais forte.

Se eu pudesse tocar em algumas feridas, seria sobre como as mulheres acessam menos recursos, constituem menos apoio e enfrentam violências morais e psicológicas frequentemente. É curioso que “militantes de esquerda” constantemente optem por apoiar homens de direita ou centro, do que se aliarem a mulheres de seu próprio campo sem jamais serem questionados por isso.

Em 2022, apenas nove dos 23 partidos com representação no Congresso destinaram 30% ou mais de seus recursos a candidaturas femininas. A média de repasses para candidatas foi de R$ 262 mil, enquanto os homens receberam R$ 312 mil.

A desigualdade começa bem antes do voto na urna. Está na ausência de oferta para conhecimento político como projeto de continuidade de poder, está nas estruturas partidárias excludentes com mulheres, está na estruturação da nossa sociedade que reflete o pior do patriarcado.

E quando mulheres tentam romper a lógica absurda de privá-las da participação política negando o silenciamento, a violência política de gênero avança. De 2022 a 2024, os processos relacionados a crimes de ódio contra mulheres na política aumentaram 11 vezes no Brasil.

Em 2026, as eleições ainda nem acabaram e já batemos recordes de agressões, com sérias ameaças à integridade física das candidatas, chegando ao ponto de ultrapassar a barreira das ameaças e vitimar a candidata do PSOL-PE, Ruana Bezerra, com uma pedrada durante uma agenda política.

A escolha é nossa

Mas a escolha de continuar ou não esse projeto é nossa! Existem formas que podem mudar completamente essa realidade, algumas mais simples que outras.

Em seu ato em Alagoas, o presidente Lula disse: “No dia que as mulheres tiverem consciência de que são maioria e mulher votar em mulher, aí vocês vão ver o bicho pegar.” Além de comentar que deveríamos deixar as mulheres mostrarem como se faz política. A fala, que parece um reconhecimento, é também um chamado.

A disputa para as eleições de 2026 se encerram no próximo final de semana e ainda dá tempo de trocar o voto em um homem tradicional, para escolher uma candidatura feminina e compromissada com a vida das mulheres.

Em Alagoas, há uma candidata que tem tudo para ser a porta-voz da esperança na Assembleia Legislativa. Teca Nelma não é apenas uma jovem com sede de transformações profundas na política, é uma mulher que já se mostrou altiva e forte na defesa da democracia e dos interesses sociais.

Única representante do PT na Câmara Municipal de Maceió, Teca se lançou candidata à Assembleia Legislativa disposta a enfrentar o pacto que insiste em nos manter fora dos espaços de decisão e dar voz e vez a quem realmente precisa ser escutado nessa casa legislativa.

Votarei 13.444 para eleger Teca Nelma no dia 4 de outubro. E esse não é só um compromisso com mais mulheres no poder, mas um pacto com a nossa jovem democracia. Além de trazer consigo os princípios que fundamentam o nascimento do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, que na década de 80 surgia forte e certo de que a classe trabalhadora precisa ser ouvida, é firme em seus princípios e vem sendo a voz mais importante da esquerda alagoana na câmara de vereadores de Maceió, que é extremamente reacionária.

E se o poder tivesse a nossa cara?

Começa com um voto. E o seu pode mudar tudo.

Te convido a apertar 13.444 junto comigo e construirmos esperança para Alagoas.

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