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Um casal não precisa estar em crise para precisar se encontrar

Por Vanessa Albuquerque, Psicóloga e Educadora em Sexualidade

Quando foi a última vez que vocês estiveram realmente juntos? Não no mesmo sofá, cada um olhando para uma tela. Não na cama, exaustos demais para conversar. Não resolvendo questões da casa, dos filhos ou do trabalho. Digo: juntos.

A pergunta pode parecer simples, mas se torna cada vez mais difícil de responder na vida adulta. Muitos casais compartilham uma casa, uma rotina, responsabilidades e até a mesma cama, mas já não encontram tempo para se encontrar de verdade. E talvez exista um erro que cometemos com frequência: acreditar que só precisamos cuidar da relação quando algo começa a dar errado.

Esperamos a crise para conversar, o distanciamento para planejar uma viagem, a falta de desejo para pensar na intimidade, quase perder o outro para lembrar de olhar para ele, mas um casal não precisa estar em crise para precisar de um tempo a dois, assim como cuidamos da saúde antes de adoecer, relacionamentos também precisam de espaços de prevenção, presença e reconexão.

A rotina tem uma capacidade silenciosa de transformar parceiros em excelentes administradores da vida. Eles dividem tarefas, organizam agendas, resolvem problemas e fazem a casa funcionar. Tornam-se uma equipe eficiente, mas eficiência não é intimidade.

É possível amar alguém e, ainda assim, estar distante, dividir a cama e não dividir mais os pensamentos, conversar todos os dias sem, de fato, falar sobre aquilo que importa. A intimidade não se sustenta apenas pela convivência.

Ela precisa de presença, curiosidade e disponibilidade emocional, e talvez seja por isso que tantos relacionamentos sofrem silenciosamente com a falta de espaços onde o casal possa existir para além de suas funções: pai e mãe, profissional, filho ou filha, responsável pelas contas, cuidador. Em algum momento, quem são essas duas pessoas quando conseguem ficar simplesmente entre nós?

Criar momentos a dois não deveria ser entendido como luxo ou recompensa reservada para datas especiais. Também não precisa significar uma grande viagem ou um planejamento complexo. Às vezes, significa apenas sair da rotina, mudar de cenário, desligar o celular, dormir sem despertador, jantar sem pressa, conversar sem que alguém interrompa, tocar o outro sem que todo toque precise necessariamente levar ao sexo… Porque intimidade não começa no quarto: ela começa na forma como olhamos, escutamos e nos interessamos novamente por quem escolhemos ter ao nosso lado.

E essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para os casais de longa duração: quando foi a última vez que você teve curiosidade sobre a pessoa com quem vive?

As pessoas mudam. Os desejos mudam. Os corpos mudam. As prioridades também. Permanecer em uma relação não significa conhecer alguém para sempre. É preciso continuar descobrindo. Talvez seja justamente por isso que os relacionamentos precisem, de tempos em tempos, de uma pausa. Não uma pausa um do outro: uma pausa para o outro. Um espaço em que a rotina fique do lado de fora e o casal possa se lembrar de quem era antes das responsabilidades ocuparem todos os cômodos da vida.

Não porque algo está quebrado, mas porque aquilo que importa também precisa ser cuidado antes de quebrar.

Em uma época em que estamos constantemente conectados, escolher estar verdadeiramente presente pode ser um dos maiores gestos de intimidade. Talvez cuidar de uma relação não seja esperar o momento em que tudo começa a faltar, seja criar, intencionalmente, momentos para que ainda exista um “nós”. Porque morar junto é compartilhar um endereço, mas continuar escolhendo se encontrar é o que transforma convivência em conexão.

Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Vanessa é supervisora de psicólogas e destaca projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.

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