Por Marina Sampaio/Advogada
O caso de Curitiba revela o poder da informação na prevenção da violência sexual e nos convida a refletir sobre a responsabilidade dos adultos na proteção das infâncias.
Ela tinha apenas 9 anos e estava a caminho da escola quando precisou fazer algo que nenhuma criança deveria precisar fazer: pedir socorro diante de uma ameaça de violência sexual.
Ela não gritou nem conseguiu simplesmente se afastar. Fez apenas um gesto. Um movimento silencioso das mãos, aprendido com a avó, que poderia passar despercebido por quem não soubesse o que significava. Mas, felizmente, alguém entendeu.
No dia 9 de outubro de 2026, em Curitiba, uma menina de 9 anos foi abordada por um homem de 54 anos enquanto seguia para a escola. Segundo as informações divulgadas, o suspeito teria oferecido dinheiro para que ela o acompanhasse até um terreno próximo. Diante da recusa, teria segurado sua mão e ordenado que permanecesse em silêncio.
A menina, então, utilizou o sinal internacional de pedido de ajuda, que consiste em mostrar a palma da mão, dobrar o polegar para dentro e fechar os demais dedos sobre ele.
Seu primo reconheceu o gesto e procurou ajuda em um estabelecimento próximo. A intervenção de terceiros e da Guarda Municipal resultou na prisão do suspeito em flagrante.
A história ganhou repercussão pela atitude da criança. Mas existe um detalhe que considero ainda mais importante: ela sabia como pedir ajuda porque alguém havia dedicado tempo para ensiná-la.
Sua avó, após conhecer o sinal por meio de uma reportagem, decidiu compartilhá-lo com os netos.
Uma conversa dentro de casa. Uma informação aparentemente simples. Um conhecimento que, diante de uma situação de perigo, se transformou em instrumento de proteção.
E é justamente aqui que precisamos interromper a narrativa de heroísmo infantil para fazer uma reflexão mais profunda.
Por que ainda precisamos convencer os adultos de que ensinar crianças a reconhecer situações de violência é uma forma de protegê-las?
Vivemos em uma sociedade que frequentemente confunde informação com perda da inocência, transforma a educação sexual em tabu e acredita que preservar a infância significa manter as crianças distantes de determinados assuntos. Entretanto, a violência não deixa de existir porque decidimos não falar sobre ela.
O agressor não espera que a criança compreenda o significado de um abuso para praticá-lo.
O desconhecimento não protege a inocência. Ao contrário, pode ampliar a vulnerabilidade.
Ensinar uma criança que seu corpo lhe pertence, que ninguém pode obrigá-la a aceitar contatos físicos inadequados, que existem segredos que não devem ser guardados e que ela pode procurar ajuda quando se sentir ameaçada não é antecipar experiências adultas.
É oferecer ferramentas de proteção compatíveis com sua idade. É educação sexual preventiva. É cuidado. É responsabilidade.
O caso de Curitiba demonstra a importância dessa aprendizagem. Entretanto, seria um equívoco concluir que basta ensinar um sinal de socorro para manter nossas crianças seguras.
A responsabilidade de impedir a violência nunca pode ser transferida para a criança. Não podemos exigir que meninas de 9 anos sejam corajosas o suficiente para escapar de agressores, nem esperar que crianças consigam identificar todos os perigos ou encontrar, sozinhas, uma saída diante da violência.
Elas têm direito à informação, mas também à proteção. E proteger é uma obrigação dos adultos.
A família precisa conversar com seus filhos sobre segurança, limites e respeito ao corpo. A escola deve desenvolver ações educativas adequadas à idade, ensinando que nenhuma criança precisa guardar segredos que lhe causem medo ou sofrimento. Os profissionais devem estar preparados para identificar sinais de violência e acolher revelações espontâneas sem julgamentos.
A sociedade, por sua vez, precisa compreender que proteger crianças exige uma rede de adultos atentos, preparados e comprometidos.
Mas existe outra reflexão que esse caso nos convida a fazer: estamos ensinando nossas crianças e nossos adolescentes a pedir socorro? E, mais importante, estamos preparados para ouvi-los quando pedem ajuda?
Conhecer o sinal universal de socorro é importante, mas não é suficiente. Precisamos ensinar que existem diferentes formas de pedir ajuda e que ameaças, intimidações e situações de violência não devem ser toleradas nem escondidas.
Ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de violar o corpo de uma criança, ameaçá-la ou obrigá-la a guardar segredos que lhe causem sofrimento, ainda que seja alguém próximo ou pertencente à própria família.
É fundamental que crianças e adolescentes saibam que podem procurar um familiar de confiança, um professor, um profissional da escola, o Conselho Tutelar ou outro adulto capaz de acolhê-los e acionar a rede de proteção.
Também precisamos apresentar, de maneira acessível, os canais de denúncia, como o Disque Direitos Humanos (Disque 100), que recebe denúncias de violações de direitos, inclusive contra crianças e adolescentes, envolvendo situações de violência física, psicológica e sexual, negligência e outras formas de violação de direitos. Em situações de emergência policial, o telefone 190 pode ser acionado.
Mas ensinar a pedir socorro exige algo ainda mais profundo: mostrar que a palavra da criança merece ser ouvida, que ela não será culpabilizada pela violência sofrida e que pedir ajuda jamais será motivo de vergonha.
Quantas crianças permanecem em silêncio porque foram ameaçadas? Quantas acreditam que ninguém lhes dará crédito? Quantas têm medo de destruir a própria família ao revelar uma violência praticada por alguém próximo?
E quantas já tentaram contar, mas encontraram adultos que minimizaram seus relatos ou simplesmente escolheram não se envolver?
Precisamos romper com essa cultura. Uma criança não pode crescer acreditando que deve suportar a violência para preservar vínculos familiares ou proteger a reputação de um adulto.
Também precisa saber que não é necessário esperar que uma agressão aconteça para procurar ajuda. A ameaça merece atenção. O medo precisa ser acolhido. A percepção de perigo deve ser levada a sério.
Entretanto, há um cuidado indispensável: não podemos transformar o conhecimento em mais uma cobrança sobre a infância.
Se uma criança não conseguir gritar, fugir, realizar um sinal ou denunciar uma violência, isso jamais poderá ser interpretado como falha sua. O medo pode paralisar, a ameaça pode silenciar e a dependência emocional pode dificultar a revelação.
Nenhuma reação, ou ausência dela, diminui a responsabilidade de quem pratica a violência.
A responsabilidade pela violência é de quem a pratica. O dever de preveni-la e enfrentá-la pertence aos adultos, às instituições e ao Estado. Nunca à vítima.
Por isso, tão importante quanto ensinar crianças a pedir socorro é preparar os adultos para reconhecer seus pedidos de ajuda.
É preciso que as famílias saibam acolher sem julgar, que as escolas tenham profissionais capacitados, que a rede de proteção funcione de maneira articulada e que o poder público assegure mecanismos efetivos de prevenção, denúncia e atendimento.
A proteção não é uma gentileza que oferecemos às crianças. É um dever jurídico, ético e coletivo.
O caso de Curitiba nos mostra o que acontece quando a informação encontra pessoas capazes de agir. Uma avó ensinou, uma menina compreendeu, um primo reconheceu e outros adultos intervieram.
Precisamos construir uma cultura em que crianças e adolescentes conheçam seus direitos, saibam que podem pedir ajuda e encontrem adultos dispostos a protegê-los.
Aquela menina soube pedir socorro em silêncio. E, felizmente, alguém soube escutá-la.
Mas quantas outras crianças continuam tentando dizer, de diferentes maneiras, que estão em perigo? Quantas ainda esperam que alguém perceba seus medos, compreenda seus silêncios e leve suas palavras a sério?
Não basta ensinar nossas crianças a pedir socorro. Precisamos garantir que, quando pedirem ajuda, alguém esteja preparado para agir.
Porque a maior lição do caso de Curitiba talvez seja justamente esta: uma criança precisa saber pedir ajuda, mas é o mundo adulto que precisa aprender a não falhar quando ela pede.