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A humilhação viraliza e a infância paga o preço

Por Mariana Sampaio

Foto: Imagem gera por IA

Ele tinha apenas nove anos. Aproximou-se de uma mesa para oferecer os doces que vendia e encontrou algo que nenhuma criança deveria receber de um adulto: uma humilhação transformada em motivo de riso.

Não foi a recusa em comprar os bombons que tornou a situação tão grave, até porque ninguém é obrigado a adquirir um produto. O problema foi transformar a necessidade de uma criança em oportunidade para uma provocação política, constrangê-la diante de outras pessoas e compartilhar a cena nas redes sociais.

No dia 28 de outubro de 2026, em Fortaleza, uma influenciadora digital filmou um menino que vendia doces na região da Beira-Mar. Durante a abordagem, perguntou sobre suas preferências políticas e as de sua família. Após a criança mencionar o presidente Lula, pediu que fizesse o “L”. O menino atendeu ao pedido, mas a mulher afirmou que não compraria os produtos, enquanto outras pessoas riam da situação.

A gravação ganhou repercussão, mas algo nesse episódio é ainda mais perturbador do que a provocação política: um grupo de adultos encontrou diversão no constrangimento de uma criança.

Em que momento nossas divergências passaram a justificar a humilhação daqueles que deveriam ser protegidos?

A polarização política, intensificada pelas redes sociais, tem transformado discordâncias em hostilidade, humilhação e intolerância. Entretanto, nenhuma convicção autoriza um adulto a utilizar uma criança como instrumento de provocação.

Crianças não podem ser responsabilizadas pelas escolhas políticas de seus familiares, tampouco transformadas em personagens involuntárias de disputas que pertencem ao mundo adulto.

A dignidade de uma criança não pode depender de sua posição política, das opiniões de sua família ou da disposição de um adulto em respeitá-la.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 17, assegura o direito ao respeito, abrangendo a integridade física, psíquica e moral, além da preservação da imagem, da identidade e da dignidade. O artigo 18 estabelece o dever de todos de proteger crianças e adolescentes de tratamentos vexatórios ou constrangedores.

A violência contra a infância nem sempre deixa marcas físicas. Também pode se manifestar por meio da humilhação, da exposição indevida e da desqualificação diante de outras pessoas.

Isso não significa antecipar conclusões sobre eventual responsabilização jurídica, mas reconhecer que a dignidade infantil não pode ser relativizada sob a justificativa de uma brincadeira ou divergência política.

Há, ainda, outra dimensão preocupante: a transformação do constrangimento em conteúdo digital.

A cena foi gravada, publicada e compartilhada, ampliando a exposição do menino. Em uma sociedade na qual o sofrimento frequentemente se converte em entretenimento e engajamento, precisamos lembrar que, por trás de cada vídeo, existe uma criança com sentimentos, vínculos familiares e direitos, inclusive o direito à privacidade.

O episódio também revela uma realidade social que não pode ser ignorada.

Segundo as informações divulgadas, o menino é autista, perdeu a mãe, vive com a avó e vende doces para contribuir com as despesas familiares.

Enquanto muitos se indignaram com a atitude da influenciadora, outra pergunta precisa ser feita: por que uma criança de nove anos está trabalhando para ajudar no sustento da família?

Não se trata de desvalorizar seu esforço ou responsabilizar uma família que enfrenta dificuldades econômicas. Trata-se de reconhecer que crianças não deveriam carregar responsabilidades financeiras que pertencem ao mundo adulto.

A Constituição Federal proíbe o trabalho antes dos 16 anos, salvo na condição de aprendiz a partir dos 14 anos. Essa proteção existe porque a infância deve ser um período de desenvolvimento, educação, convivência familiar, descanso e brincadeira.

O trabalho infantil não pode ser romantizado como demonstração de maturidade, superação ou espírito empreendedor.

É possível reconhecer o esforço de uma criança e, ao mesmo tempo, compreender que ela deveria estar protegida das responsabilidades econômicas da vida adulta.

Após a repercussão, surgiram manifestações de solidariedade, doações e iniciativas de apoio ao menino e à família. A influenciadora também publicou um pedido de desculpas, como tantas vezes acontece quando uma situação de violência ganha visibilidade e repercussão pública.

A mobilização é importante, mas precisamos evitar que a comoção se esgote na indignação de alguns dias.

A solidariedade não substitui políticas públicas. Doações podem atender a necessidades imediatas, mas não eliminam as condições de vulnerabilidade que exigem proteção permanente, assistência social e ações efetivas de enfrentamento ao trabalho infantil.

Também é necessário discutir a responsabilidade de quem produz e compartilha conteúdos envolvendo crianças, especialmente quando suas imagens são utilizadas para ridicularizar, provocar ou conquistar visibilidade.

A infância não pode continuar sendo tratada como um território disponível para os excessos dos adultos.

Crianças são sujeitos de direitos, capazes de interpretar o mundo, construir relações e experimentar, à sua maneira, as situações que vivenciam. Não são personagens secundárias das histórias contadas pelos adultos. Possuem sentimentos, perspectivas e uma dignidade que precisa ser respeitada no presente.

O caso de Fortaleza nos obriga a refletir sobre a intolerância, a banalização do constrangimento e a transformação da humilhação em entretenimento. Mas também exige que olhemos para a desigualdade social e para as responsabilidades que recaem precocemente sobre tantas crianças.

Não basta condenar a humilhação de uma criança se continuamos indiferentes às condições que a colocam em situação de vulnerabilidade.

A proteção integral exige mais do que indignação. Exige respeito nas relações cotidianas, responsabilidade no ambiente digital, políticas públicas efetivas e compromisso coletivo com os direitos da infância.

Porque nenhuma divergência política justifica a crueldade. Nenhuma dificuldade econômica retira de uma criança o direito de viver sua infância. E nenhuma busca por curtidas pode se sobrepor à sua dignidade.

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