Por Vanessa Albuquerque – Foto: Natália Tenoli
Em 2026, o cansaço não é apenas um estado físico; para muitas mulheres, ele se tornou um crachá, um atestado de produtividade e, paradoxalmente, de valor. A imagem da mulher multitarefa, que concilia com maestria carreira, maternidade, vida social e autocuidado, é constantemente reforçada por uma sociedade que ainda espera dela uma performance impecável em todas as esferas. Mas a que custo?
Dados recentes do O Globo, de 2026, revelam que 74% das mulheres sofrem com o acúmulo de funções no trabalho e em casa, e a sobrecarga mental pode equivaler a até oito jornadas de trabalho para algumas, conforme estudo da PUCPR de 2025.
Essa exaustão crônica não é um sinal de força, mas um alerta ensurdecedor. Ela mina a saúde mental, a criatividade, a capacidade de desfrutar da vida e, em última instância, a própria identidade feminina. Como psicóloga e supervisora de outras profissionais, observo em meu consultório o peso dessa expectativa irreal.
O conceito de carga mental, que vai além da execução de tarefas e se refere à função invisível de “gerência” do lar e da família (ser a CEO da casa sem nunca ter se candidatado ao cargo), é um dos pilares dessa exaustão. A pesquisadora Leah Ruppanner, por exemplo, aborda os “trabalhos imperceptíveis” que recaem sobre as mulheres, evidenciando como essa invisibilidade contribui para o esgotamento antes mesmo que o burnout se instale, segundo reportagem do G1 de 2026.
O “ter que dar conta de tudo” não é uma virtude, mas uma armadilha que aprisiona a mulher em um ciclo de culpa, esgotamento e silenciamento de seus próprios desejos. A sociedade, ao aplaudir essa performance exaustiva, perpetua a penalidade da maternidade e a economia do cuidado, em que o trabalho não remunerado e emocionalmente desgastante é majoritariamente feminino e desvalorizado. No Brasil, a desigualdade na economia do cuidado é uma crise de saúde pública, com mulheres negras no topo dessa pirâmide de sobrecarga, conforme estudo da Veredas de 2026.
É hora de desconstruir essa narrativa. O verdadeiro empoderamento reside em reconhecer os próprios limites, delegar, pedir ajuda e, acima de tudo, priorizar o bem-estar como um ato revolucionário. O cansaço não é um troféu; é um pedido de socorro do corpo e da mente. E atender a esse pedido, completando o ciclo da resposta ao estresse, como ensinam Emily e Amelia Nagoski em seu trabalho citado pela Ame sua Mente em 2026, é o primeiro passo para o resgate da liberdade emocional e da identidade feminina.
Isso implica uma mudança não apenas individual, mas coletiva, que questione as estruturas sociais que perpetuam essa sobrecarga e que valorize o cuidado como um pilar fundamental da sociedade, e não como uma responsabilidade exclusiva da mulher.
Sobre a colunista
Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Vanessa é supervisora de psicólogas e desenvolve projetos ligados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.