Categorias
Cotidiano Interna Notícias

Advogada trans é a primeira a ter registro retificado na OAB-GO: “Reforça a dignidade”

A advogada Amanda Souto Baliza, 29 anos, é a primeira mulher trans a ter seu registro profissional na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Goiás (OAB-GO) retificado. O passo inicial foi a modificação do registro civil e agora ela pode exercer a advocacia com a nova carteira da OAB, conquista que lhe custou muita luta, mas que Amanda comemora e diz que é uma vitória para a população trans. 

Integrante da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero (CDSG), Amanda conversou com o Eufemea, a quem contou sobre sua trajetória e o que muda em sua vida a partir de agora.  

“Eu terminei o curso de Direito em 2012 aos 21 anos. Na época em que eu estava pensando em prestar vestibular eu pensava em Psicologia, mas acabei indo pro Direito. Atualmente eu também pego algumas matérias de psicologia como aluna especial na UFG”, ela conta. 

A realização do sonho não parou por aí e Amanda ainda tinha uma batalha pela frente. Mudar o registro profissional.  

“Ter o documento retificado é muito gratificante, um ato que reforça a dignidade. É muito constrangedor ter que apresentar um documento com nome e foto que não apresenta a realidade vivida. Acho que agora não vou me sentir mal quando algum amigo chamar pra sair em algum lugar que exige documento para entrar”. 

Ela fala sobre preconceito. “O direito é uma área muito conservadora, eu atuo em Direito da Saúde e Direito LGBTQI+, eventualmente no Direito Criminal quando se trata de prisão em flagrante e no Direito do Trabalho com uma parceria que tenho com um escritório”, revela, ao dizer que o preconceito “é sempre velado. Ninguém nunca me disse nada dentro do Fórum ou até dentro da OAB mesmo, mas certos olhares dizem mais que muitas palavras”. 

Amanda lembra que uma das situações que marcaram sua vida ocorreu antes de mudar a documentação.  

“Eu tinha medo de fazer audiências e sofrer algum constrangimento. Então, geralmente ia de terno com um vestido por baixo e quando chegava no carro tirava o terno, talvez seja um pouco de paranoia ter esse medo todo, mas às vezes vemos certas situações na mídia que reforçam essas cautelas”. 

Quanto ao processo de mudança do registro, ela fala que a maior barreira foi a burocracia. “Muita gente acaba sendo barrada nela. O cartório que escolhi para fazer o procedimento meio que se especializou nisso, então todos me trataram com muito respeito. Na OAB também me trataram de forma muito respeitosa”. 

“Meu registro novo foi emitido dia 18 de março, minha OAB nova foi emitida esses dias, ainda não peguei o documento físico, só o digital, estou esperando a carteira do plano de saúde ficar pronta para aproveitar a viagem. Todo cuidado é pouco nessa pandemia.” 

A advogada conta ainda que o momento em que conseguiu o novo registro foi de emoção e de surpresa. “Pra mim foi uma surpresa ser a primeira aqui em Goiás a fazer esse procedimento, já ouvi dizer que existem outras pessoas trans, mas não as conheço. Elas devem usar o documento social”, relata, ao falar que sua história sirva de inspiração, mas acima de tudo de transformação.  

“Espero que a história seja inspiradora sim, mas também espero que no futuro seja algo tão comum que não precise virar notícia. Em questão de sonhos por enquanto só quero ser um pouco mais feliz, me conhecer mais e levar uma vida sem medo de sofrer ataques simplesmente por ser quem sou”. 

Cheia de planos e sonhos, Amanda conta sobre um convite que recebeu. “Existe um instituto aqui em Goiânia chamado Instituto Padma, ele é dedicado a ajudar a mulheres a empreender e ajuda na educação financeira. Elas me convidaram para um projeto que visa ajudar na inclusão de pessoas LGBTQI+ no mercado de trabalho, ainda está no papel, mas acredito que será um bom projeto”, revela. 

“Não queria ser o desgosto da família” 

Ao Eufemea, Amanda falou ainda sobre quando se descobriu trans e o que mudou em sua vida a partir desse momento. 

“A questão de gênero sempre esteve presente em minha vida, desde criança, mas só fui entender que era trans por volta de uns 12-14 anos, foi muito difícil porque tinha medo, né? Não queria ser o desgosto da família, não queria ser uma decepção pros meus pais, esses foram os pensamentos que ficaram na minha cabeça por muito tempo”. 

Amanda: “Por enquanto só quero ser um pouco mais feliz, me conhecer mais e levar uma vida sem medo de sofrer ataques simplesmente por ser quem sou”

Sobre o processo de transição, ela relata: “Eu iniciei a transição de certa forma tarde, então na faculdade não enfrentei preconceitos, mas tivemos outras dificuldades. Meu pai é balconista em uma farmácia e minha mãe costureira, nossa família não tinha muito dinheiro, fiz o curso pelo Fies”. 

“Tenho um irmão biológico que é a pessoa que mais amo no mundo e dois irmãos de criação que são filhos da minha madrasta. Hoje eu moro só, minha mãe mora em Aparecida de Goiânia, que fica na região metropolitana da capital, e meu pai em Anápolis, que fica cerca de 55km daqui. Até onde eu sei sou a única pessoa LGBTQI+ na família. Se tem alguma outra pessoa ainda não saiu do armário”, ela diz, sorrindo. 

Antes de contar à família, ela relata o drama que viveu. “Quando a questão de gênero se tornou insuportável, eu busquei uma psicóloga e fui trabalhando isso e outras coisas, primeiro contei para meus amigos próximos que me apoiaram incondicionalmente. Na família, a primeira pessoa que tive coragem de contar foi meu irmão, que me apoiou desde o primeiro dia, foi e é alguém que cuida demais de mim”, diz Amanda, ao contar como a mãe dela reagiu. 

“Depois contei para minha mãe, a reação dela foi bem ruim, não aceitou, me disse umas coisas bem tristes, mas com o tempo ela parou de confrontar. Hoje em dia ainda nunca me chamou de Amanda, mas entendo que ela está no tempo dela”.  

Já o pai, Amanda conta que foi o último a quem falou. “Meu pai foi o último que contei, eu disse que queria conversar com ele e ele resolveu vir aqui em casa. Eu não esperava uma reação ruim, mas ele superou minhas expectativas. Ele me disse ‘E o que é que tem? O mundo é assim mesmo, Deus te fez assim. Não vou sentir menos orgulho de você por causa disso”. 

Depois disso, relata a advogada, “ele reuniu a família toda e contou e no geral a família aceita, um ou outro às vezes fala algo inconveniente, mas faz parte né?”.

“Geralmente comigo o preconceito é velado, às vezes é mais explícito. Antes de mudar os documentos uma atendente se recusou a colocar Amanda na minha comanda em um bar aqui da cidade, ela queria colocar o nome do documento, tive que falar com o gerente”, lembra, ao ,relatar sobre o preconceito nas ruas e na web. 

“Já aconteceu de gritarem obscenidades na rua, uma vez fui em uma distribuidora comprar refrigerante e dois homens estavam conversando, daí um disse pro outro: “Aqui em Goiás não é como lá no Sul, quando a gente vê viado matamos mesmo” e coisas do tipo, agressões mais verbais acontecem na Internet. Por algum motivo as pessoas perdem um pouco de sua humanidade quando estão atrás de uma tela”, diz ao falar de um momento que marcou sua vida. 

“Acho que momento marcante posso citar o Carnaval desse ano, mas não foi um caso de preconceito, foi um caso de assédio. O cara passou a mão na minha perna e levantou meu vestido, segurei a mão dele e disse: “Não”. Ele riu e respondeu: “Desculpa, você estava muito chamativa”. Eu nunca tinha passado por assédio que chegasse ao físico, geralmente ficava no verbal. Fiquei sem reação na hora, sem saber o que fazer”. 

No mundo, o Brasil ocupa a posição de país que mais mata pessoas transexuais, chegando a mais de 124 registros de mortes em 2019. 

Categorias
Inspiradoras Interna Notícias

Compre de uma mamãe: Alagoanas lançam aplicativo para negócios maternos

Foi durante a pandemia que as amigas Lilian Carnaúba e Vanessa Lins pensaram em criar um aplicativo de negócios maternos. O que antes estava apenas no papel, saiu e se tornou realidade. O aplicativo @appcompredeumamae foi lançado da 13 de julho e surgiu com a ideia de movimentar os negócios de mães empreendedoras de Maceió.

Vanessa é especialista em empreendedorismo e marketing materno. Lilian é enfermeira e coach de mães. Elas juntaram tudo que elas sabiam sobre trabalho e maternidade, e decidiram apostar no aplicativo.

“Vanessa está dando todo suporte nas áreas para as empresas que se cadastram no aplicativo e eu realizo ações voltadas para o público”, explicou Lilian.

Segundo Lilian, como profissional da saúde, ela também vai realizar rodas e movimentos com gestantes e mães, além de movimentos com todos os públicos em geral. Por enquanto, tudo está acontecendo de maneira online.

Como funciona o aplicativo?

O aplicativo é bem amplo e têm várias categorias: academia, personal trainer, restaurantes, lojas para gestantes, bebês, entre outros.

“As empresas e profissionais que expõe seus trabalhos são administrados por mães empreendedoras. Sendo aquelas que trabalham em casa e aquelas que possui sua empresa em outro estabelecimento”, explicaram as duas.

Mas a ideia do aplicativo vai além. Com o atual cenário econômico por causa da pandemia, muitas mães perderam os empregos e precisam sustentar os filhos.

“Achamos que veio no momento perfeito. Muitas marcas precisavam desse up e as mães precisavam dessa ajuda”, disse Lilian.

As alagoanas também pensaram como podiam unir os trabalhos junto com o aplicativo. “Vanessa oferece um suporte para as marcas que entram no aplicativo, ela dá um box de ferramentas de marketing digital, uma mentoria pelo whatsapp em grupo e ela está fazendo um desafio de Instagram com as mães para elas melhorarem o posicionamento delas. Eu fico mais com a parte de atrair o público, fazer rodas com gestantes”.

Para fazer parte do aplicativo, a mãe que tem uma empresa ou clínica, paga R$ 150 anual e ganha o suporte da Vanessa.

Já para quem quer baixar e ser usuário, ele funciona de forma gratuita e oferece cupons de descontos das marcas.

“Esse é o nosso diferencial atrativo. Dentro do aplicativo você vai encontrar os nichos e dentro de cada nicho, vai encontrar site, catálogo, whatsapp”, explicou.

Lilian também reforçou que cada marca é responsável pela venda e entrega. “A nossa responsabilidade é com relação a divulgação. Não temos vínculo de vendas e entregas. É tudo com a empresa”.

Categorias
Estilo de vida Interna Notícias

Portal Eufemea lança campanha virtual em apoio à tenente-coronel: #SomosTodasCamilaPaiva

Após os últimos acontecimentos com a tenente-coronel do Corpo de Bombeiros, Camila Paiva, que foi alvo de ameaça e teve seus dados pessoais vazados, o Portal Eufemea criou uma campanha virtual em apoio à Camila. Com a hashtag, #SomosTodasCamilaPaiva, a intenção da campanha é reunir mais mulheres e mostrar que Camila não está sozinha.

Recentemente, Camila foi alvo de machismo por parte de um major da Polícia Militar que compartilhou uma foto dela de biquíni em um grupo de futebol da Associação dos Oficiais da PM e CBM. O caso ganhou repercussão na mídia local e nacional.

Ontem, Camila fez um boletim de ocorrência, já que seus dados pessoais foram vazados na internet junto com ameaças e ofensas. O grupo que fez isso se intitula como um grupo que “deseja morte às feministas, LGBTs e militantes”.

As fundadoras do Portal Eufemea, Niviane Rodrigues e Raíssa França, decidiram criar a campanha por entender a importância da união das mulheres nesse momento. “É um caso muito sério. Não podemos ficar de braços cruzados esperando que o pior com a Camila aconteça. Isso poderia acontecer conosco ou com outras mulheres. E a luta fica mais fácil quando reunimos mais mulheres para enfrentar esses grupos de ódio e machistas”, afirmou Niviane Rodrigues.

Além disso, as fundadoras reforçaram que a campanha é virtual e que ações serão desenvolvidas ao longo dos dias. Inicialmente, será feito um post no Instagram com o card e a tag da campanha com a intenção de mostrar que Camila não está sozinha.

Para as próximas semanas, uma reunião pelo zoom será feita com a Camila e várias mulheres. “O intuito dessa reunião é debater sobre machismo e assédio. E fortalecer mais ainda o grupo feminino”.

As fundadoras do portal também finalizaram afirmando que o Eufemea não é apenas um site de conteúdo feminino. “Ele é um espaço para que nós, mulheres, possamos desconstruir, dar voz e vez, ajudar mulheres… Se pensarmos apenas em fazer matéria e não fizermos nada por essas vítimas, não estaremos fazendo o nosso papel enquanto jornalistas e mulheres”, finalizou Raíssa França.

Categorias
Cotidiano Interna

Após liderar movimento contra machismo, tenente-coronel é alvo de grupo de ódio na internet

O movimento contra assédio a mulheres e o machismo na estrutura militar lançado pela tenente-coronel Camila Paiva, do Corpo de Bombeiros de Alagoas (CBM/AL), vem recebendo o apoio e engajamento de mulheres em todo Brasil, tornando-se uma luta além da esfera dos quartéis. Porém, despertou a atenção também de uma rede virtual de ataques de ódio e misogina, que tem como alvos feministas, LGBTs, universidades, movimentos contra o racismo.  

Em sua rede social, a oficial denunciou o ataque que sofreu em mensagem a ela enviada. 

“Recebi ameaças por meio das redes sociais. Pegaram meus dados pessoais, CPF, endereço, telefone, como forma de me amedrontar por causa do nosso movimento e da nossa união”, disse Camila.

Ela procurou a polícia, fez um Boletim de Ocorrência na Delegacia Interativa, e enviou o material para o delegado titular da Delegacia de de Crimes Cibernéticos em Alagoas, José Carlos. Ela esteve acompanhada da advogada Julia Nunes, presidente da Associação para Mulheres (AME). 

Camila já suspeitava que a ameaça não tinha a ver com o movimento contra o machismo que ela iniciou, intitulado #SOMOSTODASMARIAS. Ao Eufemea, Camila informou sobre o conteúdo que recebeu. 

“Não acho que essas ameaças sejam motivadas pela denúncia do PM em si, porque nas mensagens ele deixa claro o ódio pelas feministas, LGBTs e militantes, então o ódio é  pelo fato de eu ter criado a campanha, essa campanha estar ganhando força e eu estar defendendo a minha liberdade de fazer o que eu quiser na minha vida privada e incentivando outras mulheres também. Ele me chama de vagabunda por ser bombeira e ter foto de biquíni no meu Instagram pessoal. E na descrição do perfil dele tem escrito: MORTE AS FEMINISTAS, LGBTS E MILITANTES”. 

A história chegou ao conhecimento da professora da Universidade Federal do Ceará, Lola Aronovich, que entrou em contato com a tenente-coronel Camila para prestar solidariedade e alertar sobre os grupos de ódios que praticam crimes cibernéticos, dos quais ela, Lola, já foi vítima.  

Na conversa, Lola explicou à oficial de Alagoas que os chans são fóruns anônimos, também chamados de imagens boards. “São celeiros para a misoginia, racismo e LGBTfobia, infelizmente. E também para planejamento e comemoração de massacres em escolas e universidades”, me disse a escritora. 

Camila  informou ainda que ao saber que seu nome e todos os seus dados pessoais estavam em um desses grupos, ficou atordoada. “Recebi mensagem dessa pessoa (o ameaçador) no meu direct. Depois, eu recebi de uma bombeira do Acre mensagens da Lola Aronovich, que sofreu muito, ela e o marido, perseguição e o agressor foi condenado a 40 anos. Por ter sido vítima, ela conhece os endereços dos links que dão nessas salas onde eles discutem, colocam os alvos. E aí ela entrou em um desses chans e viu minhas fotos, dados pessoais e um deles justamente orquestrando ataques contra mim”. 

“Ela não tem Instagram, justamente por causa disso tudo que sofreu. Ela conhece a bombeira, que é do Acre e falou: não conheço essa coronel do Bombeiro de Alagoas, mas você conhece ela? Entrei num chan e estava orquestrando ataques contra ela. Pegou os prints, mandou para essa bombeira, que enviou para mim, foi quando vi que o negócio realmente era sério”. 

“Lei Lola” 

Em 2018, foi sancionada pelo então presidente da República, Michel Temer, lei que determina que a Polícia Federal investigue crimes virtuais contra as mulheres. 

A chamada “Lei Lola” alterou a Lei nº 10.446/2002, para que os crimes que propagam ódio ou aversão às mulheres praticados por meio da internet sejam acrescentados no rol de delitos investigados pela PF. Até então, a PF podia atuar em crimes como sequestro, formação de cartel e violação dos direitos humanos quando houver repercussão interestadual ou internacional. 

O projeto de lei é da deputada federal Luizianne Lins (PT-CE), que se inspirou no caso da professora Lola Aronovich, alvo de ataques na internet por conta de um blog de autoria própria. 

Categorias
Cotidiano Interna Notícias

Vítima de abuso sexual na infância usa rede social para ajudar jovens: “Que consigam se curar”

Os abusos sexuais aconteceram na infância e marcaram a vida da advogada Vanessa Monteiro dos Santos, 33 anos, que mora em Curitiba (PR), e hoje busca alertar outras jovens vítimas do mesmo crime a denunciarem, se libertarem da dor que as oprime. Ela usou a rede social Twitter para desabafar e ao mesmo tempo contar a história que tem como algoz o padrasto. A postagem ganhou repercussão, viralizou, e ela decidiu criar um portal no Instagram (@doresdalma.oficial) onde compartilha sua história com outras vítimas para ajudá-las.  

Hoje, Vanessa é casada, mãe de três filhos e falou com o Eufemea, a quem contou como tudo aconteceu. No Instagram, Vane, como é conhecida, relata ser uma sobrevivente de abuso sexual infantil. 

“Quero compartilhar minha história com outras vítimas, homens e mulheres, para que assim como eu consigam contar o que aconteceu e tentar se curar desse fardo, dessa dor tão grande que a gente carrega na alma. Só de imaginar que agora, nesse momento, tem uma criança passando pelo que eu passei, me deixa muito angustiada”, diz Vanessa. 

Segundo ela, os abusos começaram quando tinha seis anos. “Com essa idade eu tenho mais recordação da minha infância. É o período que fui para a escola, então tudo isso me marcou muito. Então eu comecei a ter mais recordação a partir dos seis anos. Mas pode, sim, ter começado antes e eu não lembrar por ser muito pequena”. 

Vanessa criou uma página no Instragram onde posta sua história e tenta ajudar outras vítimas de abuso sexual

Ela conta que os abusos aconteceram até seus 12 anos de idade. “Que foi quando meu corpo começou a mudar, fazer a transição de um corpo de criança para o de adolescente. Quando fui ficando mocinha o abusador foi, provavelmente, perdendo o interesse e parou”, diz Vane, ao revela que o abusador era o padrasto. 

“Ele nunca me ameaçou. Eu tinha ele como uma figura paterna. Chamava de pai, porque quando ele se juntou à minha mãe eu tinha um ano de idade. E isso é uma coisa complicada porque quando o abusador é uma pessoa da família e não um estuprador, que envolve violência, é uma questão muito complexa para o psicológico da vítima porque a gente sobrepõe a figura paterna ou do tio, do irmão acima da figura do abusador. É um manipulador por essência”, diz Vanessa. 

O abusador ia no quarto dela à noite, sempre. “Ou então quando eu estava no sofá. A minha mãe trabalhava muito então ele aproveitava esses momentos. Um pedófilo, um abusador, ele nunca para. Só precisa da ocasião, do momento perfeito, de uma criança vulnerável”, relata Vanessa, ao dizer que “nunca houve penetração. Ele fazia outras coisas para se satisfazer, usava o meu corpo de outras maneiras, mas nunca houve a penetração”. 

Advogada, ela afirma que não trabalha na área criminal, mas que acabou estudando um pouco mais para tentar entender.  

“Ele não poderia ser denunciado no ano que eu revelei para a família porque na época não era um estupro, não houve conjunção carnal. Hoje é sim. Se você tocar em uma pessoa de maneira sexual, que era o que acontecia, já é considerado estupro, depois da mudança do Código Penal”. 

“Eu não tinha a quem contar” 

Era num diário que ela contava o que se passava. “Era muito comum as meninas da minha geração ter um diário, e ele leu. E falou que se eu contasse nunca ninguém ia acreditar. E isso é uma coisa que os abusadores falam. Aquilo você internaliza e carrega para a vida. Eu era uma criança muito vulnerável. E para quem vai pedir ajuda?”, ela indaga. 

“O meu sentimento era: eu estou num campo, numa floresta e eu vou gritar, mas ninguém vai me ouvir porque eu estou sozinha. Eu não tinha para quem contar. A minha mãe era uma figura ausente. Eu não tinha apego com nenhuma pessoa nem confiança para chegar ao ponto de contar. Por isso que eu falo para as mães, para os pais: sejam presentes na vida das crianças, mas não é a presença só física. Você tem que ter presença psicológica, emocional, tem que se conectar com aquela criança a ponto dela se sentir segura em te contar. Eu nunca me senti, porque eu não tinha ninguém ali”, diz. 

Nas ilustrações do Instagram, ela usa imagens para falar da criança interior, ferida que um dia foi, como descreve

Foi somente aos 30 anos, ela relata, que contou o que se passou. “E teve gente que não acreditou. Então, se não acreditaram em uma mulher, por que acreditariam em uma criança? É isso o que eu penso hoje depois de todo meu processo de cura e libertação, que a questão de contar é muito complicada, mas existem sim meios de fazer uma criança contar. Talvez se eu tivesse participado de educação sexual na escola, ouvido palestras, professores me sentisse mais à vontade, porque a criança dá sinais, fica nervosa, aflita, quer sair daquele lugar que estão falando sobre aquilo. Os sinais são gritantes”. 

Vanessa relata ainda que apesar do sofrimento, decidiu perdoar. “Seguir a minha vida sem nenhuma amarra, nenhum vínculo. Não desejo mal, mas o perdão não significa convivência. Perdoei, mas nunca mais quero ver o meu abusador. Eu não preciso conviver com alguém só porque eu perdoei”. 

Aos 16 anos, Vanessa conheceu o marido. “E logo ele começou a perceber que eu era maltratada em casa, que sofria violência psicológica. Até então ele nem imaginava que eu passava por abuso sexual. A gente estava muito apaixonado, era o primeiro amor, e ele cinco anos mais velho do que eu. Logo a gente noivou e ele acabou descobrindo uma situação de violência psicológica em que o meu padrasto me chamava de vários nomes, me ofendia muito e eu chorava, então ele me buscou na casa que eu morava e a gente está junto até hoje e temos uma família perfeita. Graças a Deus a gente vai dia após dia tentando superar muitas coisas”. 

Aos 16 anos, Vanessa conheceu o marido: “No dia que contei, ele chorou, passou mal, ficou desesperado”

O marido, no entanto, não sabia do que se passava em relação aos abusos. “Guardei isso a sete chaves, porque eu não queria passar por um processo de ruptura. Eu era uma menina, aos 16, 17 anos não tinha estrutura psicológica nenhuma para passar por aquilo. Toda vítima precisa amadurecer muito para poder contar, porque não é só o contar, é o que se dá depois com toda aquela situação, porque eu sabia que precisava chegar nele de uma maneira pessoal, porque com a minha família eu contei via WhatsApp, um grupo que a gente tinha e meu marido não fazia parte”, recorda Vanessa, ao dizer que chamou o marido para dar uma volta e contou.

“Ele passou muito mal, chorou, ficou desesperado, teve um rompante de raiva contra meu padrasto. Foi um momento muito complicado”. 

“Meu propósito é ajudar” 

Ao decidir tornar público depois de tanto tempo, Vanessa conta que isso não traz mais vergonha.  “Não sinto mais tristeza ao falar. Sei que é uma página da minha história, mas é uma página que superei. Se voltar o meu livro de vida, as páginas vão estar lá, não tem como arrancar, apagar a história, só que é uma história superada. Agora eu me sinto capaz. Eu contei para a família em 2017. Precisei de um período para pode refletir melhor o que eu faria com isso e eu me acho na obrigação de levar a minha história para mulheres, crianças e homens que passam por isso”. 

Quando publicou a história no Twitter, ela diz que recebeu mensagens no privado de homens, de mulheres, de parentes de pessoas que passaram pela mesma situação. “Eu fiquei muito chocada em saber que muitos homens passam por isso. Tem até comentários públicos lá. E ele são um público ali que não chega”. 

Vanessa lembra ainda que “as mulheres têm suas redes de apoio, feminismo, coisas que nos protegem e eu faço parte de todas essas rodas de apoio, mas ali para a vítima homem não tem nada. Eles se sentem desprotegidos e desamparados. No início eu pensava só em trabalhar, ajudar só mulheres, mas depois disso eu percebi que preciso focar também nessa outra parcela, que são os homens e as meninas”.  

“Meu propósito é ajudar. Ajudar mulheres que sofrem com depressão, síndrome do pânico, que tenham algum tipo de sequela grave e que não conseguem viver plenamente a sua vida, ser feliz, ter uma vida sexual feliz, porque carrega os traumas do abuso e isso é muito comum. Quero ser útil. Quero que a minha história, tudo o que eu passei, como eu superei e eu trabalho com isso na minha cabeça, possa ajudar outras pessoas a tentar, de alguma maneira superar isso. É uma marca na alma, mas tem como viver feliz, sim, a partir do momento que a gente entende que nós não somos o que nos aconteceu. Trabalhar no sentido de ver por que, o que aquilo me transformou, como posso ajudar outras pessoas”. 

Mãe de três filhos, ela conta que o mais novo nasceu em 2018. “Eu engravidei dele em 2017, logo quando eu contei os abusos pra família. O meu filho ele veio porque eu precisava mudar o foco. Sempre quis ser mãe de três e eu vi no meu filho, naquela gestação, um motivo para viver, porque acabei entrando em depressão. Eu ia carregar para o resto da minha vida. Eu contei porque a minha prima contou e é um efeito cascata, quando uma vítima conta, outras contam e depois que eu contei outras amigas contaram. É um processo que uma mulher quando conta, impulsiona outras”. 

Categorias
Destaque

Após ser assediada por empresário, vítima diz que desenvolveu doença e “nunca mais foi a mesma”

Foi após vivenciar um assédio praticado pelo dono da empresa que trabalhava que Bianca, 24 anos,* desenvolveu pleva (caracterizada pela erupção abrupta de pequenas pápulas descamativas, agrupadas em tronco ou braços, que se desenvolvem em vesículas e manchas vermelhas e marrons). O Eufemea conversou a vítima que não quis ter o nome divulgado. Ela alega medo do acusado que é empresário e mora em Maceió.

“Eu estagiei na empresa por duas vezes. Na primeira vez, não aconteceu nada. Eu saí de lá e depois voltei porque a esposa do acusado me chamou para trabalhar novamente”, disse Bianca ao Eufemea.

Foi da segunda vez que tudo começou. Ela tinha feito um procedimento estético e colocado silicone. “Alguns dias após ter voltado, ele anunciou para as pessoas que trabalhavam comigo na sala que eu havia colocado peitos”.

Desse dia em diante, o empresário vivia pedindo para ver os peitos dela, tocar e sentir. “Sempre mandei ele parar, dizia que esse tipo de atitude não era legal, que ele tinha uma mulher em casa e ele dizia que os peitos dela já tinha visto, mas queria ver os meus”, contou.

Bianca sentia medo e por este motivo, não contou nada a ninguém. Entretanto, a situação ficou insustentável quando ela foi obrigada por ele a permanecer dentro da empresa. “Ele só me liberaria se eu aceitasse sair no carro dele. Todo mundo já tinha ido embora. Então ou eu iria de carro ou ficaria horas e horas na empresa presa”.

Bianca aceitou. E foi dentro do carro que o empresário começou a passar a mão nela, tocar nos seios dela e na virilha. “Ele falava que poderia me satisfazer sexualmente. Entrei em pânico e ele mandou eu descer do carro”.

Após esse episódio, ela pediu demissão. Por causa do ocorrido, Bianca disse que teve uma crise de estresse que provocou a doença chamada pleva. “Estoura os membros inferiores e me causa uma dor terrível”.

Bianca fez a denúncia contra ele faz um mês. Apesar de ter tido coragem somente agora, ela contou ao Eufemea que os danos são irreparáveis.

“Essa doença não sai mais de mim. Me escondi em roupas por anos por causa das manchas”, afirmou.

Hoje, ela disse que sente por ele ódio. “Ele além de me corromper, de me tocar. Ele tirou minha saúde”.

Segundo Bianca, ela nunca mais fui a mesma, mas diz que “expor o que aconteceu é uma forma de tentar se livrar da ferida. Não sara, mas ameniza”.

Categorias
Estilo de vida Interna Notícias

No Dia das Avós, mulheres falam sobre o desafio de ‘ser mãe duas vezes’: “Vida mais prazerosa”

Ser avó é ser mãe duas vezes, quem nunca ouviu a frase? Essa criança é dengosa porque está sendo criada pela avó, ela mima demais! Ah, colo de avó é mesmo bem especial. No Dia dos Avós, comemorado neste domingo, o Eufemea traz histórias da avó de primeira viagem, que tem no neto o porto seguro para momentos de incerteza, e das avós que viram a netinha nascer em plena pandemia. 

A aposentada Nancyra dos Santos Cahet é apaixonada por plantas, que cuida como se fossem os próprios filhos. Mas foi no nascimento do neto Guilherme Campos Cahet, o Gui, de 10 meses, que ela afirma ter encontrado “um amor diferente”, meio sem explicação. Mãe de Vanessa e Diego, ela conta que o nascimento do netinho despertou algo que jamais imaginaria existir e que é nesse amor tão sublime que tem encontrado forças para superar as adversidades da vida.  

“Ser avó é participar ainda mais da vida da minha filha, que me presenteou com um anjinho lindo”, diz Nancyra, para quem o nascimento de Gui mudou tudo. “Mudou toda minha rotina, deixando-a mais prazerosa. Agora tudo gira em torno do Gui”. 

No que estaria a diferença em relação a ser mãe? Nancyra responde: “Sou mãe de um casal, tive uma vida bem agitada e com muitas tarefas pra fazer, e ainda senti todos os altos e baixos de uma gestação. Já sendo avó só tem a parte boa, participo da rotina sem ter a obrigação de cumpri-la”. 

“Vejo o Gui todos os dias, passamos todas as tardes e parte da noite juntos. Com isso participo das refeições dele, banho, brincadeiras. O Gui gosta de dormir comigo; fazer dengo, esfregando o narizinho em minhas roupas; me chama pra passear do lado de fora da casa para ver as plantas; e sempre, enquanto come, pede pra eu deitar no colo dele pra ele fazer “carinho”. 

Nesse tempo de pandemia e de isolamento social, Nancyra diz que ser avó a fortaleceu. “Demais. Quando estou com o Gui não dá tempo para pensar em coisas que me deixem pra baixo. Olhando pra ele eu consigo enxergar uma perspectiva de dias melhores”. 

Moradora do Pinheiro, numa área atingida pelos estragos causados pela Braskem, Nancyra diz que o neto acaba sendo um porto seguro diante da angústia de ter que deixar para trás a casa, situada em local condenado.  

“O Gui é sempre motivo de muita alegria. Mas estou em um momento de muita aflição, lidando com o problema Braskem/ Pinheiro, que está nos causando o transtorno de “perder” nossa casa, a qual conquistamos com tanto esforço, e isso tudo tem agravado, ainda mais, meus problemas de saúde. A situação de minha casa me entristece e angustia muito. Hoje tenho um espaço pronto, confortável para o meu netinho. Mas do jeito que o processo está sendo conduzido por esta empresa o que me resta é a dúvida se seremos indenizados de forma justa, e se teremos um espaço igual ou parecido com nossa casa atual para todos nós e principalmente para receber nosso netinho”, ela relata. 

No meio das incertezas, as brincadeiras com o neto Guilherme são refúgio certo. “Aqui temos algumas árvores frutíferas, que plantamos, e o Gui ama quando vamos com ele colher frutas do pé. Sua paixão são as amoras. Tenho ensinado ele a observar as plantas e curtir as flores, que ele já dá “cheirinho”. Além disso, costumo brincar com o Gui de esconde-esconde, imitando os bichos, com os brinquedos dele, normalmente em cima da cama, por conta dos meus problemas de saúde, que limitam o tempo que aguento ficar com ele no braço. Pra que ele não sinta minha tristeza, me envolvo o máximo que posso nos cuidados com ele, alimentação, banho e hora do soninho”. 

Momento de tensão na pandemia 

Avós em plena pandemia, Maria do Carmo Flor e Edenilza Gomes Correia, falam dos momentos de tensão que passaram com o parto da filha e nora, respectivamente, a autônoma Bruna Flor da Silva, mãe de Valentina Flor Gomes Almeida, que neste domingo completa seis dias de nascida. Maria tem sete netos e Edneilza, um. 

Edenilza e Maria com a netinha Valentina, primeira filha de Bruna: “Amor e atenção redobrada”
“É um momento exclusivo, gratificante e emocionante na presença de Deus”, diz Maria sobre o nascimento de Valentina. “Me sinto triste por ser este momento de afastamento, mas estou sempre presente quando posso”, conta Edneilza.  

Maria diz ainda que o parto da filha foi de tensão redobrada por causa da pandemia. “Meu sentimento foi de mais amor e atenção”. Mas afirma que apesar da angústia vivida, ela está sempre presente na vida da filha, Bruna, e agora da netinha, Valentina.  

“Estamos sempre juntas cada dia mais e mais”, ela diz, ao contar que se relaciona muito bem com os demais netos. “Sempre que posso estou presente na vida deles, dando amor e carinho”. 

Bruna, mãe pela primeira vez, fala da alegria de dar mais um neto à família e da tensão que as avós passaram durante o seu parto em plena pandemia. “Foi um momento difícil, inclusive na minha gestação porque não tive o direito de ser acompanhada normalmente pelo meu esposo, minha mãe e família. Tive medo, mais sempre confiante em Deus e tomando os cuidados necessários”, ela conta, ao dizer que os dois dias que ficou no hospital “foram difíceis, pois a preocupação era com relação a este vírus”. 

Bruna destaca que a mãe sempre foi uma avó presente e que sem dúvida a participação dela e de sua sogra “é importante para o resto de minha vida e de minha filha pois avó é ser mãe duas vezes, sem dúvida. 

Categorias
Blog Interna Notícias

A alma gêmea nem sempre é a pessoa que você se relaciona; saiba quem pode ser a sua

Muito se fala em você encontrar a alma gêmea e viver com ela o famoso felizes para sempre. Mas será que a alma gêmea se resume apenas ao parceiro ou a parceira no sentido de relacionamento amoroso?

A alma gêmea pode ser um parceiro, uma parceira, um irmão, pai, mãe, prima ou uma amizade.

A alma gêmea, não necessariamente, está encarnada como fosse o par ideal. O par ideal, muitas vezes, são pessoas que já tenham as arestas fechadas e que têm mais dharmas, ou seja: escolhas positivas de vidas passadas que se revelam nessa.

É geralmente uma pessoa que você tem uma ideia, e o outro completa. Então, normalmente quando a gente tem uma facilidade de harmonia, nós temos essa conexão que chamamos de gênero. Afinal, a pessoa já teve momentos, inclusive de viver muitas vidas, sabe? 

Existe também a chama gêmea. Você já ouviu falar? A chama gêmea é alguém que já viveu muito próximo de você e ela sempre vem para ativar uma oportunidade, um despertar no outro ser. Muitas vezes você não consegue viver pacificamente porque a chama gêmea tem essa ideia do despertar e o acordar. Ela tem uma missão espiritual e ela têm choques de realidades e de vidas.

Pode acontecer de você encontrar uma alma gêmea, ajudá-la e seguir o caminho. Não necessariamente você vai ficar com ela.

O que noto é que as pessoas não estão sabendo aproveitar a incondicionalidade amorosa. 

Quando se fala em incondicionalidade podemos falar de amizade, de pessoas que precisam da nossa compaixão. As pessoas deveriam abrir o coração de forma incondicional e humana. E não buscando alguém que resolva os seus problemas. Que a gente deixe de buscar essa necessidade sexual misturada com amorosa. 

Muitas pessoas vendem a alma gêmea como comércio. E não funciona assim. Tem gente que quer encontrar a alma gêmea no sentido amoroso, mas não está preparado para viver isso. O amor não pede e nem exige.

Categorias
Inspiradoras Interna Notícias

Brasil terá ‘boom’ de mulheres à frente do próprio negócio nos próximos dois anos, diz Ana Fontes

O trabalho dela inspira empreendedoras em todo Brasil. Eleita uma das 20 mulheres mais poderosas do País em 2019 pela revista Forbes, a empresária Ana Fontes prevê uma explosão no número de empreendimentos abertos por mulheres nos próximos dois anos no país com o aumento do desemprego e da crise econômica provocado pela pandemia do novo coronavírus.

Fundadora do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), Ana é alagoana, nascida em Igreja Nova, e na década de 1970, ainda criança, se mudou com a família para São Paulo, onde passou a viver, estudou e se formou em Publicidade e Propaganda. Após passar por grandes empresas e sentir na pele o que mulheres enfrentam num mercado de trabalho onde precisam se superar, onde nada parecia ser suficiente para que ela crescesse, Ana decidiu empreender. E não só! Ajudar mulheres, compartilhando conhecimento.

Em 2010, ela criou a Rede Mulher Empreendedora e em junho de 2020 lançou o Potência Feminina, um programa nacional que vai apoiar negócios comandados por mulheres. A iniciativa é em parceria com o Google.org e oferecerá capacitação, aceleração de negócios e capital semente.

O Eufemea conversou com Ana Fontes, que fala desse apoio e ao que ela atribui a explosão de empreendimentos femininos no País nos próximos dois anos.

“Primeiro ao cenário político do Brasil, que já antes da pandemia estava com dificuldades em manter empregos, e segundo ao Covid19, que fez com que milhares de pessoas fossem demitidas, entre elas, muitas mulheres que encontraram dificuldades com o fechamento das escolas. A corda arrebenta pro lado mais “fraco”, dizem não sem razão”, afirma Ana Fontes.

Ela lembra que “as mulheres, historicamente, ganham menos que os homens e as que têm filhos encontram menos espaço ainda neste ambiente formal e machista. No Instituto Rede Mulher Empreendedora até temos uma pesquisa que aponta que muitas mulheres decidiram empreender logo após serem mães, justamente por não se verem mais em uma estrutura que não levasse em conta suas especificidades”.

“Por conta disso tudo, a saída muitas vezes é empreender para ter mais autonomia e tempo para estar com os filhos. Para as que não são mães, as dificuldades de encontrar um emprego e de receber um salário justo em um país ainda muito machista, também as empurram para o empreendedorismo”, ressalta Ana Fontes.

Questionada se já é possível perceber os impactos da pandemia nos empreendimentos de mulheres, ela afirma: “Com certeza! Na última pesquisa que o IRME fez, em parceria com o Instituto Locomotiva, “As empreendedoras e o coronavírus – os negócios femininos no Brasil em meio à pandemia”, vimos exatamente isso. Os rendimentos diminuíram drasticamente, as dívidas aumentaram, a falta de perspectiva e de incentivos é uma realidade muito triste”.

Ana Fontes diz ainda que em determinados casos, há como a empreendedora se adequar ao momento e permanecer no mercado. Já em outros, será bem mais difícil e exigirá inovação.

“Para algumas pessoas é possível se adequar, por exemplo, as que tinham restaurantes e agora passaram pro delivery. Para outras áreas, não é tão fácil assim. Mas eu sugiro que essa empreendedora pesquise bastante, veja o que as outras pessoas estão fazendo, tente inovar, vender cupons para serem compensados após a pandemia e estudem. Sei que o momento é muito difícil, mas o estudo é algo que ninguém tira. E esses aprendizados com certeza poderão melhorar o seu negócio, tanto agora quanto no futuro. Na RME [Rede de Mulheres Empreendedoras] estamos com inúmeros programas de apoio à empreendedora e também estamos apoiando instituições que também estão agindo nesse sentido”.

As dificuldades são muitas e acabam levando à desistência. Ela cita como barreiras o “acesso a crédito, conhecimento de negócio e da jornada empreendedora, que é cheia de altos e baixos mesmo, falta de apoio da família, entre outros”.

Redes sociais e networking
“Para se manter no mercado, eu diria que estar atenta ao redor, estudar bastante, saber o que tem de novo, para que essa empreendedora acompanhe. Vou dar um exemplo: muitas empreendedoras não estavam nas redes sociais antes da pandemia. Com todo esse cenário elas souberam que é indispensável estar nesses espaços, seja com o objetivo de continuar o contato com os clientes ou de conseguir novos compradores”.

“Outra coisa que eu sempre falo é que essa empreendedora precisa conhecer pessoas. O quem indica é muito forte e há formas de se beneficiar dessa rede, desse networking. Participar de eventos é uma ótima forma de conseguir esses contatos, falar do negócio e conhecer outros que podem ser muito relevantes para essa empreendedora”, orienta Ana Fontes.

Quanto a um ramo específico que deverá crescer mais no quesito empreendedorismo feminino nos próximos dois anos, ela afirma que não há como prevê. “Não sei responder a essa pergunta. Está tudo tão incerto! O que eu posso falar é que nessa pandemia as empreendedoras do ramo da alimentação conseguiram bastante destaque”.

Independência, autonomia, tempo com a família são alguns fatores. A maternidade, como apontam pesquisas, é um motivo importantíssimo também, diz Ana Fontes sobre o que leva mulheres a empreender. E afirma ainda que não há distinção em relação a habilidades para mulheres empreendedoras em vulnerabilidade ou não.

“As habilidades que são importantes tanto para mulheres em situação de vulnerabilidade, quanto para mulheres com uma condição melhor, são: autoconhecimento e confiança, para que elas saibam seus limites, saibam onde querem ir e quais os caminhos que precisa trilhar. Confiança para saber chegar, saber falar de si e de seu produto e serviço e cobrar o preço que ela merece. Esses dois principais abrem muitas portas e pode ajudá-las a conquistar autonomia sobre suas vidas e seus negócios”.

O Eufemea questionou se no Nordeste a situação é mais difícil para o empreendedorismo feminino ou não.

“Eu diria que alguns estados, não todos, ainda são muito machistas, ainda não acreditam, no geral, no potencial da mulher e precisam caminhar para um ambiente que seja propício para esse tipo de empreendimento pelo bem deles próprios e da mulher. Você consegue observar essa falta de apoio público e pessoal por meio de políticas e dados de mulheres que empreendem e ganham rendas justas por isso, além de dados de violência contra a mulher, por exemplo”.

Abaixo, ela fala sobre o programas que idealizou e desenvolve para ajudar mulheres.

– Ana, como fundadora do Instituto Mulher Empreendedora, me fala sobre de onde surgiu a ideia, do que se trata, qual o objetivo e os resultados já alcançados.

O Instituto Rede Mulher Empreendedora foi criado em 2017. Ele é o braço social da Rede Mulher Empreendedora – RME e está apoiado em valores como igualdade de gênero, oportunidade para todos, educação, capacitação acessível e colaboração social. O foco é capacitar mulheres em situação de vulnerabilidade social em todo o Brasil. Estamos conseguindo! Falo isso com muita alegria porque não é um caminho óbvio e fácil.

Os resultados é que pelo programa Ela Pode, feito com o apoio do Google, com o objetivo capacitar 135 mil mulheres brasileiras a criar oportunidades econômicas, tornando-as confiantes e preparadas para o autodesenvolvimento pessoal e profissional, já conseguimos capacitar mais de 80 mil mulheres de todo Brasil!

Também temos um projeto em andamento, o Heróis Usam Máscaras, que já remunerou mais de 5 mil profissionais de costura (maioria mulheres) que produziram mais de 9 milhões de máscaras. As máscaras estão sendo distribuídas gratuitamente em comunidades em situação de vulnerabilidade social também.

E agora temos o Potência Feminina, que pelos próximos dois anos pretende impactar a vida de 50 mil mulheres.

– E o Potência Feminina, do que se trata? Está entrelaçado ao Mulher Empreendedora? O que vocês esperam a partir deste programa? Surgiu também da situação de crise causada pela pandemia?

O Instituto Rede Mulher Empreendedora (Instituto RME), com apoio do Google.org, o braço filantrópico do Google, lançou o Potência Feminina motivado pelo cenário de pandemia que está afetando milhares de mulheres e seus negócios. O programa é nacional e vai apoiar negócios liderados por mulheres por meio de capacitação, aceleração de negócios e capital semente. Além do apoio a negócios, a ação visa também capacitar mulheres nos temas de empreendedorismo, empregabilidade e tecnologia. O Potência Feminina conta com uma doação de aproximadamente R$ 7,5 milhões e vai auxiliar diretamente mais de 50 mil pessoas pelos próximos dois anos.

As capacitações, previstas vão acontecer em 10 regiões periféricas do país. Para aplicar essas capacitações, o Instituto RME treinará tutoras locais, fornecerá computadores e internet a OSCs locais onde serão ministrados os cursos, à distância e presenciais, além de remunerar a equipe envolvida durante a duração do projeto.

Categorias
Estilo de vida Interna

Empoderamento feminino diante dos bisturis cresce em AL: médicas chegam aos centros cirúrgicos dando fim ao preconceito

Mãos que executam um trancado rápido.

Mãos de artesã, precisas.

Cortando.

Fechando.

Salvando.

Mãos que beijo, que abençoo.

Mãos que bailam num vai e vem ,

sem sombras, figuras.

Generosas criam linhas certas;

Cicatrizes sem dor.

Femininas, coloridas, iluminadas.

Mãos sem preconceito.

Mãos de cirurgiã.

As técnicas jornalísticas, compostas por regras, nem sempre são suficientes para expressar o conteúdo que vai além dos fatos. Nunca comecei um texto pela poesia nesses meus quase 40 anos de profissão. Mas há uma primeira vez. Falo de fatos e de emoção. Falo de mulheres que escolheram uma especialidade médica, a cirurgia. Difícil, tensa e até bem pouco tempo, um campo árido para elas.

E porque a poesia?  Porque , como mãe, encontrei nas rimas uma forma de homenagear a filha e, através dela, as médicas cirurgiãs. Porque elas são assim… se diferenciam pela paciência, o querer correto, a habilidade.

E pensar que em 1875 o médico francês Lucas Championnaire teve a indecência de dizer que  “ as mulheres médicas eram ambíguas, hermafroditas ou assexuadas, monstros sob todos os pontos de vista”. Demorou, e ele não pode engolir suas palavras. Mas uma pesquisa da Universidade de Toronto, no Canadá, publicada na revista científica British Medical Journal, provou o que se percebe e sente: se tornaram não apenas melhores, mas excelentes!

Pesquisas do médico Raj Satkunasivam, com 104.630 pacientes e 3.314 cirurgiões, sendo 2.540 homens e 774 mulheres, chegou a conclusão que pacientes de cirurgiãs operados na cidade canadense entre 2007 e 2015 tiveram 12% menos risco de morrer entre o procedimento e os 30 primeiros dias do pós-cirúrgico em relação a quem foi operado por médicos homens, considerando-se todas as variáveis. É uma pesquisa antiga, é verdade, mas foi um referencial importante que continua servindo como fonte.

A prática cirúrgica adequada depende de conhecimento, capacidade de comunicação, julgamento e técnica – habilidades que diferem cirurgiões de outros especialistas e, no caso das mulheres, mesmo ainda com poucas informações científicas, o estilo de aprendizagem, a adequação e os resultados as diferencia.

A cirurgia ainda é uma especialidade muito masculina. A mulher geralmente tem um segundo e um terceiro empregos, além de casa e filhos. A cirurgia demanda mais. E uma mulher cirurgiã precisa MAIS. Estudar mais, trabalhar mais , provar mais. O empoderamento feminino diante de bisturis é novo, mas cresce.

No Colégio Brasileiro de Cirurgiões, por exemplo, que contabiliza o cadastro de  especialistas no país, apenas 20% são mulheres. No diretório nacional da instituição, dos 21 integrantes, 19 são homens. Na Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, apenas 47 dos 925 membros registrados são mulheres. Ao todo, a SBCCV estima que existam 2.220 cirurgiões cardiovasculares atuando hoje no país, dos quais apenas 205 do sexo feminino. Os dados não estão atualizados.

Dados do Conselho Regional de Medicina de Alagoas- Cremal – apontam que apenas 37 médicas têm CRM ativo como cirurgiãs. Inez Maria Barreto Rodrigues de Menezes e Marisa Vieira da Silva Montoro são as pioneiras.

A primeira médica brasileira foi a Maria Augusto Generoso Estrela, formada em 1881 nos Estados Unidos, e a primeira médica a se formar no Brasil foi a Rita Lobato em 1887. As professoras Talita Franco e Angelita Gama, foram as primeiras mulheres no Brasil a invadir o centro cirúrgico e abrir as portas para as tantas que vencem e ainda superam preconceitos.

Até a década de 1960, as poucas cirurgiãs existentes encontravam ambiente hostil. Não havia vestiário feminino, roupas adequadas ou quaisquer outras facilidades. Eram sempre confundidas com enfermeiras ou instrumentadoras. Nunca se pensava nelas, em princípio, como cirurgiãs e também eram alvos de comentários desagradáveis. Os pacientes freqüentemente diziam preferir operar com homens. Não havia cirurgiãs bem sucedidas que servissem como exemplo e estímulo

Segundo Pringle10, o fenótipo masculino inspira 25% a mais de confiança do que o feminino. Isto significa que, para qualquer cargo que pleiteie, uma mulher precisa mostrar ser pelo menos, 25% mais capacitada do que seu concorrente masculino mais próximo, para ter as mesmas chances de sucesso. Aspectos pessoais considerados favoráveis para os cirurgiões, tais como personalidade forte, auto-controle, mente questionadora, capacidade de liderança e uma certa agressividade são vistos como qualidades nos homens e como componentes estranhos à personalidade feminina, gerando muitas vezes dúvidas quanto à sua feminilidade

Em apenas dois Estados do país o número de mulheres médicas já supera o de homens: Rio de Janeiro, com 50,8% de mulheres na profissão, e Alagoas, em primeiro lugar na proporção de mulheres médicas em relação aos homens, com 52,2% profissionais. O dado está na pesquisa “Demografia Médica 2018”, feita pela Faculdade de Medicina da USP, com dados da AMB, do IBGE, do MEC e da CNRM, disponível na internet.

Homens e mulheres têm diferente motivações e preferencias na escolha pela especialidade, mas, o certo é que as mulheres preferem mais as clínicas às cirúrgicas, como acontece em todo o mundo. Com a crescente feminização da medicina se discute o futuro de especialidades cirúrgicas em que mulheres estão desproporcionalmente representadas.

Ana Carolina Pastl Pontes, cirurgiã, 12 anos de formada, desses 7 na especialidade cirurgia de cabeça e pescoço se espelhou na cirurgiã pediátrica, Juliana Malta, sua tia. A abertura de uma especialidade bem masculina aconteceu mas…não foi fácil. “A força e vontade sempre superaram todos problemas”, diz, totalmente plena após enfrentar barreiras desde a descrença de que não conseguiria executar um procedimento de sua especialidade, até o de que o lugar de mulher seria em casa e não no centro cirúrgico. Sem bandeiras, acha que a mão da mulher é uma mão de fada, sim, mas não exclusivamente delas.

Ana Carolina Pastl Pontes especialidade cirurgia de cabeça e pescoço se espelhou na cirurgiã pediátrica, Juliana Malta, sua tia: “A força e vontade sempre superaram todos problemas”

Médica, cirurgiã, esposa, mãe, filha, sim… porque a mulher é multifuncional.. É difícil organizar tudo mas saber conciliar também é uma das qualidades da mulher. “Nunca foi fácil mas com equilíbrio, calma, identificando onde ser mais necessária, esquecendo as culpas, sabendo que não somos super-heroínas e sim humanas, cheias de falhas descobri a fórmula do saber viver.”

Quando não se tem exemplos, mas o saber da vocação, optar pela Medicina não é escolher um curso da moda , ou que lhe garanta um futuro seguro, economicamente falando. Mas uma vez, saio das técnicas jornalísticas e falo da opção de uma jovem chamada Larissa Cavalcanti Barros, minha filha. Ela até que tentou negar a vocação escolhendo outra área, a fisioterapia, mas foi só colocar os pés no maior hospital de Alagoas, o HGE, que despertou e começou tudo outra vez. Incontáveis dias e noites de estudo…seis anos, depois mais dois fora de casa. E uma saga que não se finda nunca, porque o aprendizado não se conclui com diplomas.

Foi tecendo sua carreira, como tecia os fios, pacientemente, aprendendo o melhor jeito, para ser uma cirurgiã respeitada. Confesso que também gostaria que a escolha fosse outra. Mas nada para nós, mulheres, precisa ser fácil. Não é?

Por Zélia Cavalcanti – jornalista

Categorias
Inspiradoras Interna Notícias

Contra venda de votos, pré-candidatas de vários estados do país lançam mobilização virtual

Preocupada com a venda de votos nas eleições municipais deste ano, a alagoana e pré-candidata a vereadora de Maceió, Maria Tavares decidiu que queria fazer algo diferente para conscientizar os eleitores. Com isso, ela reuniu pré-candidatas de várias partes do Brasil, para que juntas lançassem um movimento virtual nacional que está marcado para acontecer nesta sexta-feira (24).

A mobilização virtual, segundo Maria, é em prol da conscientização para que eleitores não vendam seus votos nas eleições.

Maria Tavares. Foto: Gustavo Sarmento

Segundo ela, cientes que de a crise socioeconômica pós-pandemia inevitavelmente irá conduzir as eleições para este caminho, de forma apartidária, elas resolveram confeccionar um material padrão onde deixam expresso o manifesto contra essa prática no Brasil. 

“A mobilização conta com pré candidatas de 9 estados até esta tarde e teve iniciativa por Alagoas. Sempre gosto de fazer movimentações e surgiu a ideia. Realmente estou muito preocupada com a venda de votos esse ano e aí eu pensei em juntar essas mulheres para que publicássemos de forma conjunta, no mesmo horário, uma imagem chamando a atenção para que os votos não sejam vendidos”, reforçou Maria.

A mobilização só acontece amanhã, às 18h, mas já conta com cerca de 40 mulheres e reúne mulheres de São Paulo, Pernambuco, Pará, Amazonas, Sergipe, Santa Catarina e Alagoas. “Amanhã vamos fazer a publicação com um manifesto para reforçar que a população não faça o mesmo de sempre e que não venda o voto, vá para urna votar consciente. Essa foi a maneira que pensamos em impactar neste tempo de pandemia”, comentou Maria.

Voto não acaba no dia da eleição

Angela Quintanilha, pré-candidata do Novo em São Paulo, também vai participar da mobilização virtual. Ela enfatizou que “sustentabilidade não é só uma questão ambiental” e que tem a ver com melhorar a qualidade de vida das pessoas, e isto está conectado a uma representatividade perante o Estado. 

Conforme disse ao Eufema, “o voto é o meio mais legítimo de nos sentir representados, mas não acaba no dia da eleição”.

“Exige fiscalização constante do nosso eleito até o final do seu mandato. É que nem dar uma procuração com determinados poderes para alguém agir em seu nome…imagina se v. faz a procuração e a pessoa tira o dinheiro da sua conta bancária em benefício próprio. Eu não aceitaria de jeito nenhum. Portanto, vamos votar com convicção e acompanhar”, enfatizou.

Prática é ilegal e acontece constantemente

Lá de Minas Gerais, a pré-candidata à vice-prefeita de Conselheiro Lafaiete, Elisa Lopes disse que recebeu o convite da Maria Tavares e que topou por perceber que a prática de venda de voto, além de ser proibida, acontece de forma bem mais frequente nas cidades do interior.

“Vejo que isso acontece de forma disfarçada, velada. Além disso ser errado, ilegal, vejo que as pessoas são enganadas achando que aquele benefício que ela recebe naquele momento é bom pra ela e positivo”, disse.

Para Elisa, a compra de votos é um benefício que acaba custando caro. “Um político que compra voto fica quatro anos roubando e sem fazer as políticas públicas necessárias. E a pessoa não acaba nem tendo o direito de cobrar já que ela trocou voto por utensílio ou comida, e desconhece seus direitos”.

Venda de voto é tradição e custa caro

A pré-candidata acredita que a venda de votos custa caro para todos. “Uma pessoa que elege um político corrupto acaba afetando a sociedade. Foi por isso que topei participar da campanha”.

Em Natal, a pré-candidata a vereadora pelo mandato coletivo Divergente 5 pelo PDT, Andreia Souza, disse que uma das principais bandeiras – antes mesmo de ser pré-candidata – é fazer um trabalho de conscientização das pessoas.

“Da necessidade de ter um voto correto, de ter representantes que vão lutar pelos cidadãos comuns e invisíveis. A modalidade de voto comprado é uma tradição e esse pagamento de R$ 20, 30, 50, acaba se tornando por quatro anos”, explicou.

Segundo Andreia, a dívida que se cria se dá pelo voto de barganha. “Nosso trabalho como cidadã é que a gente conscientize as pessoas e demonstre a real necessidade da gente ter um voto limpo, de pessoas que não queiram comprar”.

Andreia disse que diante do cenário é essencial que se faça esse trabalho já que muitos políticos vão se aproveitar da necessidade das pessoas. “Da vulnerabilidade, sabe? E vão querer comprar por mais barato ainda. Então precisamos fazer parte da solução porque todos nós vamos arcar com o problema”.

Categorias
Cotidiano Interna Notícias

Mulheres relatam rotina de assédio em quartéis e lançam movimento: “Não vamos nos calar”

O que era para ser o desafio da foto em preto e branco, uma espécie de brincadeira que ganhou espaço no Instagram, acabou se tornando um movimento nacional de mulheres militares que denunciam a rotina de assédio nos quartéis no Brasil. Na postagem, a tenente-coronel do Corpo de Bombeiros de Alagoas, Camila Paiva, relata o drama das Marias, como ela denomina as policiais vítimas dos assédios nas corporações. O movimento, lançado pela oficial, é um grito contra o machismo e os ataques frequentes pelo simples fato de serem mulheres num universo ainda de predominância masculina. 

O relato ganhou força e muitas foram as mulheres a se dizerem encorajadas a denunciar o que sofrem nos quartéis. Em seu Instagram, Camila também postou um vídeo falando sobre o caso de áudios onde um militar do Ceará afirma que as policiais só servem para tirar o estresse deles.  

“Essa é a história de ‘Maria!!! Maria é militar, oficial, um certo dia ela estava na sala do seu chefe, um Coronel que acabara de ser promovido, então o coronel lhe disse: Maria, eu mereço os parabéns especial”, enquanto se aproximava dela e a encurralava entre ele e a parede. Maria, sem graça, nervosa e trêmula, não sabia o que fazer ou dizer e disse: ‘Chefe, como assim? Eu acho que o Sr está confundindo as coisas’. O Coronel a agarrou e tentou beijá-la à força. Maria tentou desvencilhar-se, empurrando-o e correndo para a porta e quando ela estava abrindo a porta pra fugir ele disse: ‘Cuidado com o que vc vai fazer ou falar, nada aconteceu aqui”, começa assim o relato de Camila, que viralizou. 

Tenente-coronel Camila Paiva
No Instagram, Camila conta a história das Marias vítimas de assédio; postagem viralizou e ela criou movimento nacional para encorajar outras mulheres a denunciarem

“Retrato da sociedade” 

Nessa terça-feira, 21, foi a vez da própria tenente-coronel Camila tornar público o que aconteceu com ela. Também no Instagram, relatou que teve uma foto sua de biquíni printada e divulgada via WhatsApp em um grupo de futebol de oficiais da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros de Alagoas, com mensagens ofensivas.  

Segundo Camila, um deles postou a foto e outro comentou: “Será que gosta de r…, essa aí?”. Ela diz que outros militares, amigos dela, repreenderam o ofensor, que apagou o comentário. “Mas já tinha sido feita a referência ao comentário dele como sendo ofensivo, então ficou gravado no print”, relata Camila. 

A oficial fez um documento relatando toda a situação e levou à Corregedoria da PM. “Também vou entrar na Justiça”, ela diz, ao revelar que não é a primeira vez que acontece. “Isso não acontece só comigo. Não foi um fato isolado. Acontece com várias mulheres; praticamente todas já ouviram coisas ofensivas contra elas ou contra outras mulheres, presenciaram algum tipo de assédio ou de abuso ou de importunação sexual, de desrespeito, machismo, preconceito. Isso com certeza todas já passaram e isso não é só em rede social, grupos de WathsApp. Acontece diariamente com as outras mulheres dentro dos quartéis”, diz Camila. 

“E eu não estou aqui falando do Corpo de Bombeiros de Alagoas. Estou falando das corporações militares do Brasil. Porque na verdade é o retrato da sociedade. Isso acontece nas corporações porque a sociedade é machista, mas como no militarismo cerca de 90% são homens, então é mais acentuado o machismo, a misoginia, o patriarcado é potencializado nesse ambiente”.  

A tenente-coronel Camila Paiva está há 18 anos no CB/AL e diz que esse tipo de abuso ocorre desde quando ela entrou na academia. “Percebi o impacto do ambiente machista, que é muito comum esse tipo de situação”. Porém, ela diz que o sentimento é de revolta. “Me sinto completamente revoltada, indignada, como mulher e profissional. Já não aguento mais, como muitas mulheres não aguentam, vê esse tipo de coisa e ficarem caladas. A gente precisa falar sobre isso, porque é muita indignação”, ela afirma.  

Legado para futuras militares 

“A estrutura hierarquizada contribui para que esse tipo de situação aconteça, porque existe essa relação muito forte de hierarquia e a mulher que é subordinada e assediada fica com medo de denunciar. Geralmente isso acontece quando estão somente o abusado e a vítima e muitas vezes a vítima não tem prova, então não consegue denunciar aquilo”, ela afirma. 

Camila ainda conta que o comandante-geral da PM telefonou para ela, “se solidarizando, dizendo que a Polícia Militar não aceita, não coaduna com esse tipo de situação e que vai ser apurado aos rigores da lei, com celeridade”. 

Ela diz que desde que a campanha foi lançada tem recebido “relatos do Brasil todo de mulheres policiais, bombeiras, inclusive de pessoas que não são militares, mas que passaram por algum tipo de abuso, assédio, importunação sexual, de desrespeito, machismo”.  

Afirma também ter certeza que o comportamento dela não infringe normas militares. Ao contrário. “Eu sou militar e estou subordinada a um regulamento e a uma legislação. Não há nada dentro do regulamento militar que diz que uma mulher postar uma foto de biquíni, no seu momento de folga, nas suas redes sociais pessoais, que isso seja algum tipo de transgressão. Não é”. 

“O meu comportamento é exemplar, sim, porque nunca fui punida por indisciplina, nunca manchei o nome da corporação. Muito pelo contrário, nas minhas redes sociais aqui em Alagoas as pessoas me veem como uma representante do Corpo de Bombeiros profissional, comprometida, que enaltece o nome da instituição. Tenho certeza, que de forma nenhuma eu venho trazer qualquer tipo de mancha para minha instituição. O que eu faço na minha vida pessoal e na minha privacidade, diz respeito a mim. Eu não vou para o quartel de biquíni. Eu não tiro foto na viatura de biquíni. Eu não tiro serviço de biquíni. Isso é no meu horário de folga”. 

Apesar do sofrimento, ela garante que a luta está só começando. “A gente vai continuar lutando e a gente tem a esperança de deixar um legado diferente para as mulheres que estão entrando na corporação, como também deixaram para nós as que nos antecederam, que abriram portas para que a gente hoje estivesse aqui. Tanto é que eu sou a primeira oficial feminina de Alagoas, entrei na corporação em 2002, primeiro ano que a mulher pôde concorrer ao curso para ser oficial. Foi graças a mulheres que lutaram por isso que a gente pôde adentrar na corporação e da mesma forma hoje nós estamos lutando para que as próximas que vierem não passem pelo que a gente está passando”. 

“Teste do sofá’, fotos printadas, mulheres acuadas 

Num relato carregado de emoção e revolta, a sargento BM Stephany Domingos também conta o drama das militares e traduz quem são as Marias descritas na campanha, ao pontuar diversos casos, citando as vítimas que têm medo de se identificar e sofrerem algum tipo de represália.  

A sargento BM Stephany Domingos conta que já foi vítima e diz que assédio vem de todos os lados, desde o subordinado até os de maior hierarquia
“Maria é a militar que estava fardada, de short ao término, feliz após pegar pódio em uma competição oficial até ver uma foto em que estava presente ser printada no Instagram oficial e compartilhada no grupo do seu quartel, com zoom em seu órgão genital e vários comentários maldosos”, descreve Stephany.  

Ao Eufemea, Stephany diz que “isso ocorre desde os primórdios. São tantos casos no decorrer da história das instituições militares que nem conseguimos contabilizar. Pra ocorrer basta ser mulher que eles acham que têm algum poder sobre nós. São casos frequentes que acontecem quando estamos de serviço, ou dentro dos nossos setores, ou dentro das viaturas, ou durante ocorrências, ou nos grupos de whatsapp, enfim… São casos muito variados e que cada mulher tem um relato específico pra fazer”. 

“Em grupos em mídias sociais eles frequentemente printam nossas fotos seja fardada, seja civil, e compartilham com os comentários mais maldosos, como foi o caso da TC Camila que o oficial falou ‘essa daí gosta de r…’”. 

“Fora dos ambientes virtuais, eles acuam mulheres, assediam, chamam pra sair, oferecem benefícios na escala ou etc se ela sair com ele, filmam suas bundas em treinamentos, as perseguem, passam a mão em suas pernas, insinuam “testes do sofá”, chegam de madrugada quando a militar está sozinha na guarda, ou até a agarra, enfim, as situações são as mais diversas possíveis”. 

O assédio surge de todos, desde os subordinados aos hierarquicamente superiores, segundo relata a sargento Stephany. “Os superiores tendem a abusar mais do poder, porém em alguns casos acontece com subordinados e pares também. 

“Teve uns áudios compartilhados em grupo de whatsapp de PMs do Ceará onde eles diziam que as PFems (policiais femininas) tinham que servir só pra tirar o estresse deles quando chegassem de ocorrências. Ele insinuou até revezamento de homens nesse áudio. Isso gerou uma indignação geral e então chegamos onde estamos hoje”. 

Questionada se já haviam procurando o comando da Polícia e que eles disseram, Stephany afirma:  “Sim, muitas mulheres entraram com processos que na maioria das vezes não deu em nada. Eu sou uma delas”.  

Como você se sente sendo mulher e militar numa situação como essa, indagou o Eufemea.“Me sinto perdida. Sinto uma dor que não tem tamanho, não só por mim mas por todas as minhas companheiras que passam por situações iguais ou piores do que eu já passei. Me sinto insegura, exposta. Sentia muito medo. Hoje o que eu tenho é um desejo enorme de lutar por essas mulheres e de fazer esses abusadores pagarem pelo que fazem”. 

Sargento BM Stephany
“Sentia muito medo. Hoje o que eu tenho é um desejo enorme de lutar por essas mulheres e de fazer os abusadores pagarem pelo que fazem”, sargento Stephany

Stephany reforça que o trabalho delas na corporação é pautado no respeito à hierarquia. “Sim, nossos pilares são hierarquia e disciplina, mas na hora do assédio e do abuso isso não existe. Nossas privacidades são invadidas todos os dias de todas as formas. Eles criaram até um termo: “jibosa”. É a mulher que eles compartilham entre eles com humilhações, comentários maldosos, zooms e etc”. 

A militar assegura que o caso será levado adiante. “Vamos continuar nosso movimento de #SOMOSTODASMARIAS incentivando mais mulheres a contaram seus casos, vamos juntar as provas que temos desses abusos e vamos buscar os meios legais de denunciar. Também estamos pensando em outras iniciativas para inibir esse tipo de ação nas corporações militares e vamos criar um grupo de apoio para essas mulheres militares terem a quem recorrer e se sentirem mais seguras”. 

“São mulheres militares espalhadas em todo o Brasil. O movimento se chama #SOMOSTODASMARIAS e começou com a TC Camila que vem incentivando a todas nós a lutar por nós e mostrar que estamos juntas e não vamos nos calar”. 

Comando da PM 

O Eufemea tentou contato com o comando da PM em Alagoas, mas até o fechamento da matéria não havia uma resposta. À imprensa local, o comando enviou a seguinte nota: 

O Comando da Polícia Militar de Alagoas recebeu na manhã desta terça-feira (21), por meio da sua Corregedoria-Geral, denúncia formalizada por Oficial do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas que versa sobre machismo e desrespeito cometido por oficial da PM-AL em uma rede social não oficial da corporação. Diante dos fatos apresentados, a PM-AL adotará as medidas necessárias para apuração da denúncia, reafirmando o seu respeito a todas as profissionais da Segurança Pública.