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Sua majestade, o circo pede passagem e tenta sobreviver à pandemia e falta de apoio

Foto: Marcos Frota Circo Show Recife e Olinda Memorial Arco Verde/Pablo Prentice 

Há 30 anos o circo entrou na vida dela para ficar. Desde que a pandemia foi declarada e com ela o isolamento social, as cortinas se fecharam, as luzes apagaram e o espetáculo foi interrompido. Não em definitivo, porque a paixão pelo mundo circense não permite, mas uma temporada que ela espera que passe logo.  Peronilda Batista de Andrade, a Peró, é idealizadora da ONG Sua Majestade o Circo, que busca possibilitar a construção da cidadania e o resgate da cultura circense no Brasil.  

Graças ao projeto, desenvolvido na Vila Emater, em Jacarecica, antigo lixão de Maceió, as crianças da comunidade tiveram oportunidade de enxergar um novo caminho, longe dos perigos das ruas, da violência, das drogas. Com a chegada do novo coronavírus, a arte milenar enfrenta um dos momentos mais difíceis até aqui, tenta sobreviver e se manter viva.  

O Eufemea conversou com Peró, produtora e diretora teatral, que começou no teatro quando ainda era bem jovem e seguiu para a arte circense a convite do ator global Marcos Frota. Ela conta sua trajetória, o desafio que está sendo a sobrevivência do circo em tempos de portas fechadas e os planos para a retomada.  

Peró revela que até hoje não receberam ajuda nenhuma do governo: “Estamos na mão de Deus. A arte parece que é uma coisa à margem”

“No dia 12 de outubro vai fazer 30 anos que estou no circo. É uma longa história. Estava em casa e tinha um professor da Ufal, [Universidade Federal de Alagoas] onde eu trabalhava, que era pessoa do teatro, ligado ao Marcos Frota, e um dia ele apareceu na minha casa com o Marcos me convidando para fazer uma produção no circo. Como era em Recife, que ia estrear, eu fui para passar 15 dias e estou há 30 anos. Vim do teatro para o circo. Hoje o circo é a minha vida”, diz Peró. 

Ela diz que espera a pandemia passar para voltar com o projeto que atende 50 crianças da Vila Emater. “E assim eu vou tocando, trabalho um pouco on-line. No Marcos Frota, nós criamos, junto com Luiz Maurício Brito Cavalheira, um pernambucano que trabalhou aqui na Ufal, a universidade do circo, que funciona no Rio de Janeiro, uma escola de técnica circense, que prepara profissionais para o mundo do circo. Já tem alunos no mundo inteiro, trabalhando com o circo, e o que eu trabalho é o circo itinerante, que se chama Grande Circo Popular do Brasil – Marcos Frota Circo Show, onde a maioria dos jovens que se forma na universidade vem trabalhar”.  

Antes da pandemia, estavam em tourné pelo Nordeste. “Agora nesse momento da pandemia, o circo está em Jacobina, na Bahia. Vamos ver como vai ser essa situação do retorno, que é complicado porque o circo vai criança, tem que ter toda uma preparação técnica. Estamos na mão de Deus. A arte parece que é uma coisa à margem”, diz Peró. 

Jovens e crianças da Vila Emater participam de oficinas de arte-educação

Por ser um projeto de arte-educação, o circo promove oficinas por onde passa e Peró fala de sua felicidade em saber que pode contribuir com o crescimento profissional e pessoal de jovens, seus alunos, espalhados no mundo todo.

“Fico muito feliz de ver o crescimento desse povo, poder contribuir na vida, ajudar as pessoas a desenvolver o seu trabalho como arte-educadora. Na realidade, a minha formação não é para formar artista circense, é para formar cidadãos, mas a gente juntou o circo e aqueles que querem desenvolver têm como engatar a vida deles em outras possibilidades com o circo”, diz. 

“Nesse momento de pandemia, são quase 150 pessoas, 30 funcionários na Universidade do Circo e no Marcos Frota, no circo itinerante temos 120, a princípio a gente tem um dinheiro que está dando para manter e fora isso a gente tem ajuda, os patrocinadores que não nos abandonaram, a prefeitura lá de Jacobina, que deu água, luz, a comunidade que ajuda, porque ajuda mesmo do governo não está tendo e até agora o presidente (da República) não assinou os R$ 3 milhões da Lei Aldir Blanc”.  

Peró se refere à Lei nº 14.017, de 29 de junho de 2020, que dispõe sobre as ações emergenciais destinadas ao setor cultural a serem adotadas durante o estado de calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020.  

Passar por uma pandemia era inimaginável para os circenses, também. “Ninguém nunca pensou de passar por uma situação dessa. É uma coisa universal, está todo mundo passando. O Soleil, que era uma potência, hoje está falido. É até assustador para a gente, porque ele tinha um alto padrão. O que move o circo é o espetáculo. A companhia não só tem no Canadá, em Montreal, que é a escola. Eles passam dois anos para poder manter um espetáculo, pagar o artista. É complicado”. 

“Circo, teatro, eventos, artes em geral, foram os primeiros a fechar e são os últimos a abrir. Até agora a gente não tem definido como é que vai ser, porque o circo geralmente quem vai são crianças. A família vai junto, mas  não dá para separar. Até agora essa logística para mim está sendo um pouco difícil, mas vamos ter fé que tudo vai melhorar. Eu ainda penso positivo. A gente não pode desanimar, apesar de tudo, das evidências”. 

Sobrevivendo da solidariedade 

E para manter os funcionários e equipes, como fazem, questionou o Eufemea. “A gente pode negociar com eles o salário. Foi uma coisa que teve que se fazer, mas tem que manter a alimentação, café da manhã, almoço, janta. Isso você não pode faltar com as pessoas. Não vai deixar o outro morrer de fome. Então, tem que correr, fazer campanha, publicidade. A situação está difícil para o Brasil inteiro. Só vejo todo mundo do circo reclamando, tanto o circo pequeno como o grande. A situação está insustentável, porque o alimento chega, a gente não morre de fome nesse país, conta com a solidariedade humana. Mas que é complicado, é”. 

Oficina de maquiagem para jovens com Cleber Oliveira, formado em Hollywood e premiado makeup artist

Peró lamenta a falta de apoio e diz que “os governos não querem saber de arte. “o artista para eles é o calcanhar de Aquiles, incomoda. Então, assim, não se sabe quando vai voltar, não se tem noção ainda, e de que forma vai ser esse retorno. A gente não tem claro ainda, infelizmente”. 

Em Maceió, ela conta, “existem sete circos na periferia. Eles estão no Cruzeiro, Rio Novo, Em Fernão Velho, dois em Marechal Deodoro. Já fiz várias campanhas para arrecadar,  tem os amigos que ajudam também. Agora está saindo por três meses o vale gás e uma cesta do Ministério Público, que cedeu para uma frente de artistas, através do Joana Gajuru, no projeto Arte que te Quero Viva. As 97 famílias circenses vão receber”, ela revela. 

Sem discriminação 

Quanto à participação das mulheres no comando circense, Peró revela que em Alagoas é dividido. “Tem alguns circos que são mulheres que administram. Eu trabalho na coxia, dirijo espetáculo, mas tomo conta da parte administrativa, da bilheteria, das compras, de pagamento, da portaria e assim vai. É uma rotina. Mas a vida de circo sempre é muito interessante. É uma mudança constante. Hoje você dorme aqui, amanhã em outro lugar. Não tem tanta rotina como a de quem tem uma vida mais permanente em casa”. 

“Eu nunca me senti discriminada por ser mulher e por estar trabalhando  no circo. Muito pelo contrário, sempre me senti muito respeitada pelos homens. Tenho muitos amigos nesse Brasil inteiro de circo e apesar de não ser de família circense, me considero uma circense. O meu coração é do circo sempre. É uma vida muito prazerosa. Tem as dificuldades, de chegar, ligar água, energia. Você tem que se adaptar. É uma vida totalmente diferente de quem mora em uma casa fixa, mas eu adoro, amo de paixão”. 
No carnaval 2019, Peró sendo homenageada pelo Bloco do Joana Gajuru por sua atuação em defesa do circo e da cidadania das crianças que atende

O que é 

Desde 1998, este projeto está instalado em Maceió, desenvolvendo um trabalho de arte-educação e teatro, possibilitando a construção da cidadania e o resgate da cultura circense no Brasil. O projeto “Sua Majestade O Circo” é ligado à Rede Circo do Mundo Brasil, que, por sua vez, é parte integrada ao Projeto Social do Cirque du Soleil, Cirque Du Monde em Montréal, no Canadá. 

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De Rita para Raí: a história de um intersexo alagoano que lutou pela verdadeira identidade

Já imaginou nascer mulher, mas ter a sensação de que você não é mulher? Foi isso que aconteceu com Rita. Alagoana, formada em Direito, filha de militar e de uma professora. Ela se olhava no espelho e não se reconhecia mulher. Mas isso ia além: Rita tinha os dois órgãos genitais e faz parte de 1% da população que é intersexo. O Eufêmea traz a história de Raí Albuquerque, 54 anos, que contou sua história e como lidou com o preconceito.

Hoje, Rita é Raí. Mas para chegar até a mudança de nome e gênero foi um longo caminho. Estudos mostram que em um em cada mil crianças, não é possível determinar a olho nu se o aparelho reprodutor é de um menino ou de uma menina. 

Raí conta que sofreu preconceitos durante toda vida e que desde criança sabia que não era uma menina.

“Eu soube quando me colocaram para dançar com um menino e eu não quis. Passei por diversos preconceitos, principalmente quando eu ía ao banheiro e diziam que lá não era o banheiro feminino”, disse. Ele ainda contou que foi chamado por anos de lésbica porque ninguém entendia a aparência dele.

Com a voz grossa, pêlos, barba e bigode, Raí teve câncer de tireóide e procurou uma médica endocrinologista que se interessou pelo caso e pediu vários exames porque percebeu uma disfunção hormonal. “Retirei o câncer, fiz o tratamento e de acordo com os exames, a doutora constatou que eu tenho um problema no cromossomo 23 – que é quando a pessoa nasce – e eu sou o XXY – o famoso intersexo”, explicou.

Raí aos 54 anos

Só que foi a chegada de um câncer de mama que mudou a história dele. “Provavelmente a doença que eu tive foi por causa da disfunção hormonal”. Com o câncer mama, Raí retirou os seios.

Após a doença, ele procurou uma advogada  e deu entrada na Justiça, com os laudos médicos, para mudança de nome e gênero. “Em seis meses, saiu à retificação e correção do meu sexo. Hoje me chamo Raí”.

Para ele, a Rita era um personagem que “ele tinha que representar a sociedade”. “Por isso é um erro muito grande na concepção de uma criança as pessoas perguntarem se é menino ou é menina, só deveria acontecer isso depois que se tivesse certeza do sexo biológico e da identidade de gênero de cada um”, enfatizou.

A vida dele mudou depois da mudança de gênero e nome. “Hoje em dia as pessoas me enxergam como homem e me sinto muito melhor”. Mas sabe que o preconceito ainda existe. “Quando o homofóbico se aproxima, ele não quer saber qual gênero pertencemos”, contou.

Raí hoje em dia é aposentado, tem 54 anos e é o único intersexo de Alagoas. Ele também já foi convidado para palestrar sobre a vida e sobre o que é ser intersexo.

E a luta dele não acabou. Agora, ele quer a mudança na certidão de batismo, único documento que ainda consta o nome de Rita.

“O que prevalece é a decisão judicial que manda trocar meu nome e sexo. Será uma conquista se tiver essa troca”.

Por fim, Raí diz que muitas pessoas ainda são preconceituosas, mas deixa uma reflexão. “Se diz que a Criação é a perfeição e ser intersexo é algo genético, em que lugar fica a fala dos ortodoxos que dizem que o trans, a lésbica e o gay quer forçar uma situação? Eu não forcei nada, foi Deus que me criou assim. O intersexo quebra essa fala, inclusive”, finalizou.
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De Penedo para o mundo: bordados são verdadeira obra de arte da Pontos e Contos

O município de Penedo, na região do Baixo São Francisco de Alagoas, guarda não apenas casarios e prédios históricos preservados em sua origem, mas é de lá que sai uma arte tão antiga quanta a própria existência da cidade: o bordado feito à mão, que dá vida e cor a roupas femininas e atrai pela beleza e detalhes em cada ponto.  É de Penedo a Pontos e Contos, associação que reúne mulheres bordadeiras responsáveis por peças exclusivas e de uma delicadeza singular. 

O Eufemea conversou com Francisca Lima Lessa Lobo, uma das fundadoras e presidente da associação, engenheira agrônoma aposentada, que mora em Penedo há 40 anos, onde chegou para trabalhar e se instalou até hoje. Ela conta como tudo começou e faz um ‘passeio’ pelas memórias da associação, que hoje se prepara para alçar voos e ganhar o mundo. 

“O projeto nasceu em 1997, eu ainda trabalhava na Codevasf, meu marido é do Rotary e eu fiz alguns trabalhos com adolescentes junto com ele na Casa da Amizade, instituição que existe no Brasil inteiro e reúne as mulheres dos rotaryanos. Um dia estava no meu trabalho e recebi a visita de uma moça me pedindo para ajudá-la a montar uma associação de bairro, numa localidade que tem um estigma muito forte por reunir pontos de prostituição”, conta Francisca.  

Francisca Lessa é presidente e fundadora da associação: “É muito gratificante ver a mudança das meninas, de pensar, de sonhar, porque elas não tinham sonhos”

Ao chegar em casa, ela lembra que conversou com a mãe e ficou pensando o que poderiam fazer para ajudar. Daí veio a ideia, e por que não ensiná-las a bordar!

“Minha mãe foi bordadeira a vida inteira, aprendeu muito jovem e bordava para fora, nos sustentou durante muito tempo. Ajudava na renda da família. E eu aprendi a bordar com sete anos e ajudava minha mãe nos bordados dela. Para me formar, na Universidade de Brasília, eu bordei muito para fora, para as amigas, para as pessoas que eu conhecia para me manter e ajudar minha mãe. Resolvi ensinar as meninas a bordar. Organizei e montei um grupo de bordado com elas”, relata. 

As aulas eram dadas por Francisca na casa das jovens. “Eu levava a minha mãe para o bairro logo depois do almoço, ficava um pouquinho com ela, deixava na casa de uma das meninas, e era tudo muito difícil. E assim a gente passou durante muito tempo. A gente não tinha espaço. Aí a coisa foi começando a crescer. A gente bordava ponto cruz, pano de prato, coisas pequenas e bem comuns, que todo mundo borda. Vendia para as amigas, pros meus parentes”, ela lembra. 

Busca por espaço e cidadania 

Mas o crescimento veio com o tempo e a dedicação ao trabalho. “A gente conseguiu um espaço no mercado do artesanato, a prefeitura deixou a gente usar e montamos uma loja”, conta Francisca. Ela diz que nessa época foi convidada a ser presidente novamente da Casa da Amizade e como estava com muito trabalho com os bordados, só aceitou mediante a aceitação de uma contraproposta feita às mulheres do Rotary, de que acolhessem o projeto como sendo da Casa da Amizade, o que deu mais visibilidade aos bordados. “Começamos a fazer um trabalho de resgate, de cidadania, da dignidade, de profissionalização delas”. 

Nas peças, as bordadeiras trazem as lendas, o folclore, o acervo arquitetônico e cultural de Penedo

O passo seguinte foi procurar um espaço próprio. “A gente ficava perambulando, ia para o clube, dava aula nos fundos da igreja, era muito complicado. A gente chegava com as meninas no mercado do artesanato e as pessoas ficavam olhando meio enviesado, porque como elas eram do Camartelo, todo mundo tinha preconceito com elas. E elas ficavam intimidadas, não queriam entrar nos lugares porque se sentiam muito incomodadas com aqueles olhares”. 

Francisca lembra ainda que em Brasília conheceu Sávia Dumont, “uma bordadeira muito famosa, de uma família de bordadeiras de Minas Gerais. Ficamos amigas e um dia ela veio a Penedo, num tipo de comitiva de barco, que saiu de Pirapora (MG), passando por todas as cidades, trazendo vários profissionais e as bordadeiras. Elas davam oficina de bordado, me convidaram para participar e eu fui”, relata. 

Bordar contando história 

Ela conta ainda que levou a mãe e as meninas. “Lá, a gente aprendeu um tipo de bordado diferente, porque eu aprendi o tipo tradicional, que é o crivo, o matiz. E elas não fazem um bordado comum, fazem uma obra de arte. E ensinaram a gente essa técnica de misturar linhas, textura. E uma coisa super importante: de bordar contando história, que para a gente foi uma grande novidade”. 

Com os paninhos bordados na oficina, Francisca conta que fez uma colcha de retalho. “Um dia ela (Sávia Dumont) veio na minha casa me visitar e encontrou a colcha de retalho em cima do sofá. Eu estava terminando de montar a colcha. Ela ficou enlouquecida quando viu, aí comprou e me perguntou se queria que ela viesse dar um curso aqui em Penedo pra gente. Ela veio, trouxe máquinas de costura, era um projeto que ela tinha na Fundação Banco do Brasil, chamado bordando o Brasil. Trouxe linha, agulha, tudo o que precisava pra se bordar, e deu uma oficina pra gente de uma semana”. 

“No dia que ela foi embora a gente ficou com muita bagagem, muito aprendizado. E começamos a fazer um bordado que a gente não fazia. Começamos a bordar roupas, bolsas e outros acessórios. A gente só bordava coisas de cozinha”. 

A partir daí, o trabalho era conseguir o espaço próprio. “Participamos do Programa Nota 10, do governo do Estado de Alagoas, de nota fiscal. Juntamos R$ 63 mil em três anos e compramos uma casa. Quando a Sávia veio, em 2005. A Casa da Amizade fez a campanha para comprar o nosso espaço próprio e é a mantenedora da entidade, que se chama Associação de Inclusão Social Bordadeiras de Penedo. O Sebrae também nos achou e nos convidou para participar de concursos, a gente fez e o primeiro que ganhei foi o Mulher de Negócio”. 

“Elas agora têm sonhos” 

“Começamos a participar de feiras, de eventos, cursos de tudo o que precisávamos, inclusive de preços, de como viver em associação, tudo o Sabrae faz com a gente. Um apoio muito importante. Ganhamos as três edições do Top 100 do Sebrae e hoje a gente vende para o Brasil inteiro. As meninas são completamente diferentes do que elas eram quando a gente começou a fazer o trabalho”.

“Hoje temos meninas de vários bairros da cidade, não só do Camartelo. É muito gratificante ver a mudança delas, de maneira de pensar, de sonhar, porque elas não tinham sonho. Hoje temos muitas meninas fazendo curso superior, as mães bordam, e as filhas estudam na faculdade. É muito gratificante para a gente isso”. 

O bordado da Pontos e Contos, explica Francisca, “é livre. A gente utiliza uma mistura de linha, de cores. Num bordado só, a gente faz vários pontos diferentes. Uma árvore só, a gente pode bordar vários pontos. Tem pontos que a gente inventa na hora”. 

“Nossos desenhos traduzem a nossa cidade. Moramos numa cidade histórica, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional, com quase 400 anos, temos um acervo cultural, arquitetônico muito bonito e moramos na beira do Rio São Francisco”. 

Além de roupas, elas também fazem acessórios, onde misturam linhas e cores

Nos pontos bordados, as artesãs trazem as lendas, o folclore, o acervo arquitetônico, cultural. “Fizemos várias coleções: as lendas do São Francisco, a religiosidade, com a procissão de Bom Jesus dos Navegantes e o rio, contando as histórias. Os nossos desenhos hoje são feitos por um artista plástico autodidata, que trabalha na usina. É muito legal a gente poder fazer com que pessoas que nunca imaginaram que fossem um dia ser reconhecidos, ser reconhecido como artista plástico”. 

E como Francisca percebe o bordado hoje? “Hoje eu não sou uma bordadeira. Sou uma artista, porque também bordo junto com as meninas”, ela diz, ao destacar que fazem peças do vestuário feminino, infantis e acessórios. O trabalho é feito em tricoline, brim, linho e algodão cru. 

Onde encontrar 

As bordadeiras têm sede em Penedo, uma loja em Maceió, que vende as peças, a Calidoscópio, parceria iniciada este ano. “Temos uma parceria também com a loja Le Soleil d’été, em São Paulo. Agora mesmo elas estão lançando uma coleção de verão e as peças foram bordadas por nós. É a segunda coleção delas que a gente borda. E vamos bordar esse ano também uma coleção de tênis para uma loja de sapatos”. 

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“É muito difícil quebrar o silêncio”, diz psicóloga sobre casos de violência sexual contra crianças e adolescentes

“Como a violência sexual ocorre na maioria das vezes dentro do núcleo familiar e muitas vezes não ocorre isoladamente, é muito difícil realizar a quebra do silêncio”. Foi assim que a psicóloga Ana Laura de Moura Reis da Secretaria de Prevenção à Violência (Seprev) classificou os casos de violência sexual contra crianças e adolescentes.

A psicóloga disse que a maioria das vítimas é do sexo feminino e hipossuficientes economicamente. “Não é que não haja casos em crianças e adolescentes de classe média e classe média alta, mas estigmatização faz com que esses casos muitas vezes sejam subnotificados”, justificou.

De acordo com a Seprev, em sete meses, o Instituto Médico Legal atendeu 130 crianças e adolescentes que foram vítimas de violência sexual em Maceió. 50% dos casos de abusos ocorrem na faixa etária de 10 a 14 anos.

Em 2019, foram 609 atendimentos e em 2020, 130. Isso não significa que o número está reduzindo. Pelo contrário, a psicóloga do Núcleo de Atendimento de Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência da Seprev, Ana Laura, alertou que apesar de ter essa “redução”, não significa dizer que os casos de violência não estejam ocorrendo.

Devido à pandemia, de acordo com Ana, as vítimas estão tendo dificuldade muitas vezes de realizar a denúncia. “Estatisticamente a violência  é  intrafamiliar, portanto o pacto do silêncio que pode ocorrer de diversas formas, como chantagem, ameaças, violência física,  fica mais  acentuado quando a vítima está confinada por boa parte do dia ao lado do criminoso. Então pode ser que quando esse período de isolamento social termine, aumente as notificações. Isso terá que ser avaliado posteriormente”, afirmou.

Quando as vítimas chegam ao IML é realizado o acolhimento da vítima e seus familiares. “Além disso é  feita a sensibilização para realização do exame de corpo de delito, visto que muitas vezes essa vítima está muito abalada emocionalmente”, disse a psicóloga.

Em um segundo momento é realizado o encaminhamento para a Rede de Proteção, incluindo o Núcleo de Atendimento à  Criança e ao Adolescente. “Então quando recebemos essa vítima no NACAVV, realizamos atendimento psicológico por até 6 meses, podendo ser prorrogado a depender do caso. Realizamos também visita domiciliar, atendimento social e jurídico, onde orientamos e tiramos dúvidas  dos responsáveis”, explicou Ana.

Por fim, Ana deu dicas para que sejam identificados os sinais que apontam se a criança ou adolescente está sendo vítima de violência.

INDICADORES FÍSICOS

• Roupas rasgadas ou com manchas de sangue;

• Hemorragia retal ou vaginal;

• Secreção vaginal ou peniana;

• Infecção urinária;

• Dificuldade de caminhar;

• Dores pélvicas;

• Hematomas ou escoriações pelo corpo;

• Infecções/doença sexualmente transmissíveis.

INDICADORES COMPORTAMENTAIS/PSICOLÓGICOS

• Mudança brusca de comportamento ou humor;

• Transtorno alimentar;

• Perturbação no sono;

• Timidez em excesso;

• Medo de ficar sozinha com alguém em algum lugar;

• Sexualização precoce;

• Comportamento incompatível com a idade (regressão)

• Automutilação;

• Tentativa de suicídio.

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Médicas alertam que pandemia não acabou: “Ilusão de um novo normal, pode reativar infecções”

O tempo e o avanço de fases do plano de distanciamento social controlado, acabam levando muitas pessoa a acreditar que a pandemia já passou, e descuidando das medidas de proteção para evitar a contaminação pela Covid-19. No entanto, médicos alertam que é preciso continuar com os cuidados, principalmente o uso de máscara.  

O Eufemea ouviu a infectologista Raquel Guimarães e a cardiologista Eveline Tenório e traz a orientação das profissionais à população.  

“As duas coisas estão acontecendo: o cansaço produzido pelo distanciamento social e a ilusão de que estamos voltando a ter uma vida normal, diminuindo assim as precauções dentro da própria família, no trabalho, participando de festas e reuniões. Essa conduta pode reativar as infecções em algumas áreas do país ou mesmo em Alagoas”, afirma Raquel Guimarães. 

A médica lembra ainda que o uso de máscara continua sendo a forma mais segura, até que uma vacina seja produzida.  

“Com relação ao uso de máscaras, são hoje nossa proteção mais segura. As máscaras para serem seguras, sejam de tecido ou cirúrgicas, precisam ter no mínimo de três camadas de tecido. As demais máscaras intra-hospitalares, juntamente com as chamadas face shield são utilizadas para as equipes de saúde quando realizam procedimentos invasivos. Até o aparecimento de boas vacinas, são a medida mais efetiva no momento”. 

A especialista diz também que “existe o risco de um novo aparecimento de casos sim, mas ainda não há certeza da contaminação de quem já teve a doença e não há relatos comprovados de reativação após “cura”. Os cientistas acompanham de uma forma muito cuidadosa pois pouco se sabe sobre a permanência e o efeito da produção de anticorpos medidos no sangue”. 

Raquel Guimarães chama atenção para os riscos de sequelas deixadas pela Covid-19. “Já é  possível, sim, falar em sequelas pós-Covid. São de todo tipo: renal, cardíaca, pulmonar, neurológica. O município de Maceió montou um ambulatório para egressos dos casos internados , que passaram pelas UTI’s para realizar estas avaliações e poder conduzi- las”. 

Ela ressalta que em relação às pessoas com doenças, é preciso  manter os cuidados para os  que fazem parte desse grupo, “pois as comorbidades poderão definir os desfechos clínicos,  juntamente com equipes treinadas e habilitadas para o atendimento. Porém há pessoas adoecendo e morrendo sem que possamos definir os riscos do contato com o vírus”. 

Infectologista Raquel Guimarães: “Com relação ao uso de máscaras, são hoje nossa proteção mais segura”

Quanto à volta das aulas presenciais, a médica infectologista fala que é preciso ter cautela e implementar uma série de mudanças. 

“Sabemos hoje que as crianças têm pouco ou nenhum sinal e sintoma, mas estuda-se cuidadosamente sobre a possibilidade de serem bons vetores da doença. Voltar as aulas neste momento exige uma mudança radical em todas as escolas, adaptações físicas, exigência de limpeza bem adequadas, especialmente as escolas públicas”. 

Para ela, “é possível falar no novo normal, com cuidados que não tínhamos antes da pandemia. Cabe a todas as populações, dentro de suas possibilidades, ter condições de utilizar meios de se proteger.  Cabe aos governantes assumir de forma global todas as demandas para que essa população se sinta protegida, em qualquer situação de risco”. 

Sequelas

Eveline Tenório é cardiologista e falou sobre as sequelas e as consequências do abandono da  quarentena num momento ainda grave da pandemia, em que não há vacina contra a Covid-19. 

“Determinada população acha que a pandemia “nunca existiu”, outros acham que está tudo bem e temos aqueles que estão cansados emocionalmente de toda realidade que estamos passando”, diz a Eveline.  

A especialista alerta que “a falta dos cuidados básicos para combater a disseminação do vírus pode acarretar circulação do mesmo, não só no ambiente hospitalar, como em qualquer outro,  principalmente em ambientes fechados”, ela diz ao transmitir uma orientação à população. 

“A pandemia ainda não passou. As medidas para se evitar a circulação do vírus devem continuar, mesmo que você já tenha adquirido a patologia e se considere “imune”, pois podemos ser “portadores” do vírus (mesmo sem sintomas) e levarmos a outras pessoas, a doença. Então, o uso da máscara de forma correta, higienização frequente das mãos com água e sabão (com tempo apropriado) ou álcool em gel, bem como o distanciamento mínimo entre cada indivíduo deve continuar”.  

Eveline Tenório também destaca que as pessoas que sofrem de problemas cardíacos são consideradas grupo de risco para a Covid-19 e explica por quê. “A infecção viral leva a uma série de reações responsáveis por desequilibrar doenças cardiovasculares que antes estavam compensadas. O cardiopata tem alterações em seu sistema imunológico, além de um estado inflamatório crônico latente, o que pode agravar a evolução da doença”.  

“Existem alguns estudos tramitando. Miocardite (inflamação do músculo cardíaco) e rotura da placa de ateroma, podendo levar ao infarto agudo do miocárdio, são algumas delas”. 

A profissional, que já perdeu pacientes para a Covid-19, diz ainda que “há uma sensação de impotência, gerando um grande vazio.  Eram idosos. Pelo fato de apresentarem várias comorbidades, há um risco maior em pacientes idosos e cardíacos, mas isso não afasta o risco em pacientes mais jovens. Temos visto vários casos de adultos jovens, sem comorbidade aparente, apresentar forma grave da doença”.  

 Para ela, a pandemia traz como mudança “a certeza irrefutável de que não temos o controle de absolutamente nada”.  

“Em minha opinião, a pandemia nos chamou atenção de que é emergente que deixemos de pensar no individual e pensemos no coletivo. É imperioso pensarmos como raça (ser humano) e não como uma pessoa no meio de tudo. Se não mudarmos nossa forma egoísta de pensar e agir, certamente teremos outras “pandemias” para enfrentarmos… Já temos a “pandemia” da depressão, do suicídio, da violência contra as minorias. Espero que o pós-pandemia seja de reconstrução, como seres humanos e esqueçamos um pouco do EU e passemos a agir em torno do NÓS”. 

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Por direito ao aborto legal, grupo ajuda mulheres a vencerem barreiras e evitar morte materna

Foto: Fernando Frazão (Agência Brasil) 

O caso da menina de 10 anos vítima de estupro que precisou viajar do Espírito Santo até Recife para fazer um aborto ganhou repercussão nacional e mostra o drama de quem além da dor emocional e física, é obrigada a enfrentar os entraves e o preconceito na hora de fazer o procedimento, ainda que assegurado por lei. A criança precisou ser transportada dentro do porta-malas do veículo para se esconder de manifestantes que na porta da unidade de saúde protestavam contra e tratavam o caso como um assassinato.  

No Brasil, o aborto é considerado legal quando a gravidez é resultado de abuso sexual ou põe em risco a saúde da mulher ou quando o feto é anencéfalo, ou seja, não possui cérebro. No entanto, é nas unidades de saúde, que deveriam acolher a vítima, que muitas vezes elas encontram a maior barreira. Situação que levou um grupo a criar o projeto Milhas Pela Vida das Mulheres (http://www.milhaspelavidadasmulheres.com.br/), que auxilia mulheres a realizar o aborto de maneira segura e legal, dentro ou fora do Brasil. 

O Eufemea conversou com Juliana Reis, fundadora do grupo e traz as informações de como funciona o movimento, que nasceu no eixo Rio de Janeiro/São Paulo. 

“O projeto surgiu em junho de 2019, quando numa troca de posts no Facebook sobre uma matéria falando de mulheres que viajavam para acessar o aborto seguro e legal na Colômbia, eu fiz uma provocação e perguntei quem toparia ajudar a pagar a viagem de mulheres que não têm dinheiro, para que elas fossem para a Colômbia fazer aborto seguro e legal também, e contrariamente às expectativas e experiências anteriores, dessa vez eu recebi 5 mil comentários de ‘eu topo’, ‘pra onde eu dou as milhas’. Ao ver esse debate, percebi que o Brasil estava levantando a sua voz em relação ao tema do aborto, provavelmente impulsionado pelo retrocesso, pelo andar para trás”, ela conta. 

Juliana Reis, fundadora do Milhas Pela Vida das Mulheres: “Criar uma rede de sustentação para que essas mulheres possam realizar esse procedimento sem risco”

A partir daí, diz Juliana, foram alguns meses botando de pé a ideia, com balizamento jurídico, organizando estatuto. “Entramos em atividade no dia 28 de setembro e decolamos a nossa primeira viajante no final de novembro. Desde então já foram uma centena de mulheres que a gente ajudou a acessar o direito legal ao aborto no Brasil ou nos países vizinhos, Colômbia, Argentina e México”, quando os casos não se enquadram nos critérios brasileiros da legalidade. 

Juliana conta ainda que o objetivo é fazer com que mulheres parem de morrer em função de procedimentos inseguros, “criar uma rede de sustentação para que essas mulheres possam realizar esse procedimento sem risco e, em última instância, em médio prazo, transformar o Brasil e contemporizar a legislação em relação ao aborto, como já é o caso na maior parte do mundo civilizado”. 

Todo o processo funciona totalmente on-line. “Desde o primeiro momento que a mulher entra em contato com a gente, via redes sociais, e-mail ou whatsapp, a gente vai conversar com ela, entender a situação específica dela, ver como se enquadra nas situações legais, seja no Brasil ou fora, nos países vizinhos, com os quais a gente vem traçando parceria, encaminhar esse processo e, se necessário, em última instância, contribuir financeiramente com essa viagem, inclusive realizando as campanhas de arrecadação para cada um dos casos que a gente vai assumindo”, informa Juliana. 

No site, o grupo mostra a situação das mulheres no Brasil vítimas da criminalização do aborto

Unidades de saúde, um entrave 

Uma das maiores barreiras está justamente em quem deveria acolher, as unidades de saúde, situação que o grupo espera superar, como conta Juliana.  

“No Brasil, a gente vem desenvolvendo cada vez mais o contato e a relação com essas unidades de saúde, o que cria uma situação bastante complexa pra gente hoje, que é receber dessas unidades pedido de ajuda. Ou seja, os representantes do Estado, que deveriam, por obrigação, assistir e oferecer a essas mulheres o acesso, a segurança da saúde e o direito à lei, acabam vindo pedir a nossa ajuda para garantir a essas mulheres o mínimo de acolhimento e de acesso ao direito”. 

Segundo ela, unidades de saúde continuam se negando a fazer o aborto legalmente permitido. “O Espírito Santo é o campeão nessa lamentável prática de má-fé em todos os sentidos. Por incrível que pareça, apesar do tamanho da bestialidade, não nos surpreendeu a recusa do serviço hospitalar de referência, de atender e acolher essa menina de 10 anos de idade”, ela afirma. 

“Há um rito, um protocolo de atendimento, um fluxo, e um processo para deferimento das solicitações de aborto legal e a gente não interfere, de maneira nenhuma, nesse processo. Ainda menos decide a respeito disso. Nós instruímos as mulheres sobre a lei brasileira, na medida que ela se enquadre dentro das situações legais, a gente vai encaminhá-la aos serviços que são respeitosos, acolhedores e que sobretudo observam a norma técnica do Ministério da Saúde, e a partir daí a gente não intervém de forma nenhuma no fluxo e no resultante desse fluxo entre a mulher e o serviço hospitalar”.  

Má-fé e falta de ética 

Num dos relatos feitos ao grupo, uma jovem de 22 anos, também do Espirito Santo, contou: “Passei pelo psicólogo, assistente social e foi justamente a médica que me questionou, já apalpando a minha barriga, se eu não queria dar continuidade à gestação e depois entregar o bebê à adoção. Eu disse que não. Em seguida, ela me pediu uma nova ultrassom para confirmar o tempo gestacional, por que, na visão dela, já estava ‘bem crescido’. Eu já estava com um exame, que comprovava 17 semanas”. 

“Esse caso aconteceu agora, durante a pandemia, e após um primeiro contato com o serviço social de unidades de saúde ligadas ao SUS e que constavam na lista de acolhimento do aborto legal, a gente encaminhou a jovem ao equipamento de saúde, ela passou por esse fluxo e ainda que, em nenhum momento tenham dito a ela que o pedido dela seria indeferido porque ela não estava cumprindo os ritos, ela foi literalmente sendo empurrada, e a cada semana tinha que voltar. Até que a fizemos viajar para um outro estado, para ter o acolhimento digno”, revela Juliana. 

Ela conta ainda que “a médica, que agiu dessa maneira totalmente irresponsável e do ponto de vista ético, de forma lamentável, é docente da Universidade Federal de Medicina do Espírito Santo e trabalha num serviço de aborto legal. Ou seja, dificilmente ela poderia pretender argumentar como objetor de consciência. É o que a gente chama da má-fé e do aparelhamento dos serviços de proteção à mulher para outros fins não republicamos, não laicos e responsáveis do ponto de vista ético e profissional da medicina”. 

Lei arcaica 

A fundadora do Milhas Pela Vida das Mulheres ressalta ainda que a atuação se dá estritamente dentro da lei. “E a perspectiva que a gente assume é de poder conquistar num prazo curto, uma natural atualização da norma já existente. Em 1940, o Código Penal foi escrito e ele é válido até hoje. Com exceção da anencefalia não houve nenhuma mudança mais significativa na lei ao que se refere ao aborto. Ora, a gente tem então uma lei que prevê exceções de lícito para três situações: fruto de abuso sexual, risco de morte para a mulher e anencefalia”. 

“Se você pensar que um país como a Colômbia proíbe o aborto com três exceções, que sejam elas, risco para o bem-estar físico e mental da mulher, situação de violência sexual e má formação fetal, e que essas três exceções, dão conta de todas as necessidades, de todas as mulheres colombianas para acessar um aborto seguro e legal, a gente percebe que há um espaço bastante amplo para a gente atuar em termos de atualização do que já é lei”, afirma Juliana. 

Uma das constatações mais chocantes que ela diz ter adquirido ao longo do trabalho desenvolvido se refere à situação afetiva da mulher brasileira. “As relações da mulher hetero brasileira, homem mulher, são muito violentas, muito doloridas, desrespeitosas e isso realmente cria uma realidade onde a mulher tem muita dificuldade para perceber como violência, como abuso, desrespeito, aquilo que ela vivencia diariamente, continuamente”, diz Juliana. 

A situação da mulher brasileira diante da gravidez indesejada, é inumana, afirma. “Ela é sozinha, sem amiga, sem família, muitas vezes sem companheiro e é muito estarrecedor eu ter percebido como a única pessoa que dividiu com aquela mulher o segredo da sua gestação. Eu, que ela nunca viu na vida, que nunca teve uma relação de proximidade, com quem ela só vai tratar através da internet, eu muitas vezes fui a única pessoa com quem ela pôde dividir esse segredo e eu acho isso de uma violência inumana. Acho que por tudo isso elas demoram muito tempo para denunciar”.  

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de uma a cada três (35%) mulheres em todo o mundo já sofreram violência física e ou sexual por parceiro íntimo no ambiente doméstico. Em 2018, o Brasil registrou mais de 66 mil casos de violência sexual, o que corresponde a mais de 180 estupros por dia, segundo dados do 13º Anuário de Segurança Pública, d Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados no final de 2019. 

O aborto feito em clínicas clandestinas, é uma das principais causas de morte materna no Brasil. Em agosto, mais de 100 mulheres já procuraram ajuda do grupo liderado por Juliana para evitar o procedimento, sendo que 27 já estão com processos encaminhados de interrupção da gravidez, tanto aqui quanto fora do país.

Os números oficiais apontam ainda para os gastos públicos em decorrência de abortos clandestinos
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Apaixonada por literatura, pernambucana fala sobre descoberta da escrita e produção durante a pandemia

Ela é pernambucana, mas pode-se dizer que é alagoana de coração, já que mora em Maceió desde os dois anos de idade. Apesar de estar finalizando o curso de Zootecnia no Centro de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), é apaixonada por literatura. Na segunda parte da matéria de hoje, o Eufêmea traz a história da escritora Ana Iris, de 26 anos.

Segundo Ana, o contato com a leitura e escrita literária é recente e começou em 2016. “Embora eu já escrevesse desde a pré-adolescência, não sabia que estava fazendo literatura e as implicações de expressar dentro de um gênero o que pensava. Esse gênero, sem saber, sempre foi a poesia”.

Ela diz que nunca escreveu em crônica ou contos, somente duma forma muito comum aos diários. 

“O que já ocorreu com outras escritoras, a Plaht, Carolina, Dickinson, Woolf; essa emersão livre do diário que surge na fusão entre amores externos (a escrita, a botânica, os filhos) e suas biografias, quanto suas impressões triunfais e olhares sobre o mundo ao redor de suas vidas. E comigo foi bastante parecido esse processo de conseguir “juntar” a minha paixão pela ciência vegetal e animal com as aspirações poéticas”, contou.

Ser mulher no meio literário
Ana acredita que sempre há impressões e olhares que despreza o envolvimento mútuo da mulher e ela entende esse pensamento por ser algo hierárquico machista. “Nesse pensamento, a mulher segue à risca a imagem submissa e a reprodução, onde, algo fora desse quadrado foge das expectativas”.

Após muito tempo, a escritora começou a publicar as poesias em um blog. E do blog surgiu um livro de poemas. “Este blog deu fruto ao Cavia Porcellus, uma compilação de poemas dos meus últimos anos juntamente com alguns inéditos para a submissão da obra ao edital da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. O livro é composto por 28 poemas no total, tendo alguns sido publicados em revistas literárias”, falou.

Ana explicou que Cavia porcellus é um nome científico do conhecido porquinho da índia, que primeiro intitulou um poema que tenta trilhar a trajetória da mulher dentro da sociedade e como essa mulher sempre termina sendo um produto comercial comum (leite corte ou lã), ele vai citar a subordinação feminina como uma forma de  domesticação e como essa mulher no fim morre por essa sequência de deterioração da sua imagem.

Produção na quarentena

Para a escritora, “todos nós contraímos a covid-19”. “Digo isso no sentido de como esse episódio nos pegou de forma tão brusca e violenta”, explica.

Ela disse que a covid “afetou nosso corpo físico, nossos planos, nossas manias, nossas idas e vindas que fazem parte da vida. E ainda, uma chuva de horrores presidenciais lá fora. Por isso, ainda estamos um pouco desamparados, ainda formulando uma forma de pensar e ordenar as ideias neste presente incerto”.

Com a paralisação das universidades em combate a disseminação da COVID-19, ler e escrever se tornou mais frequente nos dias de Ana. “No momento, estou fuçando escritos perdidos pelos cadernos, planejando, vendo o que poderá ser outro livro, revisando, revisitando momentos, bem dizendo. Ah! e vendendo Cavia Porcellus”, falou.

Por fim, ela também ressaltou que durante a quarentena teve a oportunidade de poder falar sobre assuntos pertinentes quanto a presença da mulher negra em diversos espaços. “Esse fenômeno está sendo geral, acredito.  Essa “aglomeração” de lives e conversações”.

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Escritora alagoana fala sobre desafios na pandemia e critica taxação de livros: “Às vezes, queremos vomitar o país”

Foto: Gabriel Bortulini.

Elas são escritoras, mulheres, nordestinas. São elas que encantam através dos textos e que se doam pelo amor à escrita. A profissão delas é ser escritora. O momento para elas não é fácil, já que o ministro Paulo Guedes enviou uma proposta de reforma tributária que colocou uma taxação de 12% em cima dos livros. E elas lutam contra isso. Na primeira parte da matéria, o Eufêmea traz o relato da alagoana Sara Albuquerque que conta sobre a escrita durante a pandemia, quais foram os desafios e sobre como ela se enxerga como mulher e escritora.

Sara contou ao Eufêmea que está há cinco meses em isolamento e que viveu diferentes impulsos artísticos para aliviar o sofrimento individualmente coletivo. “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?”, questiona.

Perguntada se durante esse tempo houve bloqueio criativo, Sara diz que foi de encontrar concentração em narrativas mais longas. “A realidade esmagando a ponte entre os olhos e os parágrafos; mas passei a ler muita, muita poesia, pela qual serenamente fui acolhida e me salvaguardei menos sozinha. O poema nos contempla pela urgência e, no Brasil, são 5.570 cidades em alerta aos vírus invisíveis a olho nu, o corona é só um deles. Escutemos as janelas, o trânsito em tráfego”, disse.

Foi no início de maio que Sara começou um processo de revisitação aos trabalhos de literatura infantil. A escritora publicou três livros infantis (Editais da Coleção Coco de roda). “A busca pela paciência da criança que se divertia ao montar quebra-cabeças? –, dedicando a eles uma disciplina que há muito não tinha, revisando-os e planejando novas propostas de edições futuras”.

Para ela, tem sido reconfortante retornar às obras publicadas (infantis e poemas). “E reconhecer dentro delas, de um lado, uma autora impulsiva e bem menos madura literariamente, e de outro, uma mulher sonhadora e corajosa que seguiu lendo e estudando e se legitimando a escrever, na medida em que validava seu corpo de mulher, sua existência e sua história num autoabraço não punitivo (nem todos as carícias são confiáveis, as “trinta moedas de prata” nos reforçam a lembrança) pelo qual a empatia com o mundo se pariu como consequência orgânica: minha arte não se pretende militante, mas é política, sim, e acredito nela como efetivo instrumento de transformação social”.

Segundo ela, sem leitura, “transcorre às mãos o risco de nos tornamos Hanna Schmitz, e nenhuma de nós deseja ter acesso à incompreensão culposa cujas ações nos levam a atrocidades – aos que têm memória curta: três cliques: “um”, “sete” e “confirma”: mais de 9,2 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica desmatada só nos últimos 12 meses (uma área equivalente a seis vezes o tamanho do município de São Paulo), segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)”.

De maneira isolada, Sara reflete: “Lá fora, não dão trégua as “vidas perdidas”, por covid, por racismo, por ausência de acolhimento institucional, que, tão cansadas e impotentes, as angústias, por conta, esgueiram-se para longe dos olhos e são distribuídas da cervical ao sacro num desdobrar-se de agulhas ao longo de toda a dorsal e lombar que sublinham o S da escoliose, o S de “Sara Sofredora”, um amigo brincou comigo certa vez, dando-me uma tapinha onde? Nas costas”.

“A ironia é apenas mais um dos sentimentos desse “mundo vasto mundo”, se bem que Drummond já nos adiantou, gauche na vida, que o artista carrega mais que isso: duas mãos e O próprio sentimento do mundo; e então me lembro de Atlas, o titã condenado a sustentar nos ombros a abóbada celeste por toda a eternidade. Seremos nós, os que se deixam atravessar por todo esse caos, punidos a desempenhar estátuas de Rodin, nunca mais não pensantes, nunca mais desprovidos de sensibilidade porque fomos eternamente empalados no método cartesiano e, por isso mesmo, nunca mais sem as dores nas vértebras que nos impulsionam os ombros para frente, a força criativa escorrendo até os dedos com os quais escrevemos poesia? Ser humano é de uma responsabilidade intransferível, de domingo a sábado e, se eu me chamasse Nonato, seria uma rima, não uma solução”, acrescenta.

Sara também contou que, durante a pandemia, percebeu que o acesso aos trabalhos dela ficaria restrito ao meio virtual. Ela teve contratos de palestras literárias em colégios e instituições culturais parceiras suspensos, e ir aos Correios para enviar os livros autografados deixou de ser uma opção.

“E, além de usar o perfil do instagram @sara.albuquerque._ como o principal meio pelo qual mantenho contato com os meus amigos, passei a reutilizá-lo, de forma mais consciente, para duas finalidades: a primeira é servir de apoio à divulgação dos trabalhos de outros artistas que, menos privilegiados que eu (todo mês, cama, comida e antidepressivos garantidos), veem-se à mercê da implementação de políticas públicas por parte da Secretria Especial de Cultura – uma fria, o inverno de 2020 está terrível e, nesta semana, minha xará que o carrega de alcunha o expandiu do Oiapoque a Chuí; para completar, dizem que, também por esses dias, vai nevar aqui no Rio Grande do Sul, esse clima me assusta, esperneia a vulnerabilidade dos que não têm teto”.

Sara diz que os colegas artistas estão preocupados com o cenário atual – assim como ela – e reinventando a  própria forma de obtenção de sustento. “Porque desistir é coragem difícil, somos programados para tentar”, poetiza a escritora Jarid Arraes“, cita.

A alagoana reforça que em sites como Catarse, Benfeitoria, Apoia-se, é possível colaborar direta e solidariamente com a renda mensal de artistas mais vulneráveis e também junto às editoras e livrarias, que igualmente sofrem, na estrutura, com esse desmantelamento na educação e cultura: “há uma proposta de reforma tributária que objetiva aumentar em cerca de 12% o valor do livroe aí, você, consumidor final que o compra parcelado no cartão de crédito, de súbito, vai adquirir uma pilha deles agora que, graças à inflação, tudo está mais caro? Um tiro na ampliação do intelecto”, reforça.

Outro objetivo da alagoana na alimentação do perfil @sara.albuquerque._ e compartilhar as inquietações pandêmicas do dia-a-dia entre os cinco cômodos do apartamento, um grão de areia num país em plena devastação.

“Inclusive, tenho refletido muito sobre o uso emocionalmente inteligente dessa rede social (em potência, tóxica e nociva à saúde mental): o desafio é, a partir de então, ressignificar a plataforma enquanto portfólio para acesso aos trabalhos que venho criando em home officeescritora contemporânea brasileira trabalhando remunerada e exclusivamente com sua solitude na frente do computador, em casa, antes dessa pandemia, existe? Rapunzel desceu a torre faz tempo, estamos gritando pelos poros todos e temos que fazê-lo, pois não nos resta outra opção, inclusive, de retorno financeiro, seria maravilhoso se a sopa de letrinhas pagasse as contas, mas temos mais que estômago. Às vezes, queremos vomitar o país“, diz.

A escritora também está organizando em hashtags: na #leituraquesara, poesias autorais, o grito diante da tragédia política e institucional do “que país é esse?”; na #larinvitro, fotografias em representação ao corpo quarentenado; na #rededeapoioliteráriodasara, reflexões sobre a escrita criativa e divulgação de livros e eventos.

“Para começar em setembro, estou planejando um ciclo de projetos literários mensais: o primeiro deles são as vídeo-performances do meu livro de poemas “sete centímetros de língua” (Patuá, 2018), um convite à reflexão da sobrevivência das mulheres na sociedade patriarcial”, conta.

“No mais, neste início de agosto, passei a registrar um diário no projeto “Os dias e as noites”, organizado pela escritora Moema Vilela – uma página de diários pessoais, aberta a qualquer interessado que se sinta à vontade para partilhar suas vivências da quarentena. Mas, antes disso, em abril, relatei o dia 39 no Diário da pandemia, organizado pela escritora Julia Dantas, uma tentativa de reunir relatos daqueles que estão atravessando os tempos de coronavírus em Porto Alegre”,

Essa é a minha mais nova rotina: permanecer e trabalhar em casa e, daqui mesmo, estar atenta à poesia do mundo (a que me chega pelas obras de outros artistas e me ajudam a sobreviver; e as outras que me provocam em rastro de cobras – por ora, Ney, só me falta ver o couro de lobisomem – e me exigem virar poema, ou eu não durmo nunca mais).

Mulher na escrita
Foto: Davi Boaventura.

Sobre ser mulher e escritora, Sara diz que sente-se como uma “mulher que sabe que o corpo dela é tão somente dela assusta muito porque não permite que a reprimam”.

“Agora, imaginemos que essa mesma mulher, reconhecendo a sua potência, toma para si a legitimidade de manusear as palavras com a mesma liberdade que compreende a sua existência. Abracadabra tem poder – temem-se tanto as escritoras porque, não apenas sabemos disso, mas também faz parte do nosso trabalho provocar o mundo: o pensamento crítico é uma abóbora”, falou.

Por fim, a alagoana disse que já a mataram demais, antes da pandemia, além das mãos, do sentimento, ela carrega todas as cicatrizes das ancestrais. “Por isso, já que tenho o privilégio de poder cumprir o isolamento social, sim, eu fico em casa. Não apenas porque minha imunidade é escorreita, ou porque me pesaria demais a consciência de estar por aí sendo vetor de um vírus que já matou mais cem mil pessoas no Brasil. Permaneço em casa porque, enquanto artista, manter-me viva é um ato de coragem política. E enquanto mulher, manter-me viva é, em si, o meu maior ato de resistência“.

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Estilo de vida Interna Notícias

Mães vivem incerteza e medo na volta às aulas presenciais; psicopedagoga alerta para diálogo

A volta às aulas presenciais em meio à pandemia do novo coronavírus e sem uma vacina até aqui descoberta pela ciência, virou um pesadelo para os pais, que temem o contágio dos filhos no ambiente escolar. Mandar crianças e jovens para a sala de aula é algo ainda inimaginável para muitos. Drama também para quem segue tentando acompanhar e ajudar os filhos nas aulas on-line e até para os estudantes universitários. A educação vive um novo momento. 

O Eufemea ouviu mães que falam sobre a preocupação com essa retomada. Ouviu também uma psicopedagoga, que fala sobre a preparação para a retomada do ponto de vista psicológico o que isso representa para o aluno, há mais de cinco meses em isolamento social e em vários casos sem aula nem mesmo virtual. 

“Não concordo com retorno em pleno final do ano. Há riscos pra casa, uma vez que residimos com minha mãe hipertensa e meu irmão diabético”, diz Fernanda Morais, mãe de Sofia Aranda, aluna do ensino fundamental I, quarto ano, em escola privada. 

Ela considera que não há mais como se falar em resgate do ano letivo após tanto tempo sem aulas presenciais. “Por mim, não há como resgatar o ano letivo, pois seria injusto, mesmo sendo uma despesa grande “perdida”. Por mim, continuaria on-line, pois é melhor ter as aulas para que possa fazer alguma atividade do que permanecer totalmente ociosa”. 

Por outro lado, Fernanda chama atenção para a questão do desenvolvimento e rendimento escolar nas aulas virtuais.  

“É complicado pagar e saber que a criança não tem o mesmo rendimento, pois as notas estão ótimas, mas o conhecimento restrito. Ela passará de ano pelas notas, mas sofrerá para acompanhar uma série que exigirá mais. Terá que se esforçar bastante e já prevejo mais gastos com reforço. Por outro lado, seria justo ela passar de ano e quem está na rede pública não passar? Por não ter tido acesso a material, computador, internet, por ter pais ou responsáveis analfabetos que não poderiam ajudar na tarefa de casa… São muitos entraves. Muito complicado”. 

Fernanda Morais, mãe de Sofia Aranda

Dificuldade nas aulas on-line 

Fernanda lembra ainda que o atual cenário é muito difícil para os pais. “Aulas presenciais suspensas e mensalidade com desconto determinado pela Justiça. Aulas on-line pelo mesmo período das aulas presenciais ou seja, umas quatro horas e meia. Implica em ter uma boa internet. Tive que trocar por uma mais cara. Um bom aparelho smartphone ou notebook. No caso meu notebook quebrou durante esse processo.️ E também estou sem impressora. Graças a Deus a escola não manda material além do que consta nos módulos”. 

Diante de todos os entraves, Fernanda considera que se torna complicado exigir da filha criança. “A dificuldade em exigir maturidade a uma criança de 10 anos para que esteja disposta a sentar por mais de quatro horas estudando, sem contar com as tarefas de casa, tendo ao seu redor inúmeros atrativos como TV, Internet, jogos… Distrações de toda sorte! Dificuldade em mudar a rotina porque teria que sentar e estudar com ela, passando as quatro horas e meia dedicadas as tarefas”, ela revela. 

“Confesso que não estou exigindo após vê-la aos prantos depois que chamei sua atenção após a coordenadora me informar que ela estava entrando nas aulas atrasada. Chorou dizendo não gostar de aula on-line, que prefere a escola física. Acredito que exigir à força não vai render aprendizado”. 

Dona de escola e mãe: “Não concordo” 

Kátia Rejane da Silva, 40 anos, é mãe de Karen Rayane da Silva Lobo, 20, cursando Pedagogia na Ufal, e de Maria Karollyne da Silva Lobo, 19 anos, que cursa Administração em faculdade particular. Kátia é  proprietária de uma escola de porte pequeno na parte alta de Maceió. Ela analisa com precaução a volta às aulas.  

Kátia é dona de escola na parte alta de Maceió, perdeu cerca de cem alunos, as filhas Karen e Maria Karollyne cursam universidade, mas ainda assim ela diz não concordar com a volta às aulas: “Vejo de perto o quanto as pessoas ainda não estão preparadas”

“Bem, a filha que faz Ufal  pra mim foi uma decepção por ser federal e não estar tendo nenhum tipo de aula remota e não entendo qual a dificuldade em passar essas aulas já que há recursos pra isso. Me preocupa, pois será um período perdido. Isso me deixa triste como mãe. A filha que faz faculdade privada está tendo aula sim remota, porém a faculdade neste momento de pandemia deveria dar um suporte maior a esses alunos universitários. Percebo também a dificuldade em professores não preparados para este momento que vivenciamos”. 

Quanto ao retorno das aulas presenciais, Kátia afirma que é contra. “Tanto como mãe ou como empresária, não concordo. Tenho uma escola de porte pequeno na periferia do bairro Cidade Universitária e vejo de perto o quanto as pessoas ainda não estão preparadas para o que estamos vivenciando e parece que está tudo “normal” e não é bem assim”, ela diz. 

“Pois bem, meu lado mãe não deixará minhas filhas retornarem à faculdade. E meu lado gestora não concorda também. Trabalho com crianças de 2 a 8 anos e não vejo entendimento deles para um convívio em escola. É difícil também ser contra onde muitas escolas lutam pra que retornem eu vejo que o retorno trará maiores consequências do que manter como estamos em aulas remotas, apesar da inadimplência que me deixou no vermelho a ponto de fechar”.  

Kátia diz ainda não conseguir imaginar “abrir a escola e uma criança pegar Covid ou ter algum sintoma desses que a mídia aos poucos está trazendo à população. Nunca acreditei que a criança era imune. Nossa, não fazia sentido algum isso! O que mais vejo é adulto de máscara e crianças não. Como essas crianças ficariam na escola de máscara? Elas iriam trocar máscara, objetos abraços e beijos”, avalia. 

Ela lembra também que “esta faixa etária requer atenção, muito carinho e o tocar entre elas é essencial. Bem sei que minha empresa está abalada com tudo isso, mas tenho que pensar que se ficamos até agora, então aguentamos até dezembro. Só gostaria que os pais vissem a responsabilidade em manter as mensalidades para que a escola assim não fechasse, daí tenho certeza que a maioria das escolas não estaria nesta ânsia de abrir porque nada mudou em nossas contas. Respeito a opinião de todas as escolas, porém a minha visão é esta”. 

Ao Eufemea, Kátia destacou a situação das escolas da periferia. “Que bom que abriram este espaço para nós pequenos empresários. Estamos preparados da forma que a nossa condição nos permite para receber esses alunos, apesar de achar que deveria ser opcional as escolas retornarem ou não com as aulas presenciais”. 

A escola dela, revela Kátia, perdeu em torno de cem alunos. “Me sinto péssima com tudo isso, mas caso não possamos voltar, digo até que fico aliviada. Os riscos são muitos em aglomerações, contato físico, e não sabemos se há familiares contaminados. São inúmeras dúvidas e medo. Professores estarão também em riscos constantes. Somos doação de amor. Como não passar para nossos alunos isso? Eu não consigo imaginar!”. 

Kátia Rejane, mãe de Karen Rayane e Maria Karollyne

Quanto a planos futuros, ela diz que apesar das dificuldades não pretende fechar a escola. “Tentarei me segurar até o último aluno. Nos manter está sendo praticamente um milagre, assumo isso. Tá muito difícil. Tem dias que nem dá ânimo pra continuar. Estou em oração para que nos ajude até isso passar, sabe … A escola é minha vida meu trabalho, meu sonho, e tenho que buscar forças pra não cair. Porém, repito: apesar de toda dificuldade que estou passando, voltar não é a saída”. 

Em tom de desabafo, Kátia fala: “Peço desculpas aos colegas gestores que estão ansiosos com o retorno. Eu entendo e respeito, mas esta é minha opinião pessoal, pela qual também sou apoiada pelos pais dos meus alunos e isso me dá mais forças em pensar que estou certa na minha visão. A maioria que tenho contato já me falou que se voltarem as aulas o filho não volta, ficarão em aulas remotas e outros pais optaram em tirar da escola e falaram que só próximo ano. Então temos que aceitar a realidade e buscar manter os pais que continuaram conosco nesta luta e tentar o máximo dar segurança e passar segurança aos nossos alunos. Isso pra mim hoje é o mais importante”. 

“Quem deve decidir são os órgãos competentes” 

Ester Monteiro é formada em Pedagogia e Psicopedagogia pelo Unifai (Centro Universitário Assunção), em São Paulo, onde integrou a diretoria da  Associação Brasileira de Psicopedagogia- Seção SP, no período de 2011 – 2015. Atualmente atua em Maceió e conversou com o Eufemea sobre a volta das aulas presenciais.  

Ester Monteiro é formada em Pedagogia e Psicopedagogia: “Acredito que a maior dificuldade será  o distanciamento, pois a interação social na escola é essencial”

“Muitas escolas já estão preparadas para o retorno, com  protocolos e recursos de materiais. As escolas deverão planejar um retorno que seja eficiente e tranquilo. O retorno precisa ser cauteloso, mas quem deve decidir o retorno às aulas, sem uma vacina, são os órgãos competentes da Saúde.   Caso as aulas voltem sem uma vacina,  as instituições  deverão seguir com diretrizes rígidas  e claras  para prevenção.  Como por exemplo, garantir distanciamento e higienização”, ela afirma. 

Ester Monteiro, psicopedagoga

Segundo a profissional, “algumas escolas já estão preparando informativos, lives, debate, canais de comunicação. Atualmente faz parte do nosso cotidiano usar máscara,  distanciamento e álcool em gel. As crianças já estão “socializando” com a nova mudança de rotina.  Sendo assim, o retorno será mais  tranquilo. Acredito que a maior dificuldade será   o distanciamento, pois a interação social na escola é essencial e primordial, principalmente para os menores”. 

“O momento é delicado, há muitas incertezas e medos. Os responsáveis devem conversar com as crianças, levando em consideração a idade e o nível de compreensão. O adulto deve ouvir a criança, suas aflições e dúvidas. O diálogo deve ser transparente, passando para as crianças informações seguras”. 

A psicopedagoga falou ainda sobre o que diz a lei em relação à garantia da criança e do jovem de estudar. “Sabemos que por lei os pais têm direitos e obrigações em relação aos filhos.  E está no Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), caso os responsáveis não levem a criança para escola, é considerado negligência, podendo vir perder a guarda. Mas nesse momento está havendo um debate, pois muitos pais não querem enviar seus filhos para escola. Algumas cidades do Brasil, como por exemplo São Paulo, está elaborando uma resolução, onde permitirá aos responsáveis  optar por mandar ou não as crianças, mesmo com o retorno autorizado pelo Estado. O aluno poderá assistir e participar de forma online”.  

Ester diz ainda que é preciso “confiar nos órgãos competentes. Está sendo um ano difícil para todos, crianças, pais e escola.  Temos muitas realidades, uma sociedade desigual que acaba refletindo na aprendizagem. Para aquele aluno que mora na periferia, que não tem uma internet, o ensino não será satisfatório.  Caberá  a escola  estruturar e implementar uma gestão que possa recuperar  esse ano, através de cronogramas de reposição, organização de atividades complementares,  revendo  o planejamento anual para o retorno das aulas”. 

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Após caso de estupro de menina de 10 anos, pernambucana cria guia de como proteger crianças de abusos sexuais

Foi após perceber a repercussão do caso envolvendo o estupro e gravidez de uma menina de 10 anos que Larissa Braga, que mora em Recife, Pernambuco, decidiu criar uma estratégia virtual para proteger as crianças de abusos sexuais. Larissa também já foi vítima de abuso sexual e contou ao Eufemea que o caso da menina gerou gatilhos nela, mas que ela optou por transformar a dor em algo que pudesse ajudar outras crianças.

Larissa disse que o material surgiu com caneta e papel, montado como esquema de diálogo. “Coisas que diria facilmente aos meus filhos e que queria ter escutado quando fui vítima”. Mãe de Maria de 8 anos e José de 6, ela usou a estratégia com as crianças.

“Eles entenderam quando expliquei. A primeira reação foi de espanto, mas fui pontuando cada “slide” com eles e depois dava espaço pra eles me contarem o que entenderam, como eles absorveram aquilo”, explicou.

Ela disse que ensinar e informar é necessário, mas é preciso ouvir também as crianças. “Acho que a gente precisa estar presente na leitura, contar o que achamos sobre e abrir espaço pra eles manifestarem seus sentimentos”.

Por ter sido vítima de um abuso sexual, a mãe não quer que os filhos passem pela mesma situação. O trauma que ela viveu está até hoje presente na vida dela. “Ainda é um assunto complicado pra mim. Eu por muito tempo, até mesmo depois de consumir informações sobre, achei que tive culpa. É muito complicado esse processo todo. O que sei é que são marcas que vou carregar pra sempre”.

Por causa disso, Larissa tem outros projetos para contribuir para uma sociedade menos nociva.

“Eu me preocupo muito em como levar eles até as redes. No momento estou produzindo um, em parceria com uma psicóloga infantil, falando um pouco mais sobre os sinais que uma criança vítima de abuso pode nos dar”, contou.

Mas ela chama atenção também para o papel dos pais que não conversam com os filhos. O assunto, de acordo com ela, é considerado tabu. “A sexualidade em si ainda é um tabu e aliado a isso temos a ignorância. Muitas pessoas entendem que falar sobre esses assuntos é estimular sexualidade”.

Como surgiu o material?

Larissa demorou mais ou menos um dia para terminar o material. “Fui lendo e assistindo os vídeos dos fundamentalistas na porta do hospital. Li comentários que questionavam como abordar o assunto “abuso sexual” com crianças e tive o start. Finalizei o material pela manhã”, comentou.

Mas não é a primeira vez que ela cria um material para as crianças. Em outra oportunidade, Larissa criou um material sobre feminismo para crianças. Entretanto, segundo ela, os cards de como se pode proteger as crianças fizeram um sucesso que não ela não esperava.

“Eu enviei o material de como proteger as crianças para o pessoal do @seremosresistencia e eles respostaram, foi um boom. A maior parte das pessoas me enviaram mensagens agradecendo. A grande maioria dos feedbacks foi positivo”, contou.

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Vídeo de jovem com câncer de mama aos 23 anos viraliza: “Que minha história possa inspirar”

Foi no autoexame que a empresária Mírian Carvalho descobriu um nódulo no seio, procurou um médico e tempo depois ouviu a notícia que jamais imaginou: aos 23 anos está com câncer de mama. Há quatro dias, ela decidiu raspar o cabelo que estava caindo muito por causa da quimioterapia. O vídeo em que a própria Mírian em lágrimas faz o procedimento, viralizou e  ela tem recebido inúmeras mensagens de apoio na internet.  

A jovem, que mora em  Estância (SE), conversou com o Eufemea, a quem contou sobre a descoberta do câncer em junho deste ano e como está lidando com a doença.  

“Sou empresária, tenho lojas de roupas de multimarcas. Tenho câncer de mama, descobri em junho deste ano.  Tinha um tempo que não fazia (exames), mas acabei sentindo o nódulo ao tocar o seio e resolvi me consultar. Foi no autoexame que descobri. Não sei de casos na família,  pois sou adotada”, ela contou. 
O vídeo em que Mírian raspou a cabeça e emocionou a internet: “Tantas coisas se passam na cabeça que parece um filme”

Na legenda do vídeo, ela disse: “Não me entenda mal. Sabemos que cabelo cresce novamente e que a saúde é importante, mas hoje senti o peso que essa parte de mim tinha …tantas memórias, tantos planos já fiz para mudá-lo, tantas cores e cortes e modelos já usei ao longo dos anos, tantas coisas se passam na cabeça que parece um filme”. 

Mírian disse ainda estar focada e confiante no tratamento e falou da decisão de raspar o cabelo.  “Já tinha feito a primeira químio e ele começou a cair muito e estava me incomodando demais, então resolvi raspá-lo. Estou nos ciclos de quimioterapia”. 

Empresária da moda, ela ressalta que seu foco agora é o tratamento e espera que sua história possa servir para motivar pessoas a não desistirem de lutar e vencer situações difíceis.  

“Acredito que minha história possa incentivar e inspirar outras pessoas que estão passando por coisas parecidas ou alguma situação difícil na vida a nunca desistir e sempre aceitar as fases que a vida te apresenta”. 

Ela conta que morou sozinha muitos anos e que sempre gostou de moda. “Trabalho com moda e fotografo pra lojas, sempre gostei muito desta área. Agora estou com minha mãe. Separei no fim do ano passado, um namoro que foi quase um casamento. Sou filha única, tenho duas primas que considero como irmãs, pois fomos criadas juntas”, revela, ao dizer: “Agora estou focada apenas no meu tratamento, meu foco é minha cura”. 

Diante da notícia, o inevitável, o medo, que hoje Mírian transforma em fé e confiança.

“Tive medo, pois o desconhecido causa isso e essa doença só o nome dela já nos assusta muito… nunca me revoltei, sempre acreditei que Deus tem um plano maior pra nossas vidas e eu pensei que se isso aconteceu na minha era porque eu teria forças pra vencer!”. 
Apaixonada por moda, Mírian diz que o foco agora é a cura: “Agora estou focada apenas no meu tratamento, meu foco é minha cura”

Mírian fala ainda sobre o apoio que tem recebido, principalmente depois que o vídeo. “Venho recebendo uma corrente enorme de amor, empatia e muitas orações de todas as religiões. Fico cada dia mais forte com tantas energias positivas que recebo ao meu redor e sou muito grata por isto”. 

Das fotos de moda, ela passou a postar mensagens de otimismo  e de luta com o tratamento. “Desde que soube que iria ficar sem meus cabelos eu temia que minha autoestima fosse junto com eles e hoje eu percebi uma coisa: não são os cabelos que fazem a sua autoestima, o que te  faz brilhar é o que vem de dentro, é aquela força interior, aquela vontade de viver … isso é o que te faz bonita. A beleza não é algo superficial, a beleza é algo que vem de dentro. Hoje eu sei disso mais que tudo”. 

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Você está pronta para viver uma fantasia sexual? Educadora em sexualidade dá dicas; confira

Qual a sua fantasia sexual? Falar sobre fantasia sexual ainda é considerado um tabu e poucas pessoas se abrem para conversar sobre este assunto. Até mesmo com o parceiro ou parceira. E quando se tem um casal que caiu na rotina, será que a fantasia sexual pode dá um ‘UP’ na vida dos dois?

A educadora em sexualidade, Laylla Brandão disse ao Eufemea que as fantasias sexuais são grandes trampolins da vida sexual. “Podendo nos proporcionar novas sensações e vivências. Ela se torna um importante motivo para excitação da sexualidade individual e conjunta”, explicou.

Laylla disse que ainda quando crianças, amamos viver as fantasias e alimentar a imaginação. “Temos brinquedos e vivemos em mundos mágicos alimentados pela criatividade”.

Na fase adulta, isso não muda muito, mas as pessoas começam a viver fantasias dentro do mundo erótico. “Apesar de setores mais maduros e formas de satisfação diferentes, vivemos fantasias, mas dentro do mundo erótico e sensual”.

Para Laylla, viver uma fantasia sexual pode ajudar os casais que caíram numa rotina. “Tudo que é criativo e fantasioso é positivo”. 

A educadora reforçou “que por mexer maravilhosamente bem com nossa imaginação e criatividade, as histórias sexuais imagináveis são importantes para evolução do relacionamento”.

Mas alertou que é preciso ter cuidado e cautela. “Toda e qualquer fantasia precisa de conversa, negociações de limites e possibilidades pelo casal/sujeito”.